quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ignorância inteligente (talvez um pouco de auto-ajuda)

É incrível como as mais despretensiosas das noites são capazes de nos presentear com os mais pertinentes dos temas. Isso nem sempre acaba bem. Às vezes alguém sai chorando, outras vezes inconformado. Às vezes amizades se rompem e só retomam os laços na dor do luto, cinqüenta, sessenta anos mais tarde.
Outra noite, chuvosa, conversávamos em um bar sobre a vida. Um de Nós reclamava de que seria eternamente infeliz, uma vez que nunca se julgava satisfeito com o que tinha. Dizia não ter absolutamente nada do que gostaria - um carro próprio, uma casa própria, um emprego de boa remuneração e que fosse algo muito prazeroso de ser feito e um relacionamento afetivo – e que o pior de tudo era saber que, quando os tivesse, todo esse nada que tinha, seria ainda infeliz, pois procuraria outros desejos não atingidos.
Curiosamente, é este o tema do último espetáculo que estreei. O desejo, que nos move, que nos desespera. O eterno vazio que abastece a humanidade.
O fato é que este assunto nos trouxe aquele, sobre o qual eu gostaria de escrever. A questão levantada por este Um de Nós, era aquela velha sobre a inteligência estar associada ao sofrimento. De que o homem, quanto mais ignorante, menos sofre. (Vide: Como me tornei estúpido, de Martin Page). E eu defendi esta teoria, a noite toda.
Mas havia Outro de Nós naquela mesma mesa, extremamente contrariado com a questão, absurdado e emocionalmente abalado (após algumas doses alcoólicas) com este fato. Como poderia o mais inteligente ser menos feliz? E nós, os defensores, tentávamos em vão convencê-lo de que o mais ignorante não tem tempo ou leitura para levantar questões existenciais. De que as preocupações são mais basais e ligadas à sobrevivência. (A tempo – não relaciono a ignorância com a falta de poder aquisitivo. O ignorante pobre se preocupa com o pão, e o ignorante rico se preocupa com o próximo carro a ser adquirido). De que quanto maior a capacidade de crítica e de análise do ser humano, maior é a amplitude com que vê as coisas do mundo, o que acaba sempre por revelar o lado escuro da lua, o interior da linda caixa vazia, que conseqüentemente traz o sofrimento, a discórdia e a revolta.
Assim mesmo, o Outro de Nós estava impassível. Por isso, cá estou hoje. Só hoje, posso entendê-lo. E explico.
A inteligência, aos olhos dele, não reside neste sábio guardião do eterno questionamento. Para ele, a inteligência está naquele que é capaz de tocar a felicidade a cada efêmero preenchimento do vazio do desejo. Ignorante é o que tanto busca o entendimento e as razões, ao invés de optar pelos simples “porquesins” e “porquenãos” em prol de segundos, horas ou dias de plenitude. Que, preocupado com o vazio que voltará a se formar, não percebe o conteúdo que, naquele momento, o habita.
Ignorante, para ele, é o sábio que não é capaz de mergulhar no mar. Que de tanto tentar entender os movimentos da maré, vê a seus pés somente a areia seca, e é obrigado a voltar no dia seguinte, quando a maré, tão enaltecida e estudada, voltar a subir. E desta forma, infeliz e insatisfeito, o inteligente volta para casa, com os pés sujos e a roupa colada no corpo suado, orgulhoso por ter chegado a, pelo menos, algumas frouxas teorias, mas triste por não tê-las vivido. Enquanto o ignorante, que sentiu em seu corpo os movimentos da maré, fecha os olhos e ainda se lembra do som, do frescor e do prazer do mergulho. O ignorante é, neste momento, a própria maré pelo inteligente pensada.
E anos depois, os netos do inteligente ignorante bocejam, enquanto os netos do ignorante inteligente sonham, aos ouvi-los contando da vida.Obrigado ao Outro de Nós, por me mostrar sua inteligência, frente à minha ignorância naquela noite.

2 comentários:

Juliana Hilal disse...

Adoro esse texto e adoro o tema. Gostaria muito de ter participado dessa conversa...
Do alto da minha ignorância, concordo plenamente com você e com o Outro de Nós.
Bjs

Anônimo disse...

intiresno muito, obrigado