Somos realmente serezinhos bastante frágeis. E isso independe completamente de nossa massa muscular, ou da quantidade de suplementos alimentares que ingerimos. Independe também de nossos cargos profissionais, de nossa conta bancária, e do tamanho de nossa suite.
Semana difícil, essa. Pra começar, um feriado bem no meio, quebrando a harmonia dos dias. Soma-se a isso, a casa destelhada, em obras; os móveis de pernas para o ar; a estante de livros inacessível e o chão da sala, nu. E mais: familiares com problemas de saúde, faxineira de férias, e a ideia insana de organizar um casório em três meses.
Pra piorar um pouquinho mais: extrato bancário, digamos, rebelde; tensões musculares via travesseiro deformado; enxaqueca; e a sensação bizarra de que tudo está bem, em algum lugar, mas não consigo discernir exatamente onde.
Alguém sabe me dizer como estão os astros nesta semana? Podem me chamar de esotérico, mas tenho certeza que, dentro de mim, tá rolando algum tipo de engarrafamento energético que está me impedindo de fluir. Onde está o Marcelo, meu personal-japa-acupunturista neste momento? Por que a Mel não está aqui, reflexologizando meus pés?
Pelo menos meu cachorro-filho me abraça, do seu jeito, mas abraça.
Afe, Neosaldina: pára de ser preguiçosa e me arranca fora essa cefaleia existencial!
POR TUDO QUE SINTO
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
domingo, 28 de agosto de 2011
Doce setembro
Lembrei agora de uma aula de educação física nos tempos de colégio... Era um jogo de futebol onde eu, zagueiro, sempre zagueiro, conversava com o 'goleiro sempre goleiro'. Pra mim, os jogos se resumiam, desde meus 12 anos, a conversas filosóficas com os goleiros. Porque geralmente nós, zagueiros e goleiros, tínhamos mesmo uma inclinação mais apta para atividades mentais do que esportivas.
Nesse jogo-debate do qual me lembrei hoje, falávamos sobre os motivos do mês de agosto ser chamado de "mês do cachorro louco". Concordávamos, de lá de nossos 12 anos, que este mês tinha mesmo um astral meio estranho, e, na ocasião, lembro de nos sentirmos igualmente aliviados com o proeminente fim de tal mês, e com a chegada do doce setembro. E nos aliviava também o tal jogo estar chegando ao fim, e a fantástica habilidade de nosso time que, ofensivamente, não permitia que a bola chegasse do nosso lado, e permitia assim que a nossa conversa fluísse sem intromissões indesejáveis de bolas bicadas!
Hoje, num domingo lindo de sol que veio secar a névoa de uma semana especialmente difícil deste mês do cachorro psicótico, sinto novamente esse alívio de 19 anos atrás. A única diferença é que, na falta do time habilidoso, hoje preciso me ocupar sozinho tanto do ataque quanto da defesa, e ainda arrumar brechas para esses respiros filosóficos. Nostalgia desta época protegida! Alegria por ter armas e estratégias suficientes para seguir por mim mesmo!
Que venha o doce setembro! Que venha com brisas suaves!
Nesse jogo-debate do qual me lembrei hoje, falávamos sobre os motivos do mês de agosto ser chamado de "mês do cachorro louco". Concordávamos, de lá de nossos 12 anos, que este mês tinha mesmo um astral meio estranho, e, na ocasião, lembro de nos sentirmos igualmente aliviados com o proeminente fim de tal mês, e com a chegada do doce setembro. E nos aliviava também o tal jogo estar chegando ao fim, e a fantástica habilidade de nosso time que, ofensivamente, não permitia que a bola chegasse do nosso lado, e permitia assim que a nossa conversa fluísse sem intromissões indesejáveis de bolas bicadas!
Hoje, num domingo lindo de sol que veio secar a névoa de uma semana especialmente difícil deste mês do cachorro psicótico, sinto novamente esse alívio de 19 anos atrás. A única diferença é que, na falta do time habilidoso, hoje preciso me ocupar sozinho tanto do ataque quanto da defesa, e ainda arrumar brechas para esses respiros filosóficos. Nostalgia desta época protegida! Alegria por ter armas e estratégias suficientes para seguir por mim mesmo!
Que venha o doce setembro! Que venha com brisas suaves!
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Malhando a relação
Ontem uma amiga falava de suas frustrações com os homens atuais, dividindo-os em duas categorias: "os blasés e os cuzões."
Os blasés seriam aqueles que se acham a última bolacha do pacote, resumidamente, e que jogam a lei da oferta e da procura.
- Muita mulher disponível, posso esperar a noite inteira para escolher "a minha merecedora".
Os cuzões seriam aqueles que, teoricamente, querem achar uma fêmea, mas que ainda não sabem lidar com as mulheres modernas mais independentes e que tem medo de assumir compromissos e de se relacionar.
A questão é que, no fundo, acaba sendo tudo a mesma coisa. Os blasés são cuzões e os cuzões são blasés. (Desculpem o palavriado, mas não posso descaracterizar a classificação dela). O que acontece é que as pessoas estão perdendo a mão, estão desaprendendo a se relacionar.
Lembra do post que escrevi sobre escolher amar ou não amar. Pois é. Acontece que as pessoas escolhem amar, racionalmente, mas não fazem nada para colocar o tal amor em prática.
As pessoas escolhem investir num relacionamento com alguém. Mas o que elas fazem? Adicionam a pessoa no face. E basta! Como se isso já fosse o suficiente. Isso gera uma sensação errônea de posse, de garantia. Como se a carinha da menina no rol de amigos já fosse namoro (ou, no mínimo, sexo) garantido quando desse na telha. Eu sempre chamei isso de "teoria do potinho" - coloco a pessoa dentro de um pote e deixo lá, à disposição, para quando o bonito aqui decidir abrir para usar.
Sei que esse tema é batido, ponto comum, clichêzaço!! Não aguento mais falar do amor liquido, e tal, e coisa... Mas por quê ainda dói tanto nas pessoas?
Quando falei em escolher, racionalmente, amar, isso implica em uma série de atitudes e investimentos energéticos para fazer o amor dar certo. Não basta tomar a decisão, ligar a televisão, virar para o lado e dormir. Como se a decisão de amar alguém já fosse o próprio amor! Pois aviso aos navegantes: não é! Essa é uma atitude blasé!
Aquela velha máxima, chatíssima mas verdadeira, do "regar diariamente a plantinha"... Sabe? Pois é! Mas é isso mesmo, fazer o quê? Não tem como fugir disso. Dá trabalho mesmo! Amar é desgastante e queima calorias à beça! Como na malhação, o amor também funciona à base do "no pain, no gain"! A diferença é que a "pain" do amor, é uma delícia!!
Lembra antigamente, quando a mocinha era prometida para o mocinho e o mocinho para a mocinha? Que casavam sem nem se conhecerem direito? Que eram obrigados a permanecer casados, e assim, para não sofrer, aprendiam a amar um ao outro e, subitamente, viam-se "felizes" e satisfeitos com suas vidas amorosas? Quando os homens, para dar conta da poligamia genética da espécie, procuravam as prostitutas (que nada mais são do que os rostinhos da balada e do face de hoje, ou seja, possibilidades de relacionamentos sem compromisso), o que as mulheres, se pudessem, também fariam? Pois é. Estou achando que a fórmula para o casamento dar certo é muito parecida com essa, que sempre foi. Afinal, o casamento é um contrato social acima de tudo. Mas hoje em dia, ninguém mais é obrigado a isso (pelo menos não no mundo ocidentalizado). Ninguém mais precisaria procurar as prostitutas. Trata-se de uma escolha. Assim, hoje, dá para casar em liberdade! E manter casamento em liberdade, pelo livre arbítrio, é muito mais difícil, mas garantia de satisfação quando dá certo! Hoje, não precisamos mais da hipocrisia!
Portanto, a ginástica do amor não pode ser um esforço terrível! Não pode ser aquela aula de bike que você tanto odeia. Deve ser uma energia parecida com a que despendemos num hobbie sério, por exemplo. Deve ser aula de dança, não de aeróbica!
Sabe aquilo que você ama fazer, paralelamente ao seu emprego? E que para dar certo, exige um trabalho danado, mas que você faz sorrindo, com prazer, porque sabe que o resultado vai ser lindo e satisfatório? Pois é: construir uma relação deve ser assim.
Tem o lado ruim, cansativo, frustrante, os dias difíceis... É necessário abrir mão de muitas coisas, deixar-se de lado em alguns momentos (mas sem esquecer de te pegar de volta logo, logo!)... É um castelo de areia fina, frágil, porém lindo!
E essa "atitude amorosa" não pode ser unilateral. E isso está pegando hoje em dia. O individualismo excessivo, a "independência" excessiva, impede que as pessoas se deem ao trabalho de "perder tempo, energia ou dinheiro" num relacionamento. Elas se acomodaram! Afinal, basta ir para balada, ou entrar no facebook, para se deparar com a "enorme variedade de possibilidades" de novos e futuros relacionamentos! MENTIRA! E assim, se enganando desse jeito, as pessoas seguem sozinhas, cuzonas, reclamando e blasés.
Amar e sentir-se amado - tem coisa mais básica e batida do que isso?
Não dá para amar sem sentir-se amado (não estamos falando de amores incondicionais aqui, hein!)
E como fazer? Se estou cheio de amor para dar e não tenho quem receba? Ou melhor, quem saiba receber? Ou melhor ainda, quem saiba amar em troca?
Cuidado com essas perguntas, hein? Elas também soam blasés. Elas podem ser o avesso do individualismo que não ama!
Temos que baixar as expectativas. Afinal, nem sempre o que vem em troca vem do jeito que gostaríamos. O importante é que haja reação! Do tipo que for! O que não dá para aguentar é a apatia! Havendo reação, ótimo! Há vida amorosa aí! A qualidade desta reação, avalie somente depois de recebê-la! Esteja, acima de tudo, receptivo ao amor do outro. E não espere que seja igual ao seu!
PS.: Importante: às vezes isso soa como se o amor fosse algo racional!! A ESCOLHA DO AMAR OU NÃO PODE SER RACIONAL. MAS AMAR SÓ RACIONALMENTE, NÃO EXISTE!! Por isso, quando escrevo aqui do "investimento no amor", quero dizer, na relação. A presença de amor é condição basal! É capital inicial! E o investimento na relação, só faz esse amor inicial render mais e mais e mais! Entende?
E qual o reflexo disso tudo?
O ser humano não é bicho solitário, certo? É bicho de bando!
Então, já que esse excesso de liberdade e de independência está tornando o "relacionar-se" cada vez mais difícil, as pessoas estão voltando às premissas do passado. Ao casamento tradicional, careta e precoce - sim, as pessoas estão, novamente, casando-se muito jovens.
Mas o leite já está derramado. Essa "revolução contra-contra-cultura" leva os questionamentos dentro de si. Por mais tradicional que um casamento hoje tente ser, ele levará em si as ideias de liberdade, de independência, de sexo livre, de facebook, de quantidade de mais para qualidade de menos! A ideia de frescor, de transitoriedade, de lixo descartável, de que o velho e o mesmo não servem mais, dando lugar ao novo e ao inédito!
E isso tudo pode ser maravilhoso! Se um casal decidir se unir e estiver disposto a lidar com toda essa bagagem, a TRABALHAR DURO (mas com tesão!) para transformar o casamento em algo ainda mais sublime e verdadeiro, levando em conta as necessidades humanas e individuais, e este nosso cenário contemporâneo, em prol de um contrato de união real, fiel e delicioso de ser vivido, este casal pode construir um império!
Mas não basta decidir. Não basta saber o que deve ser feito! É necessário fazer! Juntos! O casamento é um projeto em sociedade! E se uma parte não faz, a que faz sozinha um dia se cansa e volta a procurar, lá fora, alguém que esteja tão disponível quanto ela para investir capital sentimental num relacionamento tão complexo (e tão fantástico) como um casamento! E aí surgem os amantes, as brigas de foice, as traições de diversos tipos, as disputas de poder... Enfim, o caos!
Numa sociedade, as disponibilidades para fazer a empresa dar certo devem ser equalizadas! Se um compra as velas, o outro compra o vinho! E assim o barco vai indo, tranquilo, deliciosamente caliente, generoso, cúmplice e companheiro!
É meus amigos, achar um partner é uma arte! Negociar as regras de um contrato é uma arte! E manter o contrato em vigor é também uma arte!
Humano+humano=obra de arte! Construtiva ou destrutiva! É tudo uma questão de escolha e de disponibilidade!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Escolher o amor
Ouvi hoje de uma pessoa próxima e muito amada, que está em meio a uma crise amorosa, o seguinte chavão:
“... Mas nós não escolhemos gostar ou não de alguém!”
No momento da conversa, concordei, por puro impulso. E agora escrevo aqui para discordar.
Talvez exista (e sabemos que existe) uma diferença gigantesca entre os sexos masculino e feminino – quem disse a frase é do time das meninas - mas posso dizer de boca cheia que muitas vezes já escolhi gostar de alguém, e outras mais vezes ainda escolhi não gostar.
É óbvio que alguns impulsos são incontroláveis. Atração física, por exemplo, muitas vezes é oito ou oitenta.
Mas também já escolhi sentir atração física por alguém que, ok, já me atraia alguma coisa, mas não tanto. Queria ficar ao lado dessa pessoa e consegui colocar em evidência os pontos fortes, em detrimento de dar peso aos pontos fracos.
Obviamente, sejamos moderados. Há casos que não fazem milagre. Questões de pele, de cheiro e de textura que ou batem com nossos feromônios ou não. E ponto.
Mas voltando à questão. Sou testemunha de alma de que é possível sim, escolher gostar de alguém. E mais ainda: é possível trabalhar este gosto e chegar ao amor; e mais ainda, é possível antes disso, passar até pela paixão, aquela verdadeira e fulminante mesmo.
E assim como já escolhi gostar num começo de relacionamento, tive que escolher gostar algumas outras vezes, no meio dele. Momentos de crises, de fraquezas, de dúvidas, que me exigiram horas e horas de olhos fechados e de trabalhos de memórias, para poder chegar à conclusão que queria aquilo para mim, e por isso, escolheria gostar novamente. Amar novamente. E quando dava por mim, estava amando ainda mais forte e verdadeiramente. Aceitando os defeitos, respeitando os espaços, descobrindo novidades a cada dia em meio às toneladas de mesmices cotidianas, novos ângulos, novos detalhes antes despercebidos. Um jeito novo de beber água, mudanças no corpo e no toque, mudanças nos beijos... Eternas novidades em meio ao pretensiosamente “conhecido” amante. Pois diversas vezes, descobrimos que não conhecemos assim tão bem, e pensamos novamente se queremos gostar ou não daquele estranho que do dia para a noite aparece. Estranho sim, mas com a mesma essência de sempre.
E também mais freqüente ainda é a escolha de não gostar! Resistir às tentações que aparecem, futuros amantes em potencial por quem, se deixarmos, nos apaixonamos. Mas se não deixarmos, não.
A paixão é química? Sim. Mas a escolha em nos deixarmos nos apaixonar é nossa. Muitas vezes me peguei pensando e sonhando com as qualidades de alguém que andava me rodeando, e quando dava por mim, já estava na iminência de uma paixonite. Opa! Peralá! Se eu quero continuar amando e a cada dia mais apaixonado por quem tenho ao meu lado, minha escolha é “não, não vou me apaixonar por essa pessoa! Hora errada, momento errado. Sorry.” Deste modo, posso até estar perdendo na diversidade, mas a cada decisão desta, a cada força de vontade tomada, as recompensas na qualidade são gigantescas.
Há uma frase da peça “Closer”, que virou filme, que me marcou muito desde a primeira vez, e que me assombra desde então:
“Existe sempre aquele microssegundo de escolha entre o ir ou não ir; entre trair ou não trair.”
Sou humano, afinal, e lotado de defeitos. E é essa frase que faz com que eu lide com minhas culpas. Não digo aquelas católicas, mas aquelas ligadas ao livre arbítrio e a responsabilidade dos meus atos.
“Torna-te responsável por aquilo que tu cativas” – lembrei dessa dias desses.
E em meio a acertos e a erros, nunca tirei minhas responsabilidades da reta. Minhas responsabilidades de ir ou não ir. De passar a gostar ou de não deixar isso acontecer.
Somos humanos, sim. Mas no fim, na maioria das vezes, o cérebro esquerdo (aquele que é chato e racional) sempre decide. A palavra final é dele.
Li hoje mesmo uma reportagem sobre uma síndrome, em que após uma cirurgia de separação de hemisférios cerebrais (isso mesmo, cortam o corpo caloso, que é o que liga as duas metades do cérebro), começa a haver disputa entre as mãos direita e esquerda. Cada lado do cérebro quer uma coisa. Mas geralmente quem dá a palavra final é o esquerdo, e quando isso não acontece, a briga fica de igual para igual. Isso é patológico, ou seja, fora do eixo. O habitual, é que haja esta soberania da razão. Se não nos auto-boicotarmos, é claro.
Esquecer as emoções e os sentimentos?? JAMAIS!! Mas sermos senhores deles! Senhores absolutos –na medida do possível, pelo menos.
Assim, continuo escolhendo amar, escolho amar cada vez mais, e sei que a escolha apesar de racional, é totalmente coerente com meu coração. Pois ele ama por ações, enquanto meu cérebro amar por palavras.
E continuo escolhendo nem mesmo gostar, quando não quero distrações para meu amor.
E sei que isso pode parecer racional ou “papo-cabeça” demais para muitos, mas digo com a maior sinceridade: como é bom para a alma saber de tudo isso! Como é bom para a alma poder amar com qualidade! E como é raro poder encher a boca para dizer “eu te amo”, e como é precioso (talvez a maior de todas as preciosidades) sentir-se amado por amar, e só por isso!
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Vrai ou Faux?

Como voa o tempo! Estava lendo as pouquíssimas postagens que subi no ano passado e parece que a de junho foi ontem, sendo que, num piscar, será outro junho novamente.
Enfim... Sei que estou um pouco obcecado com essa questão do tempo, da passagem dele, dos gráficos, da linha, afe! Também não aguento mais pensar nisso. Mas como é bom poder olhar para trás e perceber que você realmente colocou em atos muitos dos seus pensamentos; saber que suas ideias não morrem na praia, que não são fantasias absurdas ou neuróticas. Me embebi dessa sensação de ter os pés no chão, apesar dos sonhos, e estou confiando em mim mesmo. Um pouco prepotente, pode parecer, mas não é.
Preciso, neste momento em particular, deste auto-reforço-positivo. Estou aqui, roendo as unhas, frente a uma decisão muito difícil (apesar de ridícula) que tomei, cujos efeitos estão se mostrando mais difíceis ainda. Não vou falar dela. Quero esquecer e não quero criar expectativas.
Voltando à auto-confiança. Sempre fui muito ligado às opiniões alheias, e cada vez mais, ligo menos. Amém! Por um lado, isso é maravilhoso e libertador. Por outro, sinto que minha opinião sobre mim mesmo adquiriu um peso maior, não mais difícil de ser carregado, porém mais cuidadoso. Como se o que penso sobre mim mesmo tivesse cada vez mais valor e devesse ser levado cada vez mais em consideração. Ao mesmo tempo, naturalmente, parece que cada vez menos me importa ter opiniões sobre a vida alheia, e quando me pedem conselhos, olho com mais limpeza e carinho a essas vidas e emito palpites menos contaminados de mim mesmo, e mais essenciais a quem realmente interessam.
E disto eu falo por estar cada vez mais preguiçoso da involução, ou da falta de evolução das pessoas. Outro dia comentava sobre a dificuldade da perda da inocência que a vida adulta nos joga na cara diariamente - e voltamos à questão do tempo; não vou lutar contra ela, deixa rolar. Mas falava da falta de vontade de me envolver com coisas que parecem ser, mais do que são. Quanto mais nos tocamos do backstage da vida, quanto mais percebemos o papelão por trás do cenário, menos acreditamos no que está em volta, o que nos obriga a acreditarmos mais em o que está dentro de nós, para que não percamos a fé. Sabe o bom e velho "somos a semente, ato, mente e voz" que me acompanha há tantos anos? Pois é, bate outra vez, e cada vez mais forte. Ano 1, ano egoísta, no melhor dos sentidos. Ano que dá início ao que espero que seja uma década de verdades e verdades, longe do que é falso, do que é boicote e do que realmente não vale a pena! E que, assim, esta pena seja cada vez mais leve!
Quero gente gostosa ao meu lado, gente clara, gente brilhante. Quero dar pra quem me dá, quero ganhar de quem dei. Quero ser visto antes de ser pago, e ser amado antes de ser cobrado. Gente mesquinha e sangue-suga, fica longe do meu alho!
E se você continua se enganando com você mesmo, continua se enganando com o mundo, continua gostando de se deixar enganar, não é no meu fogão que irá encontrar alimento. Agora, se quer um parceiro para essa dor de ossos que é o amadurecimento, se quer alguém para brincar de criança de vez em sempre, mas que saiba voltar à superfície depois da brincadeira, se quer um companheiro de erros e de perguntas, ao invés do ingênuo dos "acertos" e "respostas", conte comigo, meu amigo! Tamo junto! E vamo que vamo, que a chuva nos espera!
Este post está algo esquizofrênico, eu sei. Mas acreditem em mim: isso é um ótimo sinal!
Enfim... Do que eu estava falando mesmo?
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Não-resolução de Ano tipo 1
E está dada a largada para mais um Ano tipo 1. Sempre pensei na linha do tempo desta forma, em décadas. Ano 11, assim, é ano 1. Parece que meus ciclos de vida duram mais ou menos esta quantidade de tempo. Talvez seja coisa de quem nasce em Ano 0, sei lá, mas de fato as coisas assim me ocorrem.
E assim começa meu quarto Ano 1: sem resoluções. Na verdade, com a resolução de não fazer resoluções, para assim cortar as ansiedades pela raiz.
Aos curiosos, conto que, incrivelmente, não viajei no reveillon. Fato que há 11 anos não acontecia. Mas como premiação, pude ser anfitrião de mais de trinta pessoas num final de semana delicioso, onde além de estar com amigos de longa data, com meu pai (com quem não virava o ano também há 11 anos), pude conhecer pessoas novas, pude brincar com o frescor de crianças lindas, cozinhar feito gente grande (em exageros sem fim de quantidades de comidas e bebidas, chegando ao trágico ponto do desperdício), e em meio a muita risada e vinho espumante, chegar ao ponto de gravar um curta-metragem trash nacional da pior qualidade (já editado e prestes a ser lançado em sessão privé).
Cheio de ideias na cabeça para outros filmes, para outros pratos, iniciando um curso profissionalizante de chocolatier, querendo dirigir ao menos uma peça nova neste ano, mergulhado nas deliciosas aulas de francês, canto e culinária, precisando parar de fumar e voltar a dançar e a nadar, disposto a terminar meu romance, atualizar mais meus blogs e ainda criar mais dois (e dar conta de todos), investindo mais na carreira médica em forma de consultório particular, pronto para viajar mais a cada oportunidade de escape, pensando se abro ou não um bistrô, se volto ou não às aulas de saxofone e de alemão... Bem, assim, cada vez mais me dando nós nessa vida multifacetada que amo levar e que escolho para mim, prometo que, neste Ano 1, não farei resoluções. Muito menos a resolução de não começar nada novo, de não inventar mais moda. Afinal, Anos 1 são feitos para isso!
Feliz Ano NOVINHO!!
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
EnvelheSendo
Não sei exatamente que palavra usar... Interessante? Talvez! É, talvez seja “interessante” se perceber na linha do tempo; se perceber envelhecendo.
Na vida, existem alguns momentos chave nos quais temos a chance de nos distanciarmos e nos vermos nesse gráfico sem fim definido que é nossa existência. Geralmente são momentos transitórios, de transformação; e teriam mesmo de ser, ou não poderíamos nos comparar conosco mesmos em tempos remotos.
Interessante nos perceber matando (mas não enterrando) algumas de nossas antigas personas, de nossos antigos hábitos, de nossas antigas células.
Interessante perceber as mudanças de resposta do organismo aos estímulos, e seu novo tempo para se recuperar de agressões (endo e exógenas).
Interessante perceber a volatilidade de tudo! De TUDO mesmo! Coisas que algum dia já foram tão importantes, desejos e certezas antes tão bem definidos e infinitos, mostram-se humanos (portanto finitos) e sem importância alguma. E outros vêm, também cheios de si como os anteriores, e por alguns momentos de impulso novamente esquecemos de sua transitoriedade, mas cada vez mais rápido nos lembramos dela, nos dando o direito de dar de ombros para essas peças que nos pregamos.
Interessante perceber-se mais um na multidão, o que não te faz nada especial, e ao mesmo tempo te faz tão especial, mas sem a megalomania da juventude inexperiente.
Interessante perceber que seu ano de nascimento já não aparece mais nas barras de rolamento dos formulários da internet, senão somente depois de duas ou TRÊS rolagens do mouse.
Interessante notar pessoas dez anos mais novas que você, já cheias de experiências, mas ainda tão longe de ter as suas! E notar pessoas dez anos mais velhas que você, e não mais se enganar com sua falsa maturidade e com seu ar adulto que tão bem esconde a fragilidade inerente aos homens.
Interessante perder o deslumbramento inocente, e ainda poder se deslumbrar com a perfeita imperfeição do mundo!
Interessante... Bem interessante esse passo a passo. É, cada vez mais assumo minha nostalgia antecipada do meu momento presente. Sempre fui assim... Viver o presente para poder contar sobre ele no futuro. Ou melhor, vivendo o presente já contando sobre ele no futuro...
Se essa por acaso é a tal crise dos 30, estou achando-a... Bem, interessante!
terça-feira, 6 de julho de 2010

Como viajar é bom! E como me esqueço disso com facilidade, infelizmente. Tenho sempre uma preguiça de fazer as malas e me mandar, mas quando o faço... Ah, o mundo é minha casa!
Interessante e útil é a visão contemplativa que uma viagem nos proporciona, da nossa própria vida.
Acabo de voltar pra casa, depois de cinco dias tranquilos, sabor delícia, regados a muito vinho branco e paixão. E sempre, antes de voltar, me pergunto: pra onde eu vou voltar?
Tenho desejado tanto, há tanto tempo, uma vida mais pacata. E esse conceito de "coisas boutique" que se dissemina por aí, e que em Buenos Aires (de onde vim) é realmente uma febre, me aproxima muito desse sossego que tenho almejado.
Seria mentira (e quem me conhece bem o sabe) se eu dissesse que quero uma casinha no campo. Cosmopolita que sou, arrancaria minha cabeça para instala-la na bunda rapidamente, frente ao tédio campestre como rotina. Mas um pequeno negócio boutique, ou seja, sofisticado porém simplista, elegante e charmoso porém humano, me cairia muito bem. Algo que seja meu, cuidado pelas minhas mãos e mente, feito com muito amor, por mais piegas que isso possa parecer. Proporcionar pequenos oásis aos outros em meio à loucura diária me faria realmente muito bem.
Nada que urgente de lobby, nada que envolva politicagem, caras e bocas, egos e falcatruas... Uma arte palpável, comestível talvez, algo que se aloje na vida do consumidor no ato, diretamente, sem papo cabeça, sem circo, sem show. Algo real, bonito, cheiroso, fino, artesanal e acessível. Algo que eu possa fazer sem leis de incentivo, sem equipes técnicas estelares, sem eruditos metidos à besta me rodeando! E que seja fomentado por ideias de vida e saúde, longe da morte e da doença. O que será, será?
A ver, a ver...
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Psiqueatro

Há duas semanas, voltei a trabalhar como Psiquiatra. Bem interessante essa volta, depois de quatro anos de pura negação e total mergulho na exclusividade da carreira artística.
Motivos para isso? São diversos; mas a oportunidade na hora certa, frente à necessidade de segurança financeira e ao desejo de ter uma rotina mais precisa de trabalho formaram um bom caldo para que eu tirasse o pó do jaleco branco. Alem disso, estava sentindo muita falta do contato com a vida alheia, que sempre me forneceu muito material para minhas criações artísticas.
A vida artística por si só estava muito chata, devo confessar. A convivência com artistas que orbitam seu próprio eixo e nada alem disso também estava me deixando muito frustrado. Meu tesão pela arte em geral estava broxa, e eu definitivamente estava precisando de uma boa pitada de realidade nua e crua no meu cotidiano.
O melhor de tudo é que a conciliação é perfeita! Tirando coincidências infelizes, na maior parte das atividades estarei por inteiro. A cabeça é que fica mais cansada, o corpo também, mas ambos estão sendo muito bem cuidados, obrigado.
Muito bem, então. Jalecos retirados do acervo de figurinos, um pouco de atualizações estudiosas, carimbo em punhos e ouvidos à obra.
Sabe o que me deixou mais contente? Sabe qual foi a grande mudança? Não precisei mais da cisão mental que me atormentava tanto antigamente. Não precisei me dividir mais entre o artista e o médico. Ambos se uniram, e estão apaixonados um pelo outro (regados de muita modéstia, claro).
Esses quatro anos de afastamento e negação foram fundamentais para que eu pudesse experimentar o outro lado da moeda, ou seja, o mergulho intenso no fazer artístico. Fundamental para sedimentar o ofício da arte na minha vida e na minha cabeça. Fundamental também para descobrir que isso não é lá muito saudável psiquicamente. Aliena. Emburrece um pouco. Todo artista precisa, com toda a certeza, de suas âncoras na realidade. Seja num negócio, numa atividade filantrópica, num estudo acadêmico, algo que o coloque em contato com a vida real e o lance contra sua atividade imaginativa. Acreditem em mim, colegas, os dois hemisférios cerebrais agradecem muito essa ação.
Minha única frustração (socialmente falando) e surpresa (artisticamente falando) foi perceber que 90% da clientela faz teatro. Sim, sim! Essa grande maioria de pessoas me procura para receber afastamento do trabalho. Um bando de preguiçosos querendo se aposentar pelo INSS com trinta anos de idade por “invalidez psíquica”, fazendo um teatro de primeira qualidade! Grandes atores no meu consultório de segunda a quarta-feira. Muito a aprender com eles!
Enfim, estava faltando meu lado real e encontrei. Não vai ser isso a vida toda, certamente (aliás, o que sabemos nós da vida toda?). Mas, por ora, essa atividade veio a calhar para meu equilíbrio cerebral. Coincidência ou não, desde que voltei a atender, muitos dos meus projetos artísticos que vagavam pelo espaço começaram a ganhar sua concretude!
E vamo que vamo! Psiquiator, ativar!
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Inveja... que merda!

Inveja: a arma dos incompetentes. Daqueles que não veem. Que não veem o quê?
Sentimento dos mais pequenos, este, e capaz de tantos estragos. Penso se vale a pena escrever sobre isso. Sempre encarei a inveja desta forma, dando a ela a insignificância que merece, e me protegendo por aqui, do meu jeito.
Minto se disser que nunca senti inveja de alguém. Humano que sou, muitas vezes me pego invejando. Mas tão logo percebo esse movimento, luto bravamente contra ele, de todas as formas, porque o que inveja sofre infinitamente mais do que o invejado. E então procuro desejar o sucesso àquele que tem o que eu não tenho, e corro atrás dos motivos e obstáculos que me levam a não ter meu objeto de inveja. E, na grande maioria das vezes, descubro que o boicote é meu para comigo mesmo, e não das circunstâncias.
É lógico que a sorte está muitas vezes relacionada a tudo isso, mas traduzindo a sorte como destino, e ficando em cima do muro sobre a questão determinista, acredito que nós damos a sorte a nós mesmos; ou seja, se soubermos aproveitar a sorte que nos pinta ao invés de desejar a sorte que não temos, seremos seres sortudos. Certo? E uma vez que somos seres sortudos, e também COMPETENTES (porque de nada adianta a sorte sem a competência), não teríamos a necessidade de almejar as sortes de outrem.
Mas... Nem sempre é assim que acontece.
Decidi escrever sobre isso porque tenho me sentido muito mal com algumas energias erradas que sinto serem lançadas sobre mim. Não digo apenas no plano metafísico, mas também objetivamente. Pessoas queridas, de quem gosto muito, não são capazes de avaliar suas invejas, e agem de forma agressiva, não medem palavras e muitas vezes dizem coisas pesadas e contrárias, que geram em mim um sentimento de repulsa extremo, uma vontade de me distanciar e de não mais compartilhar minhas experiências com quem julgo serem meus íntimos, familiares e amigos. Mas deixo que bate e caia (não desejo que volte), e vou tocando o barco, na esperança de que essas pessoas se resolvam e deixem de ter por mim tal atitude.
Com o tempo, porém, percebendo que as atitudes não cessam, noto minha armadura engrossando, e fico triste em pensar que gostaria muito de poder compartilhar minhas alegrias com essas pessoas, mas não posso. Pessoas que se tornam amigos de tristezas e frustrações, que te apoiam somente quando tem certeza de sua superioridade sobre você. No caso, sobre mim.
Sempre fui reservado, nunca esfreguei meus sucessos na cara de ninguém, e muito menos os fracassos alheios na cara dos fracassados. Acho baixo, pequeno, deselegante e muito feio.
Enfim... Meus amigos, resolvam-se. Tratem de suas pequenas felicidades e preencham-se de si mesmos, para depois podermos trocar figurinhas sobre nossas experiências, livres de complexos de inferioridade e de feições vitimizadas! Aquele que inveja é aquele que não vê. Como o quê? Sua própria vida!
E tenho dito! Com licença, agora preciso ir. Tenho minha vida pra fazer!
quinta-feira, 6 de maio de 2010
De todos os Santos!
Que "Viver a Vida" o quê! Vamos pra Bahia!!!!
Edição do queridíssimo Thiago de Mello!!!
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Derrubada a parede
A lembrança do avô, da menina, era a lembrança de um quase.
A lembrança se lembrava de um balão vermelho, que escapou das mãos do avô antes de chegar às mãos da menina. Era a lembrança das mãos que quase resgataram o barbante do ar. Era a lembrança do balão perfurando a atmosfera, dos olhares congelados de avô e neta mirando o céu branco-azul. Era uma lembrança perdida num impulso retido. Era a frustração de um 'se'.
Uma amiga me contou essa história uma vez. Não lembro se foi assim que ela contou, nem mesmo se assim mesmo aconteceu.
Mas minha lembrança da lembrança dela ficou deste jeito.
E é mais ou menos deste jeito, mais para menos que para mais, que começo a escrita de um novo espetáculo.
A lembrança se lembrava de um balão vermelho, que escapou das mãos do avô antes de chegar às mãos da menina. Era a lembrança das mãos que quase resgataram o barbante do ar. Era a lembrança do balão perfurando a atmosfera, dos olhares congelados de avô e neta mirando o céu branco-azul. Era uma lembrança perdida num impulso retido. Era a frustração de um 'se'.
Uma amiga me contou essa história uma vez. Não lembro se foi assim que ela contou, nem mesmo se assim mesmo aconteceu.
Mas minha lembrança da lembrança dela ficou deste jeito.
E é mais ou menos deste jeito, mais para menos que para mais, que começo a escrita de um novo espetáculo.
sábado, 16 de janeiro de 2010
2 O ! O
ISSO.
Só para estrear o ano!
Como página em branco não inaugura nada, precisei escrever alguma coisa.
Como precisei escrever alguma coisa, escrevi "isso".
Rs... Não estou rindo de mim mesmo, menos ainda da piadinha ridícula. Estou rindo PARA mim mesmo!
Voltei a ter medo de páginas em branco. Aliás, medo um pouco maior. Antes ainda olhava para elas. Agora tenho deixado todas elas bem escondidas, o que é ruim, porque quando recebo uma arma para preenche-las, não estão ali para serem preenchidas. E aí a tal da arma some, puff, vira pó, vira purpurina...
Enfim, FELIZ 2010, que já começou de pernas para o alto!
Só para estrear o ano!
Como página em branco não inaugura nada, precisei escrever alguma coisa.
Como precisei escrever alguma coisa, escrevi "isso".
Rs... Não estou rindo de mim mesmo, menos ainda da piadinha ridícula. Estou rindo PARA mim mesmo!
Voltei a ter medo de páginas em branco. Aliás, medo um pouco maior. Antes ainda olhava para elas. Agora tenho deixado todas elas bem escondidas, o que é ruim, porque quando recebo uma arma para preenche-las, não estão ali para serem preenchidas. E aí a tal da arma some, puff, vira pó, vira purpurina...
Enfim, FELIZ 2010, que já começou de pernas para o alto!
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
C. D. A.
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
É Natal?
É véspera de Natal. E eu estou estático. Paralisado com a criança das cinqüenta agulhas na Bahia. Com o vaso de flores na janela, aprisionado pelas grades anti-roubo.
É véspera de Natal e estão querendo me passar a perna.
Saudade de quando o Natal significava reunião de família e férias.
Saudade do Natal que prenunciava a viagem de fim de ano.
Do urso da Coca-Cola que agora virou arte contemporânea sem graça e metida a besta.
É véspera de Natal e não parece.
É véspera de Natal e estão querendo me passar a perna.
Saudade de quando o Natal significava reunião de família e férias.
Saudade do Natal que prenunciava a viagem de fim de ano.
Do urso da Coca-Cola que agora virou arte contemporânea sem graça e metida a besta.
É véspera de Natal e não parece.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Especialidade
Só quero que seja especial; mais nada.
Acho que depois de um ano de muito suor, merecemos todos a brisa. Mas estou animado, quero diferenciações. Quero o máximo possível, não o meio do caminho.
Se é para ir, que vá fundo, que vá ao limite, que o lá não seja como o cá, apenas com paisagens diferentes. Que seja vibrante, mágico e inesquecível.
Quero companhia para o risco, para a ousadia, para os saltos.
Mais ou menos não me serve. Bom também não. Ainda não ótimo. Me serve apenas a excelência!
Acho que depois de um ano de muito suor, merecemos todos a brisa. Mas estou animado, quero diferenciações. Quero o máximo possível, não o meio do caminho.
Se é para ir, que vá fundo, que vá ao limite, que o lá não seja como o cá, apenas com paisagens diferentes. Que seja vibrante, mágico e inesquecível.
Quero companhia para o risco, para a ousadia, para os saltos.
Mais ou menos não me serve. Bom também não. Ainda não ótimo. Me serve apenas a excelência!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 8 - Capítulo 3

Leia o primeiro capítulo aqui!
Em um ritual silencioso, abrimos nosso tesouro e forramos o solo com nossos livros. Sobre eles, nos deitamos e fizemos amor sem dizer uma palavra sequer. Nos vestimos, e num beijo ainda mais doce do que o primeiro, nos despedimos para sempre. Nada sei da vida de João. Se era casado, se tinha filhos, se era feliz... Mas não quis saber. Quis ter dentro de mim o João das minhas memórias de infância. E assim foi. De repente, me ocorreu a possibilidade de ter engravidado de João naquele momento. E somente então me dei conta da dimensão da tragédia que estava por vir. Nunca poderia ser mãe. Liguei para a minha e dirigi até sua casa.
Como a maioria das mães e de suas filhas, sempre tivemos desavenças. Aquela disputa freudiana clássica, que nos impede de nos doarmos inteiramente uma à outra. Cheguei e encontrei-a sentada em sua cadeira de balanço. Sentei-me ao seu lado e juntas tomamos um chá, com torradas pretas e queijo mineiro. Ao fim do último gole ela tocou minha mão e eu dei-lhe um prolongado beijo na face, beijo regado por uma singela lágrima que lhe escorreu pelo rosto. Olhamos para o porta-retrato de papai que ela agarrava junto ao peito e sem dar as costas, como uma plebéia distancia-se de sua rainha, sai.
Olhei para o céu. Estava vermelho. Era um lindo por do sol ao meio dia. Decidi que era hora de calibrar os pneus, verificar água e óleo e de fazer as unhas.
Leia o próximo capítulo aqui!
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 7 - Capítulo 2

Leia o primeiro capítulo aqui!
Agora, sentada naquele corredor de luz forte e esbranquiçada, olhava para trás e não conseguia ver pegada alguma; não as suas. Mas as de Mariana eram evidentes.
Mariana teve a festa de debutante que Ana Clara tanto sonhara; Mariana fez os cursos de artes e de línguas que Ana Clara tanto queria; Mariana ganhou o cachorro tanto negado a ela, casou com o vestido dos desenhos dela e nomeou seus filhos com os nomes planejados por ela.
Mariana dorme agora em Paris, onde mora há vinte anos, e deve estar abraçada ao braço forte de Pierre; e Ana Clara sente sono com um copo de café intragável nas mãos, enquanto aguarda a notícia eminente da morte do pai, que nada sente e nada tem, exceto sua própria velhice que lhe definha.
E assim tem sido há muito tempo. Ana Clara velou sua mãe, e mandou notícias. Velou sua madrasta, e emitiu as passagens de Mariana. E agora, ainda brincando sozinha com seus anéis, aguarda um momento oportuno para telefonar à irmã para não atrapalhar seu sono.
Pensa no seu apartamento vazio, no seu gato que não come há dois dias, na comida que apodrece na geladeira e que será desperdiçada, no seu emprego recém perdido por ausências em demasia, e reza por uma lágrima sequer, que alivie um pouco sua angústia.
Olha para o chão, prende os cabelos desgrenhados atrás das orelhas e pensa que gostaria de ter alguém à sua volta, alguém de quem pudesse se esconder para fumar um cigarro, alguém que justificasse a compra de chicletes mentolados para disfarçar seu hálito. Desde seu primeiro e único beijo, nunca mais tivera essa preocupação.
Vê um par de sapatos brancos e sujos se aproximando. A enfermeira do turno da noite diz que seu pai chama por ela na UTI.
Apressa-se, joga fora o café junto com seus pensamentos, se paramenta toda e com um sorriso imenso nos lábios, se aproxima da maca do pai. Diz bem de mansinho:
- Oi, pai. Estou aqui.
E ouve em um rasgo:
- Mariana, minha filha. Minha querida... Onde está sua mãe?
Sem fôlego, tenta dizer:
- Não, pai... Não sou a...
Mas se contêm. E se corrige:
- Papai, a mamãe não está mais conosco, lembra?
- Ela estava aqui há pouco... Aonde ela foi?
- Pai, você devia estar sonhando... Está tudo bem, viu! Está sentindo alguma coisa?
- Sinto... Sinto saudade. Saudade, Mariana. Saudade de Ana Clara.
Sentindo o coração lhe apertando a garganta, Ana faz um enorme esforço para levar o ar aos seus pulmões.
- Onde está a Ana, filha? Onde ela está?
Ana leva as mãos trêmulas ao rosto, olha para os lados e não sabe responder. Não sabe dela mesma há muitos anos.
- Quando falar com ela, filha, mande um recado meu. Ouça bem, porque passei minha vida toda levando no peito trancado esse segredo.
Com medo de ouvir e sentindo-se desmerecedora das palavras do pai, apesar de saber serem todas dela, Ana Clara sussurra:
- Pode falar, pai. Estou aqui.
Leia o capítulo 3 aqui!
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 6 - Capítulo 4

Leia o primeiro capítulo desta viagem aqui!
E então, Betina acordou!
Olhou para o teto e reconheceu o aconchego de seu próprio quarto, na casa da avó. Ai meu, tipo assim, que viagem – pensou e riu sozinha. Vou pintar meu cabelo de roxo – decidiu. Ai, que dor no peito – reclamou baixinho. Ué, não tinha um tapete atrás da porta – se perguntou. Mas não sabia a resposta. Nunca sabia as respostas. Que droga – se expressou.
Quando tentou se levantar, viu que não podia. Estava presa. E só então decidiu olhar à sua volta. Ufa, estava mesmo no seu quarto.
- Não! Não pode ser!! – exclamou.
Foi quando Betina percebeu que estava enfiada em espetos gigantes sobre uma enorme fogueira ainda apagada. Seu corpo todo besuntado de sal grosso, como uma picanha argentina numa churrasqueira. À sua volta, em um canto do quarto, os palhaços do Éden salivavam e empunhavam garfos e facas esperando a refeição. No outro canto, sua avó fumava um charuto enquanto Ed a lambuzava de leite de rosas. No terceiro, Raul e Vitória dançavam uma valsinha macabra. E no quarto e último corner, os cinco grandes artistas - Tim Burton, David Lynch, Edward Munch, Edgar Allan Poe e Stephen King - se preparavam para rodar o rolete que assaria Betina por igual.
- Socorro! – urrou Betina - Socorro! Cadê meu macaco?
Onde estaria o King Kong Salvador, que a Salvaria Dali, daquele pesadelo?
- Estou bem aqui, meu bem – ouviu Betina, para logo depois perceber a cabeça do macaco entre suas pernas - Só estou checando os fatos - completou o macacão.
- Que fatos?
- Você não iria entender – disseram os escritores em uníssono, acompanhados das gargalhadas dos palhaços, dos gemidos dos velhos e dos suspiros dos noivos.
- Alguém me belisca! Isso não pode estar acontecendo!
- Confirmado – disse o macaco com propriedade – É ela mesma!
E então, num enorme crescendo, todos os entes bizarros iniciaram um grande coro, afinadíssimo:
- Vamos comer a Madonna, vamos comer a Madonna, vamos comer a Madonna...
- Quem é Madonna?

- É você, meu bem! – gritou o macaco cheiroso, pulando em cima dela e acendendo um fósforo.
Como uma virgem, prestes a ser crucificada, Betina sentiu uma forte pontada em seu ventre. Pela sua vagina escorregou um lindo feto feminino. Com lágrimas nos olhos, Betina que era Madonna sussurrou:
- Vou te chamar Lourdes Maria. Vamos celebrar!
- Que cheiro é esse? – indagou a vovozinha.
Os cinco autores se entreolharam preocupados e, hesitantes e em novo uníssono, responderam:
- É cheiro de pipoca no ar. Pipoca com guaraná!
E então, Lourdes Maria soltou seu primeiro som.

Leia aqui o último capítulo da saga de Betina Madonna.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Folhetim Vagabundo - História 5 - Capítulo Final

Leia o início desta história aqui!
Bom dia, São Paulo! Eram 6h20 da manhã. Helena saltou da cama num grito. Estava em sua casa e dormia de lingeries e salto alto. Seus olhos de maquiagem borrada passaram despercebidos ao espelho, que a viu escovar rapidamente os dentes e prender um desgrenhado rabo-de-cavalo para sair. Estava atrasadíssima.
Na portaria, passou como um raio por Seu Jorge e não percebeu o beijo e a piscadela de olho esquerdo que ele mandou para ela.
Comprou o jornal na saída do metro e correu ofegante para o prédio da polícia. Devia parar de fumar tanto, pensava.
Entrou, pegou um café horrível, sentou. Apanhou o canivete, o maço de lápis sem ponta e começou seu ritual de espera pela próxima vítima. O dia estava nublado e o escritório muito escuro. O cheiro da sala naquela manhã estava estranhamente ruim, um agridoce fétido. Seria sempre assim e nunca havia percebido, se indagava. Como é bela a proeza da rotina em se reinventar dia após dia.
Então ela chegou. Papel em branco sobre a mesa, lápis afiadíssimo.
- Nome?
- Camila Santos.
- Idade?
Estava nervosa e chorava muito. Mais um caso de estupro, desta vez no estacionamento de um prédio. Pobres mulheres. Como são frequentes os casos de estupro nesta cidade. Deveria tomar mais cuidado.
Camila Santos não fumava. Seu fôlego devia ser impecável. Ponta de inveja. Seu desempenho na cama devia ser um arraso. Se eu fosse homem, pensava enquanto desenhava, também teria vontade de estuprar uma Camila Santos.
Findada a descrição dos olhos do estuprador, Helena sentiu a contração de seus pulmões. Não podia ser. Mais um rosto conhecido! Olhou para a vítima, que buscava uma escova na bolsa para pentear os cabelos desgrenhados, e a observou soltar o rabo-de-cavalo que a prendia, balançar suas mechas louras e alisar sensualmente seus lindos fios dourados. No dorso da mão que segurava a escova, uma estrela tatuada.
A visão de Helena escureceu. Em choque, avistou no jornal que estava sobre a mesa uma pequena nota no canto inferior direito, ilustrada por um rosto desenhado em retrato falado. Era o desenho dela. Era o rosto de Marcelo, dado como desaparecido na noite anterior, visto pela última vez saindo na companhia de uma mulher desconhecida do Teta Jazz Bar, onde havia trabalhado naquela madrugada.
Buscou novamente o rosto de Camila, que não estava mais à sua frente. O que via agora, era arrepiante. Percebeu tudo. Percebeu-se.
O prédio da Polícia Federal, para onde ia automaticamente todas as manhãs, estava abandonado há vinte anos. À sua direita, um aparador com garrafas térmicas velhas, cada qual etiquetada com o número de cada andar daquele prédio, ao lado de outra etiqueta que anunciava em letras garrafais, CAFÉ DOCE.
Ao olhar à sua volta, Helena sentiu uma forte contração no estômago. Não estava sozinha naquela sala. Em cada uma das mesas do departamento havia um corpo sentado. Corpos de homens. Corpos de homens conhecidos. E escondendo o rosto de cada um deles, seus próprios retratos falados, presos por lápis que furavam-lhes os olhos, tanto os dos desenhos, quanto os das vítimas.
Helena saiu daquela sala em desespero e correu por todo o prédio, por todos os andares. Somente o primeiro estava vazio. Todas as salas, as alas, os guichês, os corredores, todos estavam ocupados por seus homens, seus estupradores, suas vítimas.
Com as pernas bambas, voltou à sua sala e percebeu que na mesa ao lado da sua, estava o corpo de Marcelo. O sangue ainda fresco, ainda escorrendo por trás do papel desenhado.
Num salto, sentiu seu telefone vibrando no bolso da calça. Com as mãos trêmulas, leu a mensagem que havia chegado:
DONA HELENA... DESCULPA EU... LENINHA. NEM ME DEU BOM DIA, HEIN... MELHOR DISFARÇAR MESMO! SE O SINDICO DESCOBRE, TO FRITO. JÁ MARQUEI HORA NO TATUADOR QUE A SENHORA ME PEDIU. VOU HOJE À TARDE. QUERO TE MOSTRAR DE NOITE. O ESTACIONAMENTO VAI ESTAR VAZIO DE NOVO. UMA E MEIA, PODE SER? AQUELE BEIJO NA COXA QUE A SENHORA GOSTOU!
Olhou para o retrato falado fresquinho sobre sua mesa. O rosto do porteiro em desenho parecia muito mais harmonioso do que ao vivo. Por que Deus havia criado os rostos das pessoas, se eu mesma posso fazer muito melhor, se indagava.
Olhou no relógio.
Boa tarde, São Paulo. Eram 12h15. Precisava bater o ponto, tinha uma hora cravada de almoço. Se atrasasse um minuto, tinha seu salário descontado. O RH da Polícia Federal era muito severo. Muito severo mesmo. Depressa, apanhou a bolsa e o jornal sobre a mesa, e saiu do prédio.
Enquanto comia sua picanha mal passada de praxe, lia assustada uma nota no jornal sobre o desaparecimento de seu vizinho, o saxofonista. Pesarosa, pensava que não poderia ajudar. Não prestava para nada mesmo. Estava em excesso naquela sociedade. Sequer sabia os nomes de seus vizinhos, das pessoas que a rodeavam no dia-a-dia. Olhou para a garçonete que trazia o cigarro que ela havia pedido. Pobre garçonete. Poderia ser vítima de estupro a qualquer momento.
Qual é o seu nome?
O meu? Cristina. Cristina Sales.
No dorso da mão de Cristina, uma tatuagem de estrela lhe pareceu estranhamente familiar...
Leia o primeiro capítulo da História 6 aqui! Mas só segunda-feira!
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