quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Insignificante

Ele cultivava dentro de si uma alma sem rosto. E a angústia de não ser quem gostaria. Assimilando os desejos, os discursos e os hábitos de quem com ele convive, percebe-se nu à noite e só no caminho de volta para casa. Nada dele é dele. A casa, o trabalho, os pensamentos. É como um títere que se auto controla, sem força, sem si mesmo, que cansa e desmorona, e se dá um nó nos próprios membros e cordões. E sente raiva, e aguça os defeitos alheios, e goza com eles, procurando assim uma forma de não querer ser quem já não é. Mas falha. E chora. E numa tentativa frustra de escrever sua biografia, lembra-se apenas das memórias dos outros. Um repórter por excelência. E tentando encontrar em seu passado feitos propriamente seus, percebe apenas sofrimentos banais que rodeiam uma única tragédia real: sua incapacidade de ter se criado. Nada mais posso escrever sobre ele, pois nada mais há para ser escrito. Resta em mim, neste momento, um alívio tremendo por não ser ele, por eu ser eu.

2 comentários:

dulce disse...

Melhor que sermos é sermos e vivermos por inteiro como nós mesmos. Depois que li seu perfil e conheci seu ascendente, tudo em você fez mais sentido para mim.
Este blog vai ser delicioso!!!
Virei te visitar todos os dias.
Bjs
Dulce

Marina F. disse...

Dú, para mim, um blog é um estado de espírito, me ajuda a registrar as impressões de mim mesma. É muito bom. Entra lá no olhosrecemnascidos.blogspot.com

Terapêutico.
Essencial.

Adoro seus escritos.
Adoro a troca.

beijos!

Má F.