terça-feira, 29 de abril de 2008

Real

Sou a cada dia mais adepto da verdade. Não falo da verdade dos fatos, da verdade de discurso, nem sequer de pensamentos. Falo da verdade da alma.
Quando a alma está em contato com a verdade, e se permite sentir e buscar o que para si é o real, aqueles que presenciam este momento se embebedam de emoções e se contagiam por esta alma terceira, verdadeira.
E esta alma, por sua vez, não precisa mostrar nada a ninguém. Ela é, neste momento, o todo. Não precisa dizer nada, e nem fazer apologias ao que sente, ao bem que buscou e encontrou, ou tentar doutrinar o outro, dizendo querer o seu bem, dizendo querer que se sinta como ela se sente. A alma fiel a si é, per se, transmissível. E desta forma, pode ser triste, pode ser brega, pode ser fria, pode ser ridícula, pode ser o que quiser. Aqueles, que a estarão observando, se sentirão vivos.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Lata Velha

Eu recolhia latas. Dessas de refrigerante. Elas pagavam minha dose de aguardente. Eu enfartei andando na calçada, na zona nobre da cidade. Agachei. Levei a mão direita ao lado esquerdo do peito, e a mão esquerda ficou segurando as quatro latinhas que eu tinha conseguido naquela manhã. Uma de Fanta Laranja, uma de Sprite e duas de Coca-Cola, ambas não lights. A Fanta era light, eu acho. Eu permaneci agachado, olhando para frente, me lembrando de respirar entre cada pensamento de medo que me ocorria. As pessoas passavam por mim. Me lembro disso. Me lembro de haver muitas pessoas. E carros. Havia carros. E barulho. Muito barulho. Lembro que quando caí, fiz o impossível para não amassar as latas. São essas, ó, que trago aqui comigo. Será que aquele senhor de branco... Aquele ali, com a barba grande. Será que ele troca? Por quanto?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Promessa

Estive me lendo, hoje. E me percebi extremamente chato e melancólico. Está certo que dentro dos limites da minha bipolaridade, tenho direito a uns dias de fossa. Mas notei que minha escrita tem girado, somente, em torno dessas fossas.

Está tão fora de moda estar na fossa!

Me desculpe, caro leitor, por este fardo que venho lhes fazendo carregar.

Prometo ser mais levinho a partir de amanhã.
Se o amanhã vier...

Que título?

Imagino quão profundo pode ser o vazio; quão carcereira pode ser a timidez; quão destruidora pode ser a raiva; quão forte pode ser a fraqueza.

Já passei do medo à vergonha, da vergonha ao ódio, do ódio à tristeza, da tristeza à compreensão, da compreensão à chateação, da chateação à pena, e também eu não sei mais para onde posso caminhar. Até culpa já senti. Hoje só posso rezar. E torcer. E me perguntar mil por quês, sempre sem respostas.

Difícil é ter de esperar. E saber que quando chegar, chegará a algum extremo. Ou virá o melhor, ou chegará o pior. Difícil é não saber o quê. Difícil é não poder prever. Difícil é a angústia das mãos aprisionadas e da terrível impotência.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Defeituoso

Pior do que a raiva do outro, e a raiva de si mesmo.
Pior do que o vexame, é a vergonha de andar na rua.
Pior do que ter feito, é o defeito.
Pior do que não ter feito, é ter feito pior.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Choro por choro

Há dias em que sinto uma inexplicável vontade de sair chorando pelas ruas. Não em um escândalo, muito menos triste... Simplesmente andar chorando, da mesma forma como respiramos ao andar. Chorar sem parar. Falar com os outros, chorando. Pedir um sanduíche, chorando. Encher o tanque, chorando. Chorar enquanto como, enquanto durmo, enquanto canto. Chorar mesmo que rindo. Chorar ao fazer exercícios, chorar ao escrever meus e-mails, ao falar no telefone, ao fechar um contrato, ao responder um boa tarde. Nada, nada... Só sair por aí, chorando. Por chorar. Nada, nada...
Como somos carentes, nós, homens modernos. Como somos carentes, nós, homens urbanos. Sou carente do meu choro, que há muito não me lava.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Aristotecnia

E foi quando o galo gigante saiu pela porta giratória e desfilou, solenemente, em meio aos carros luxuosos da alameda. É por isso que eu digo, meu filho. Pense na macarronada espessa. Os russos, sim, urinam com maior prazer.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Limpeza

Pode limpá?
Incrível!
Pode limpá, moço?
Como cresceram... Seus filhos, como cresceram!
Moço, só um trocado. Posso limpá?
Outro dia mesmo, eram tão crianças... Já estão mocinhos...
Ó, tô limpano...
E a menina, então... Uma princesa. Que saudade de vocês.
Inda tá fechado, moço. Pode limpá tráis?
A gente precisa marcar alguma coisa lá em casa. Que feliz em ver vocês. Que família linda. Tão unidos.
Pronto, moço. Tem um trocadinho?
O sinal já vai abrir. Se não, eu desceria do carro. Que vontade de dar um abraço em todos. Sabe que os considero parte da minha família, não sabe?
Moço, tem um trocado?
Um jantar! Vamos marcar um jantar. Quero saber das novidades... Como está a vida de cada um...
Caralho. Só um trocado, porra!
Manda um beijo pra todo mundo. Diz que eu passei aqui.
Deiz centavo!
Prazer em revê-los!
Cinco!
Até mais... Preciso ir! Olha... Que surpresa boa! Até!
Um centavo, moço! Um centa...

terça-feira, 18 de março de 2008

A Menina Angolana

Eu olhei para aquilo tudo e jamais me senti tão entusiasmada. Aquela caixa de madeira toda trabalhada, iluminada por velas ao redor, me transportava aos bosques dos contos de fadas, onde as flores cintilavam com o reflexo da lua no orvalho que nelas pendia. Imaginei aquelas pessoas todas, em suas vestes densas e olhares vazios, dançando em um grande salão de baile, em festa de reis e rainhas. O choro era de alegria, ou no máximo por um príncipe encantado que, desta vez, e apenas desta vez, não apareceu, deixando a donzela a observar a imensidão do mar, do alto de sua torre, à espera de seu grande amor. E foi assim, meu primeiro encontro com a morte.
Fui me aproximando da caixa reluzente, num passo sóbrio e cerimonioso, e pensei se seria desta forma que desfilaria pela nave principal da catedral, no dia do meu casamento. E pensando, hoje, talvez tenha sido tétrica a enorme vontade de rodopiar e gargalhar em gritos histéricos que pulsava dentro de mim, num ritmo sincopado aos meus passos. Me lembro de poucas coisas deste dia, mas jamais me esquecerei do rosto negro que dormia com calma dentro daquela caixa. E a única coisa que me espantou, foi vê-lo dormir, porque era ele quem, de costume, cuidava do meu sono.
Trabalhava em nossa casa, e me contava histórias de heróis para que eu adormecesse. E para que eu acordasse, apenas sorria, e deixava a luz do sol refletir em seus dentes brancos para que, assim, eu sentisse cócegas nas pálpebras e as deixasse abrir sozinhas. O toque de suas mãos no meu rosto costumava ser gélido, e seus olhos, fundos, de modo que, por mais que sorrisse, nunca me convencia de estar realmente alegre.
Mas naquele dia, em que em paz dormia, sua pele estava quente e macia, e seu sorriso, de lábios fechados, jamais tinha sido tão sincero. Eu sabia que Meu Preto estava feliz, e me sentia feliz com isso. O fado que eu ouvia ao fundo, misturado à música da missa que eu ouvia bem ao lado, foram dando lugar a um batuque profano, lá dentro dos meus ouvidos, e eu não pude deixar de reproduzí-lo naquela caixa, batendo forte com as mãos na madeira, e cantando tão alto, que abafei com meu fervor todos os sons de tristeza que pairavam naquela sala. Naquele dia, eu entoei o som verdadeiro do Meu Preto, que depois daquilo, não seria mais meu. E nem por isso eu entristecia, pois sabia que o mundo também merecia a alegria de tê-lo ao lado, a mesma que eu sentia, e a leveza dos sonhos que eu sonhava, quando ele me dormia. Depois disso, lembro que fui carregada para meu quarto, mas só depois de perceber, no rosto daquela negra, que era sua mulher, um enorme traço de paz, alegria e esperança.
E foi assim, meu primeiro encontro com a morte. Foi neste dia, que morri menina, e nasci mulher.

O Grande Assunto

A falta de assunto anda me atormentando nos últimos tempos. Estou realmente preocupado com meu embotamento de discurso.
É como se todos os assuntos me fossem enfadonhos. Como se não houvesse nada de novo nos mundos dos outros, e menos ainda no meu; ou como se meu mundo estivesse cada vez mais distante do mundo dos outros.
Que medo da psicose!
A mídia está um porre; o futebol nunca esteve no meu vocabulário; até falar mal dos alheios ficou sem graça. Discussões teóricas e filosóficas estão difíceis. Existe, no ar, uma certa preguiça de pensar. Ou talvez pensar seja mais fácil. Pensando bem, ando pensando mais do que falando. É isso. E estou sem muita paciência de compartilhar verbalmente estes meus pensamentos.
A energia e obrigatoriedade criativa estão sugando muitos destes pensamentos. E o pavor do inconsciente coletivo, das idéias roubadas e das cartas marcadas estão me transformando num avarento de assuntos. Lógico. Todo assunto, toda idéia, pode virar um texto, ou pode ser tema do meu próximo livro, ou da minha próxima peça, ou pode virar uma cena de algum espetáculo que estou dirigindo...
Trabalhar com idéias me transforma, a cada dia, em um monge frígido e egoísta. Ao mesmo tempo que este turbilhão de pensamentos me prende em uma ansiedade sem limites. Por onde começar? O que fazer primeiro? Melhor dar um tempo e ler um pouco. E a cada leitura mais um vendaval de sugestões e pensamentos, muitas vezes abstratos e sem sentindo, que podem transfigurar em uma latente obra de arte. Melhor guardar para mim!
A busca pelo destaque neste mundo de tantos de nós afasta a humanidade de si mesmo.
Ou será que minha vida, particular, está tão parada assim? Também pode ser isso. Nenhum grande evento, nenhum grande acontecimento, nenhuma grande novidade. Meu medo de envelhecer sempre girou em torno da carência de novidades. Às vezes dá vontade de ficar preso em uma bolha por algum tempo, para sair e ver o mundo com olhos infantis. Mas eu já faço isso. Na verdade, eu vejo muitas novidades por aí. As pessoas que não estão muito interessadas no meu olhar.
Onde isso vai dar? Que desespero. Até falar sobre a falta de assunto, que poderia ser um assunto interessante, está chato!
Que texto chato!!
Definitivamente, há textos que não devem, jamais, ser escritos pela manhã!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Epitáfio

Aqui jaz um texto.
Fraco, porém sensível, filho desprezado, esposo traído, amante mal amado, pai equivocado. Começado e não terminado.

Escrito em 17 de março de 2008.
Apagado em 17 de março de 2008.

sábado, 15 de março de 2008

Soando

Andei me ligando para saber como se sente quem comigo quer falar. E a única conclusão a que pude chegar é de que o telefone toca, toca, sem parar.

Andei prestando atenção na gota, guerreira e insistente, que teima em tentar escorrer pelo pára-brisa num dia cinzento, e que se mantém sendo lançada de volta a si mesma, pelo limpador, sistemático e controlador.

Andei me lembrando deveras dos tempos de infância, com uma saudade inesgotável, e regredindo em vontades de farofa doce com sorvete, groselha e danoninho.

Andei com a preguiça de saber mais, e com a culpa de saber menos, e preferindo observar a pintura natural das nuvens no céu, a tentar encontrar motivos numa grande obra de pincel.

Andei com medo de não saber escrever, com medo de tudo o que preciso ler, com medo do medo de um dia morrer com um grande segredo, e de assim entreter.

Andei perseguindo e me sentindo perseguido e copiando e me sentindo copiado.

Andei pela neve de querer ver somente quem me releve, e assim me ajude nesta árdua missão de ser mais leve.

Andei sem paciência de responder o que ando fazendo, e andei sem alguém que quisesse saber o que ando sendo.

Andei... Hoje, ando. Ando viajando, vagando, festejando, bundando, fumando, fungando, soando, soando. Hoje, só ando, suando.

terça-feira, 11 de março de 2008

Me chove

Se chove, quero sol.
Se faz sol, quero chuva.
Mormaço, no me gusta!

Se há carne, quero peixe.
Se há peixe, quero carne.
Frango, no me gusta!

Se estou só, quero companhia.
Se tenho companhia, quero estar só.
Ser mais um, no me gusta!

Se trabalho, quero sossego.
Se sossego, quero trabalho.
Dentista, no me gusta!

Se há plantas, não quero regá-las.
Se não há o que regar, quero plantas.
Mato, no me gusta!

Oh, maldita condição de ser humano!

sábado, 8 de março de 2008

Em Si bemol

Um pensamento do autor, à mulher.


Vem cá, deita a cabeça neste colo, que carrega a angústia do mundo.
Passe as mãos neste ventre, que um dia carregou a vida.
Veja a cor das minhas unhas, que carregam os destroços do imundo.
Preste atenção nestes cabelos, que carregam a pele perdida.

Vem, repare nesta roupa quase nova, que veste um desejo afrodisíaco.
Escuta os batimentos deste peito, que nutre com amor um ser vazio.
Entende esta cabeça que compete, que oscila entre o que é triste e o que é maníaco.
Enxerga com estes olhos não pintados, que pintam de lirismo o que ruiu.

Tenta, tinge estes seus lábios de vermelho.
Ampute estes teus pêlos por inteiro.
Esqueça um pouco o preço do dinheiro.

Lute, morre preocupado com o espelho
Afine em agudos tudo o que é grosseiro.
E veste o feminino derradeiro.

terça-feira, 4 de março de 2008

A transa

Eles se amavam. Nada mais e apenas isso. Se amavam nos mais perfeitos moldes românticos. Deixavam Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Julia Roberts e Richard Gere, no chinelo.
Nada faziam o dia inteiro, senão pensar um no outro. Imaginavam seus futuros juntos. Imaginavam seus corpos na cama. Imaginavam carícias, beijos e olhares.
Ele, que era mecânico de automóveis, via os seios delas nos pneus carecas; via o brilho dos olhos dela nas lanternas; via a umidade dela na troca do óleo.
Ela, que era astrônoma, via a força dele em Júpiter; a doçura dele em Vênus; via o calor do seu corpo, em Marte.
Com o passar dos dias, o amor se tornou vício. Isolaram-se no mundo. Não sabiam mais o que se passava na política, no futebol, ou na televisão. Não falavam de outra coisa, senão deles mesmos, e para eles mesmos. Perderam os pais, os irmãos, os amigos, e tornaram-se órfãos, apaixonados.
Ele largou o emprego; ela, também. Ela perdeu o apetite; ele, também. Tornaram-se insones, para não perderem-se um do outro durante os sonhos. Não saíam da cama. Deixaram de se tocar, com medo do desgaste. Apenas se olhavam, o dia inteiro.
Faziam suas necessidades em um balde, para não se separarem. E para isso, não viravam as costas - continuavam a se olhar. Os olhos, secos por não mais piscarem, ardiam. As bocas, secas por não mais beijarem, colavam. As mãos, molhadas por nada tocarem, pingavam.
O mundo era ameaçador demais para aquele amor. Bateram na porta, chamaram polícia, chamaram bombeiros, chamaram doutores. Mas nada penetrava naquele universo egoísta e autônomo.
Numa noite, a noite mais incrível delas, sob a lua eclipsada, saíram. Entraram no carro. Dirigiram, com os corpos grudados, por quatro horas até um campo afastado. Em nada mais pensavam, senão no medo de, um dia, se separarem.
Estacionaram o carro sob uma árvore, triste, pois solitária, que observou quando eles deram as mãos, abraçaram-se e, pela primeira vez nos últimos meses, e desta vez, última, fecharam os olhos.
Foram encontrados desta forma – mortos, os dois, como um. Junto deles, duas pistolas. Dentro deles, um único coração – baleado, mas que mesmo depois de enterrado, jamais deixou de bater.

domingo, 2 de março de 2008

O Problema

O problema é o equilíbrio. E vem a marcha. E está tudo bem.
O problema é o pequeno carrinho. E vem a festa. E está tudo bem.
O problema é a nota da prova. E vem o azul. E está tudo bem.
O problema é a bola na rede. E vem a água. E está tudo bem.
O problema é o beijo na boca. E vem a língua. E está tudo bem.
O problema é os pêlos crescidos. E vem a barba. E está tudo bem.
O problema é a ressaca do álcool. E vem a cura. E está tudo bem.
O problema é o nunca do sexo. E vem o próprio. E está tudo bem.
O problema é o fazer do amanhã. E vem a glória. E está tudo bem.
O problema é o adeus aos amigos. E vêm os outros. E está tudo bem.
O problema é as forças armadas. E vem a hérnia. E está tudo bem.
O problema é a locomoção. E vem o carro. E está tudo bem.
O problema é o exame final. E vem o canudo. E está tudo bem.
O problema é a falta de exames. E vem o dinheiro. E está tudo bem.
O problema é o bando de impostos. E vem o banco. E está tudo bem.
O problema é o dente do siso. E vem o dentista. E está tudo bem.
O problema é a viagem dos sonhos. E vem a outra. E está tudo bem.
O problema é a falta de teto. E vem as paredes. E está tudo bem.
O problema é as paredes vazias. E vêm os móveis. E está tudo bem.
O problema é a filantropia. E vem o pão velho. E está tudo bem.
O problema primeiro é o como. O segundo é o quem. E está tudo bem.
O problema terceiro é o onde. O quarto é o quando. E está tudo bem.
O problema é o anel num dos dedos. E vêm as crianças. E está tudo bem.
O problema é a falta de leite. E vem a chupeta. E está tudo bem.
O problema é o grande carrinho. E vem o pequeno. E está tudo bem.
O problema é a falta de sexo. E vêem os filmes. E está tudo bem.
O problema é o desejo proibido. E vem o segredo. E está tudo bem.
O problema é as dores no peito. E vem a aspirina. E está tudo bem.
O problema é o devia ter feito. E vem o futuro. E está tudo bem.
O problema é o anonimato. E vem o sorriso. E está tudo bem.
O problema é a falta de rumo. E vêm os limites. E está tudo bem.
O problema é a mente vazia. E vem o passado. E está tudo bem.
O problema é ser insatisfeito. E vem a preguiça. E está tudo bem.
O problema é a memória que é fraca. E vêem as fotos. E está tudo bem.
O problema é o corpo cansado. E vem o ginseng. E está tudo bem.
O problema são poucos problemas. E vem o suspiro. E está tudo bem.
O problema é estar tudo bem. E vem um problema. E estará tudo bem.

O problema primeiro será. Depois logo é. E então já não há.
E quando o problema não há. Não há como ser. E, então, partirá.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Um, apenas, Um

Gostaria de ter apenas Um cinzeiro
Uma única chave que tudo abrisse ou fechasse
Uma única calça
Uma camisa
Uma cueca
Uma lata de lixo, apenas
Apenas Um fio
Um cabo
Uma tomada
Uma mesa, Uma cadeira
Somente Um livro
Um único canal de televisão
Um filme, Um disco, com Uma música apenas
Uma caneta, de Uma cor
Um pano, Um balde
Uma janela, com Um vidro
Uma toalha, Um lençol
Uma panela, Uma colher, Um garfo e Uma faca
Um prato
Um vaso, com Uma planta
Um regador
Uma revista, com Uma manchete

Preciso ir ao shopping.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Andréa

Penso
Será que ela é moça
Será que é balzaca
Será que é gordinho
Será que é esbelto
O corpo da tal
Se ela é míope ou nem sabe ler
Se economiza ou dá no Natal
Se morde a língua se vai escrever
E se eu quisesse ouvir a sua voz

Penso
Será que ela é rica
Será que é casada
Será que é doutora
Será que é tingida
A parte da tal
Se ela reza antes de dormir
Se fala manso ou é muito formal
Se fecha os olhos ou chora pra rir
E se eu quisesse ouvir a sua voz

Não, não tem nenhuma Andréa por aqui
O telefone toca sem cessar
Essa linha é minha e c´est fini
Ah, diz pro mundo todo parar de ligar
Diz se essa pessoa existe por aí

Penso
Será cozinheira
Será feiticeira
Será que é fogosa
Será que é novela
A vida da tal
Se ela um dia ligar para mim
Se nosso encontro for calmo ou brutal
E se seu tom for linha de cetim
E se eu quisesse ouvir a sua voz

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A mudança

E numa linda manhã de sexta-feira:

O novo se torna próprio
O velho se torna virgem
O pó se torna enfeite
A água tornada é vinho

Os calos serão sapatos
Os cortes, meras lembranças
O tempo será zerado
A espera em si batizada

A chave se encaixa e vira
O suor drenado limpa
Vassouras que geram o vento
Que venta no vácuo e volta

A luz, quando acesa, brinda
Os canos ressoam um fato
A rima não existe ainda
No início de um novo ato.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A Prisioneira

Organizava tudo em ordens: numéricas, alfabéticas, arquetípicas, lógicas, genéricas, cronológicas e prismáticas.
Organizava tudo em potes. E em estantes. E em arquivos.
E sua incapacidade de lidar com a perda a tornava uma grande, e gorda, carcereira. Colocava atrás das grades, a beleza do mundo.
Obviamente não toda a beleza do mundo, mas apenas a beleza do seu mundo. O que para ela era belo, era para ela, dela.
O problema era o espaço. Era cada vez mais difícil, apesar de todo byte, kbyte, megabyte e gigabyte, armazenar toda aquela beleza. E por ser eclética por natureza e curiosa por formação, desterrava a beleza, cada vez mais, em tudo, ou quase.
E desta forma, apurava seus sentidos, que percebiam nitidamente um belo acorde em uma terrível canção, uma bela cena em um monótono filme, um belo ângulo em uma escura fotografia. E já era quase impossível evitar seu desejo de tudo possuir. Em seus potes. Em suas estantes.
Depois de engaiolar suas belezas, e de rotulá-las com etiquetas, e de organizá-las em suas ordens, as deixava lá, onde acreditava que deveriam estar. Perto de si. Ocultas, sempre. Apertadas. E de difícil acesso.
Curioso era o fato de nunca mais olhar, ou tocar, ou ouvir, sua bela coleção. Porque sabia que estavam lá, e de lá jamais sairiam. Desta forma, perdiam a cor. Suas belezas eram belas para todos, e ordinárias para ela. Sua rotina estava em descobrir mais e mais daquelas raras belezas, mas não delas desfrutar. A não ser uma só vez. A não ser a primeira.
E no passar dos anos, era cada vez mais difícil encontrar belezas que já não possuísse. O grotesco passou a ser belo, de forma a tapar sua lacuna de incompetência em encontrar a verdadeira beleza.
E ao chegar em casa, uma casa que possuía toda e qualquer beleza do mundo, deitava-se solitária, e feia.
Um belo dia, cinza e chuvoso, dia em que já não mais conseguia pentear seus cabelos ou escovar os seus dentes, ou costurar seus botões ou afiar seu lápis de olho, um belo dia, em um ataque de liberdade e de náusea, decide libertar toda a sua coleção.
Abre os potes, um a um, e olha seus interiores. Assiste aos filmes, um a um, e chora novamente, e ri. Ouve as músicas uma a uma, e dança. Borrifa seus perfumes, um a um, e sente, e lembra. Cozinha suas receitas uma a uma, e degusta, e gosta. Folheia suas fotos, uma a uma, e revive. Rele seus livros, um a um, e goza.
Depois, com uma dificuldade dolorosa, como a de uma mãe que lança seus filhos ao mundo, devolve a todos nós, mundanos, suas belezas. E num ato de bravura e dignidade, as oferece.
Ao voltar para casa, agora vazia, deita-se na cama, repleta de si mesma. E dorme um sono leve. E, depois de muito tempo, acorda com uma sensação estranha e confusa, e percebe, finalmente, que naquela noite, voltara a sonhar.
Levanta-se e sente o primeiro toque dos pés no chão, e vibra como uma tela em branco ao receber a primeira pincelada do que será uma futura obra de arte.
E descalça, e nua, sai outra primeira vez ao encontro do belo, mas apenas para sê-lo, nunca mais para tê-lo.

A Insônia

Três e meia da manhã.
As pernas aflitas na cama são praticamente autônomas em sua vontade de alongar-se.
Os olhos fechados passeiam pelas pálpebras em busca da profundidade do sono, mas falham.
Os pensamentos na obrigação de não pensar em nada escapam e divagam. A face de um cão, o cenário de um show, as cenas do filme a pouco assistido, o nariz de uma amiga. A vontade de torcer aquele nariz.
Os olhos se abrem. Escuro. Se fecham. Escuro.
Os travesseiros e lençóis dançam sob e sobre o corpo estirado. Que vira. E revira. Que se encolhe. E se estica. Pensamentos sobre o órgão labiríntico e nossa capacidade de orientação no espaço. De olhos fechados e me mexendo como em uma montanha-russa, sou capaz de identificar o lado direito e o esquerdo. Incrível...
O sono quase me submerge, mas o barulho da rua o espanta.
Três e meia da manhã.
Penso em explodir o prédio ao lado. Penso em calar com as mãos, as prostitutas. Penso em derrubar os helicópteros.
Três e meia da manhã.
Penso em apedrejar os carros. Penso em capotar as motos. Penso em arremessar ovos nos passantes. Penso em assassinar, devagar e a sangue-frio, todo e qualquer emissor de som do planeta.
Três e meia da manhã.
Quatro.
E meia.
Cinco.
Levanto. Abro a janela e me debruço, numa tentativa de me fundir ao barulho da rua. Acendo um cigarro. Apago.
Cinco e meia.
Desespero. As mãos tremem. As nádegas formigam. Os braços doem. A cabeça coça.
Sono. Sono. Busco o sono.
Os sons aos poucos se esvaem. Silêncio. Somente o barulho de um ou outro passo. Já se levantam, os outros. Como dormem?
Pela estreita fresta da janela, surgem os primeiros raios luminosos. O negro se torna cinza, que adota tons pastéis. O dia vai colorindo os móveis, devagar, como uma criança que pinta.
Nitidez. Enfim.
E banhado pela primeira brisa matinal, deixo-me carregar ao profundo relaxamento do que é onírico, e lírico. Por fim, durmo.

O Despertar - Parte III

Meus deuses, me puxem os braços!
Amanhã mesmo eu ponho um sapato, que seja macio.
Meus deuses, me cortem os laços!
Amanhã mesmo eu ligo o motor, que seja veloz.
Meus deuses, enfoquem os traços !
Amanhã mesmo eu ajeito esta face, que seja viril.
Meus deuses, me estendam as mãos!
Amanhã só lhes peço uma bênção, que seja minha voz!

O Despertar - Parte II

Meus deuses! Estou entalado!
Ontem mesmo passei nesta porta, que hoje estreitou.
Meus deuses! Está apertado!
Ontem mesmo vesti esta roupa, que hoje é vinil.
Meus deuses! Está embaçado!
Ontem mesmo bati esta foto, que hoje borrou.
Meus deuses! Estou entendendo!
Ontem mesmo notei esta testa, que hoje franziu.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O Despertar - Parte I

Meus deuses! A voz está grave, o pés estão longe, as unhas compridas.

Meus deuses! O dia está curto, a noite está clara, a alma bandida.

Meus deuses! Os membros são cinco, os olhos são três, as línguas safadas.

Meus deuses! Os outros são vários, os ovários são muitos, quando muitos são nada.

Meus deuses! Os fios são nevados, os ombros são duros, os joelhos existem.

Meus deuses! A cidade é pequena, os brinquedos são caros, os amigos persistem.

Meus deuses! As cores são tantas, os cigarros são poucos, os corantes não falham.

Meus deuses! As músicas gritam, as vontades não duram, os bíceps malham.

Nego o Resgate

Ando passando muito tempo comigo mesmo.
Sabe quando convivemos intensamente com uma pessoa, e nos pegamos adquirindo seus trejeitos e jeitos? E passam a gritar mais os defeitos? E começam a se misturar as vibrações, e os acasos são cada vez mais freqüentes? E trocam nossos nomes nas portarias, e vestimos roupas sertanejamente parecidas, quando no máximo invertemos cores de calça e camisa? E assimilamos gírias e pensamentos, e sintonizamos batimentos cardíacos e sinapses, e as vozes começam a ressoar em uníssono? E esgotam-se os assuntos, e potencializam-se as desavenças, e em meio a tamanha sintonia, vêm à tona somente as disfonias, as disritmias, as distimias e as antipatias?
Ora pois, ando passando muito tempo comigo mesmo. E neste caso, não há vítima ou agressor. Sou doador e receptor. Me troco comigo mesmo. Discuto comigo mesmo. Me debato, me divido, me devoro e me regurgito. Preciso de um tempo só, longe de mim. Preciso encontrar os outros, ouvir dos assuntos banais, estar onde, mesmo sem nada falar, não haja silêncio o bastante para pensar. Definitivamente, estou pagando para que me seqüestrem de mim. E aviso: nego o resgate!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Passado

É estranho demais pronunciar tudo no passado; a gente andava, eu sentia, ela sorria, ela era... A gente era.
Não é como amputar um membro. É como amputar o que já era invisível e agora ficou ainda mais etéreo. Se perdeu, no ar, no bar, em algum lugar. Onde está aquele amor? Um amor que de um dia para o outro perdeu a identidade, o motivo, a razão.
De repente, ela sumiu. Ela que estava inteira comigo, ao meu lado, comendo pizza e assistindo a um filme, falando besteira, escrevendo poesia. Ela foi arrancada de mim, ela desapareceu em um instante, em uma noite, em uma vogal.
Eu ainda sinto seu cheiro, ainda ouço sua voz, ainda provo seu riso. Não consigo me livrar da sua presença que é um vazio enorme, um abismo sem limite. Tenho medo de cair.
Estou me segurando em uma folha, em um fino ramo.
Ontem mesmo a gente se falou. Passado. Ela me disse – passado – que me amava; passado. Ela perguntou se eu queria um presente de beira de estrada; disse que ia comprar mais mel, porque o nosso estava acabando. Ela tomou um café, fumou um cigarro, entrou num ônibus e sumiu para sempre. Perguntou, disse, tomou, fumou, entrou. Passado. Perguntava, dizia, tomava, fumava, entrava. Passado. Me amava. Passado.

“Que tal levar um tapa?”, me pergunta a vida.
Ela me deixava feliz só de olhar para mim. Eu gostava dos olhos dela. Deixava... Gostava... Passou?
Ainda não posso deixar que passe.
Mas passa. Não passa? O passado?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Verídico e Tolo

Sento-me ao som dos Gerschwins.
Elizângela toma meu pedido. Concentro-me nas notas do piano. Peço uísque.
De repente, não mais que de repente, ouço uma voz rouca e pastosa.
Nossa, como você é lindo! Que gato!
Olho à minha volta e penso: Será comigo?
De vez em quando tenho estes ímpetos de modéstia plena.
Lá está ela, artificialmente loira, exageradamente maquiada e alzheimermente envelhecida, sentada à mesa a frente, na companhia de outras figuras igualmente esdrúxulas.
Você é sempre gostoso assim ou é só hoje?
Essa mulher poderia ser minha avó!
Como?
Você sabe que é um gato, não sabe? Ah, sabe, ele sabe.
Isto não está acontecendo. Não com a biza da Rita Cadilac.
Viu, sabe de uma coisa? Eu estou bêbada!!
Ah vá!
Você não é daqui, é?
Não
ponto
Sou de São Paulo
ponto
Vem cá, vem.
Pânico.
Senta aqui com a gente. Você vai adorar.
Não quero mais olhar para minha avó depois disso.
Não, obrigado. Eu vou comer.
Uau!!
Jantar!! Eu vou jantar.
Pra quê? Só serve pra engordar.
Há! Falou a Bündchen.
Não, é bom de vez em quando.
Resposta cretina para comentário cretino.

Silêncio.

Silêncio.

Silenc...

Você tem fogo?
Danada, acabou de acender um cigarro. Eu vi!
Tó!
Aaaaai, obrigadinha.
Voz pastosa.
Nojo.
Você conhece o Postinho?
Meu
Deus
Não.
Você não é daqui, é?
Raiva.
São Paulo.
Você não conhece o Postinho?
Meu
Deus.
O que seria este Postinho? Um asilo de idosas da vida? Mulheres com mamilos nos joelhos e mãos deformadas por artrite, batom borrado, brincando com a prótese dentária para cima e para baixo, para cima e para baixo, e babando, babando...
A comida chega. Só consigo dar duas garfadas.
Vamos pro Postinho! Vou te mostrar Vitória inteirinha!!
Como?
Digo, hein? Agora?
Pavor.
Right now.
Sim, ela falou inglês!
Agora não posso.
Como quem diz: quem sabe outro dia… Há!
Vou ao banheiro. Você sabe, né!
NÃO!!! Não sei!! Não quero saber!! Meu Salmão já virou Buchada, Gerschwin já virou Harmonia do Samba!
Aproveito a deixa, pago a conta e fujo. Fujo! Run, Forrest! Run!!

E pronto. A história acaba assim mesmo. Final sem graça pra caramba. Episódio bobo, na verdade. Não sei nem se merecia ter virado texto. Se leu até agora, perdeu tempo. E continua lendo. E assim, vai... Que falta do que fazer, hein..




E ainda está lendo... Quanta bobagem...E você, caro leitor? Conhece o Postinho? E a vida, está atarefada? Sei... Até onde vai isso, me pergunto. Digo, essa leitura banal. Garanto que não vai levar a nada. Garanto mesmo! Pode acreditar. Se quiser continuar lendo, fique à vontade. Continuo escrevendo.


Continuo...


Continuo...


Continuo...


Pelo menos até cans...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pergunto

É estranha a sensação. Como se as palavras fossem absorvendo os sentimentos. Uma espécie de catarse anulativa. Não sei se gosto da idéia de me transformar em máquina.
A questão é, então, como ser realmente útil à humanidade, sem ser máquina?
Estes humanos que esperam sempre a prontidão absoluta, um sabor já conhecido, uma plasticidade harmônica e vendável. Estes humanos que pouco criam, que muito procriam, que seguem rotinas, que ensaiam o sexo, que traçam mapas e compram bússolas. Eles, que são açoitados pela estética e gostam, que são atropelados pelo tempo e riem, que moram no futuro e morrem no presente, que cumprem as leis em falsidade.
Como manter-me humano nesta caldeira?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sê de Concreto

Sê
Sob a sorte
Sob o sal
Sobre o sexo
Sobre o santo
Sê
Em sussurro
Em suspiro
Em segredo
Em si mesmo
Sê
Semente
Argamassa
Indecente
Insistente
É
Sente
Sinta
Suma
Salta
Sê
Sílaba
Sassarica
Sossega
Cessa
Sê
Saci, Ceci, Ciça, Sissi, Insossa...
Só
Soluço
Sucesso
Abscesso
Absinto
Sê
Saia
Seio
Seco
Sujo
Em suma
Ssssssssssssssssssssssss.......

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ignorância inteligente (talvez um pouco de auto-ajuda)

É incrível como as mais despretensiosas das noites são capazes de nos presentear com os mais pertinentes dos temas. Isso nem sempre acaba bem. Às vezes alguém sai chorando, outras vezes inconformado. Às vezes amizades se rompem e só retomam os laços na dor do luto, cinqüenta, sessenta anos mais tarde.
Outra noite, chuvosa, conversávamos em um bar sobre a vida. Um de Nós reclamava de que seria eternamente infeliz, uma vez que nunca se julgava satisfeito com o que tinha. Dizia não ter absolutamente nada do que gostaria - um carro próprio, uma casa própria, um emprego de boa remuneração e que fosse algo muito prazeroso de ser feito e um relacionamento afetivo – e que o pior de tudo era saber que, quando os tivesse, todo esse nada que tinha, seria ainda infeliz, pois procuraria outros desejos não atingidos.
Curiosamente, é este o tema do último espetáculo que estreei. O desejo, que nos move, que nos desespera. O eterno vazio que abastece a humanidade.
O fato é que este assunto nos trouxe aquele, sobre o qual eu gostaria de escrever. A questão levantada por este Um de Nós, era aquela velha sobre a inteligência estar associada ao sofrimento. De que o homem, quanto mais ignorante, menos sofre. (Vide: Como me tornei estúpido, de Martin Page). E eu defendi esta teoria, a noite toda.
Mas havia Outro de Nós naquela mesma mesa, extremamente contrariado com a questão, absurdado e emocionalmente abalado (após algumas doses alcoólicas) com este fato. Como poderia o mais inteligente ser menos feliz? E nós, os defensores, tentávamos em vão convencê-lo de que o mais ignorante não tem tempo ou leitura para levantar questões existenciais. De que as preocupações são mais basais e ligadas à sobrevivência. (A tempo – não relaciono a ignorância com a falta de poder aquisitivo. O ignorante pobre se preocupa com o pão, e o ignorante rico se preocupa com o próximo carro a ser adquirido). De que quanto maior a capacidade de crítica e de análise do ser humano, maior é a amplitude com que vê as coisas do mundo, o que acaba sempre por revelar o lado escuro da lua, o interior da linda caixa vazia, que conseqüentemente traz o sofrimento, a discórdia e a revolta.
Assim mesmo, o Outro de Nós estava impassível. Por isso, cá estou hoje. Só hoje, posso entendê-lo. E explico.
A inteligência, aos olhos dele, não reside neste sábio guardião do eterno questionamento. Para ele, a inteligência está naquele que é capaz de tocar a felicidade a cada efêmero preenchimento do vazio do desejo. Ignorante é o que tanto busca o entendimento e as razões, ao invés de optar pelos simples “porquesins” e “porquenãos” em prol de segundos, horas ou dias de plenitude. Que, preocupado com o vazio que voltará a se formar, não percebe o conteúdo que, naquele momento, o habita.
Ignorante, para ele, é o sábio que não é capaz de mergulhar no mar. Que de tanto tentar entender os movimentos da maré, vê a seus pés somente a areia seca, e é obrigado a voltar no dia seguinte, quando a maré, tão enaltecida e estudada, voltar a subir. E desta forma, infeliz e insatisfeito, o inteligente volta para casa, com os pés sujos e a roupa colada no corpo suado, orgulhoso por ter chegado a, pelo menos, algumas frouxas teorias, mas triste por não tê-las vivido. Enquanto o ignorante, que sentiu em seu corpo os movimentos da maré, fecha os olhos e ainda se lembra do som, do frescor e do prazer do mergulho. O ignorante é, neste momento, a própria maré pelo inteligente pensada.
E anos depois, os netos do inteligente ignorante bocejam, enquanto os netos do ignorante inteligente sonham, aos ouvi-los contando da vida.Obrigado ao Outro de Nós, por me mostrar sua inteligência, frente à minha ignorância naquela noite.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O espinho

A flor. Mais bela que ela, não havia.
Tinha medo – medo de ser tirada do vaso, onde vivia.
Quem Dela Cuidava recebia flores todos os dias. Flores sem causa, sem ironia, que para nada serviam, senão para colorir a vida de quem as recebia. Amava a outra, a que havia plantado, e ela somente. As outras, sem terra, sem vaso, logo morriam.
Mas o medo que A Realmente Amada tinha, gerava nela espinhos cada vez mais afiados, cada vez mais rancorosos.
Até que um dia, Quem Dela Cuidava foi tentar tocá-la, para dela tratar. E a flor que tudo possuía, feriu os dedos de quem realmente a amou, um dia.
E assim, na triste impossibilidade de ser cuidada sem ferir, de ser amada sem machucar, A Realmente Amada foi ao meio partida, ao lixo lançada e, regada a lágrimas, dolorosamente esquecida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Primeira Canção

Esperado


Sento, espero, e penso no tempo
Tempo que foi tempo atrás
Tento, um tempo, que era de espera
De tanto faz
E nada mais

E tento me achar
No que me corrói
Tempo que é nada
Que hoje me dói
Tarde demais pra ver

Tempo, espero, revejo o vazio
Tudo o que não fiz por ti
Tento, voltar mas, o tempo está frio
Não volta mais, afinal
Morre no cal das horas

Só quero acordar
Do que me destrói
Tudo o que não fui
É o que me remói
Tarde demais pra ser

Olha, estou aqui
Não posso ir embora
Não vai
Volta aqui
Quero tentar viver
Passou depressa
Sento, um tempo
Tarde demais eu
Tento, espero
Um tempo atrás, me
Olha, espero
Um tempo
Me espera
Não posso
Espero
Por mim

(em homenagem ao meu "Y").

Encontrados

Aos poucos encontro por aqui, textos de outrora que me soam tão engraçados, hoje. Engraçados porque não se parecem mais comigo... Talvez não sejam mais meus. Assim, aqui, os entrego.

"Eu queria falar de amor, mas aprendi que do amor não se fala. Do amor se prova.

Eu preciso amar, para conseguir viver. Eu quero poder sentir. Eu quero funcionar meu coração, mas não sei por quem. Não sei por quê. É uma vontade de tocar, sem pele. Uma fome de beijo, sem boca.
Acho que, um dia, já soube amar...mas desaprendi. Me fechei entre muros espessos, em castelos guardados, onde deixo livre minha imaginação; somente ela; semente dela.

Sinto me tão só. Às vezes acredito que me basto, às vezes me devasto em sofrimentos piedosos. Piedosos de mim. Isso me preenche por alguns segundos e me alucina em um choro seco, soluços mudos, gritos abafados.

Fumo, não bebo. O álcool me rouba. De quem? Quem?

Quero ter a coragem de sair pelas ruas, de me transbordar, de me permitir. De beijar rostos amigos, de berrar nomes absurdos e pensamentos imperfeitos. Quero poder errar. Quero ser livre na simplicidade do humano."

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Caixas, Reformas e Chet Baker

Há seis meses estou envolvido em uma reforma. A busca pela morada ideal. Um trabalho que, confirmando o mito, deveria ter durado dois meses e já beira os sete. Mas não estou aqui para desabafar histórias de pedreiros, marceneiros, serralheiros, eletricistas, pintores, azulejistas, telhadistas e vidraceiros. Estou aqui, pois a reforma está chegando ao fim, e começa a brotar em mim um medo razoável do depois. A busca pela forma, pelo conforto e pela luz certa em cada cômodo de minha nova casa, deixará de ser muleta para a minha busca, de mim mesmo. É tão difícil decidir... As cores, os móveis... O que combina com o que, do que eu gosto ou desgosto, o aval do feng shui para que tudo seja perfeito. Estou construindo um templo de bem estar. Uma gruta da felicidade, onde eu me sinta completamente protegido do mundo mau e triste lá de fora.

Como tudo em mim, o que era para ser cotidiano virou uma obsessão.

E entre livros e revistas de decoração, em meio às minhas incertezas e inseguranças de um não-graduado em design de interiores, inicio o processo de encaixotar minha vida passada, para transportá-la para a vida futura – a que será abençoada pelas boas energias, que me trarão tudo o que eu vier a sonhar. E, ao som viciado do trompete de Chet Baker, começo a perceber a certeza de que vou levar comigo, meu passado. Subitamente, sou eu mesmo a grande ameaça. Por mais que faça o exercício de me livrar do que é obsoleto e inútil, por mais que eu queira encaixotar somente a minha essência, percebo que partes importantes desta essência já são obsoletas.

Como levar o futuro que ainda não há?

E então, começo a suspeitar que esta nova morada, que já me causou tanta dor de cabeça e pressa para que fosse eternamente novidade, será muito parecida com a antiga. Continuarei ouvindo Chet Baker. Continuarei sentado na mesma cadeira que estou agora e escrevendo na mesma máquina. Continuarei buscando temperos excêntricos na minha gastronomia. Continuarei observando com orgulho minha biblioteca, e feliz por poder escolher o livro que eu quiser ler ou reler no momento em que eu quiser. Terei móveis novos, está certo. Mas os móveis novos serão apenas uma nova pele para a alma que já existe. E ao mesmo tempo que esta reflexão me acalma, não posso negar que me frustra um pouco. É como ter construído um moderno parque de diversões repleto de brinquedos já vivenciados.

De qualquer forma, esta essência terá, na nova pele, um outro brilho. A poeira será retirada e substituída pelo pó de outros ares. A luz, certamente, será outra. E que a alma se expanda e ocupe com vigor cada cômodo deste novo teto. Em breve – se o vidraceiro realmente aparecer segunda-feira - teremos novos arranjos para a velha música de Chet.

Curiosidade

E sabe o que é mais curioso nisso tudo?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Insignificante

Ele cultivava dentro de si uma alma sem rosto. E a angústia de não ser quem gostaria. Assimilando os desejos, os discursos e os hábitos de quem com ele convive, percebe-se nu à noite e só no caminho de volta para casa. Nada dele é dele. A casa, o trabalho, os pensamentos. É como um títere que se auto controla, sem força, sem si mesmo, que cansa e desmorona, e se dá um nó nos próprios membros e cordões. E sente raiva, e aguça os defeitos alheios, e goza com eles, procurando assim uma forma de não querer ser quem já não é. Mas falha. E chora. E numa tentativa frustra de escrever sua biografia, lembra-se apenas das memórias dos outros. Um repórter por excelência. E tentando encontrar em seu passado feitos propriamente seus, percebe apenas sofrimentos banais que rodeiam uma única tragédia real: sua incapacidade de ter se criado. Nada mais posso escrever sobre ele, pois nada mais há para ser escrito. Resta em mim, neste momento, um alívio tremendo por não ser ele, por eu ser eu.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O ÓCIO

Um estado de falta de fôlego, de taquicardia, de eterna náusea, de anorexia. Uma entorpecente dificuldade de foco, uma nebulosa visão, desatenção. Tremor, ofegância, ânsias, anseios, ansiedades. Uma aceleração disritmada das conexões neuronais, uma sensação de multiplicação desenfreada de neurônios sedentos por qualqueres. Tiques, TOCs, espirros. Ações inúteis, depressões, agitações. Pessimismos, oásis de otimismos, pessimismos. Desespero. Espera. Ação. Espirros. Sentares, levantares, deitares. Traves de mandíbula, hiperatividade da língua dentro da boca, ou fora, ou nem lá nem cá. Espirros. Cólicas, sentadas, limpadas, levantadas, cólicas, sentadas, levantadas, esquecimento de limpadas, cólicas. Apegos, desapegos. Necessidade de construção que destrói. Corrói, corrói, corrói. Rói. Espirros. Obscenidades, masturbações, ejaculações, culpa. Manchas Sombras. Medo. Ego, Superego, ID. Gás. Secreções espessas. Leituras, esquecimentos. Idéias. Outras leituras. Idéias. Dissertações, dissecções, deturpações. Ficção banalizada, existencialismo frouxo. Tanto que é tão pouco. Tudo que nada é. Motivo destas palavras. Ópio... Ópio? Ópio!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Bafo

Uma Uma - Sabe a Ju namorada do Fê, irmão do Rê, que é amigo da Clau, que tá de caso com a Ale, ex do Fá, filho da Tetê, madrinha da Pati, prima do Rafa, que beijava a Bia, que deu pro Má na festa do Di no quarto da Cris, casada com o Rick, que trabalha com o Du, tio da Fabi, que viajou com a Li, que estudou com o Gui, que jogava com o Gu, da banda do Fla, que brigou com a Tá, que engravidou do Mau, cunhado da Didi, paquera da Mila, enteada da Lu, mãe da Cacá, que tatuou o Gegé, namorado do Bru, que chifrou a Tata, que cheirava com o Binho, que bateu o carro do Ti, que matou a Tati, ex do Dani, marido da Tití, que se jogou na frente do metrô? Teve um filho que chama João Francisco Menezes de Sá de Brito Gonçalves. Tem três dias.
Uma Outra - E...?
Uma Uma - E que ele ainda não tem orkut!
Uma Outra - Tô bege!!!
Uma Uma - Bafão!
Uma Outra - Abafa!!
Uma Uma - E mais... Sabe a Gina?

Eu quero saber mais

Quero saber mais da gastronomia; quero saber mais do vinho; quero saber mais da literatura; quero saber mais da religião africana; quero saber mais da computação gráfica; quero saber mais da fotografia; quero saber mais do cinema; quero saber mais da filosofia; quero saber mais da dança; quero saber mais do canto; quero saber mais da escrita musical e quero saber mais dos arranjos; quero saber mais do saxofone e do piano; quero saber mais da teoria teatral; quero saber mais dos palcos e quero saber mais das encenações; quero saber mais da produção; quero saber mais da administração; quero saber mais do mercado financeiro; quero saber mais do design de interiores; quero saber mais da psicologia aplicada à arte e quero saber mais da arte aplicada à psicologia; quero saber mais da pós-graduação e pós-pós-graduação; quero saber mais do feng-shui; quero saber mais da massoterapia; quero saber mais da medicina chinesa; quero saber mais da geografia; quero saber mais da história; quero saber mais daqueles que vagam mundo afora; quero saber mais dos cocktails; quero saber mais da história da arte; quero saber mais do tango; quero saber mais do espanhol, do francês, do alemão; quero saber mais da sexologia; quero saber mais da relatividade; quero saber mais do tempo; quero saber mais de querer saber mais; quero saber mais do porque de saber mais; quero saber mais de como saber mais; quero saber mais de quando; quero saber mais de onde; quero saber mais de pra que; quero saber alguma coisa que não sei. Não sei. Sabe?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Onde se esconde, o Ano Novo?

Ano Novo... Feliz, Ano Novo. Me sinto recarregado, com energia à flor da pele para começar tudo de novo, ou continuar o passado. E este espírito de Ano Novo, que reina absoluto na noite da virada, que une a humanidade em uma só vibração, de alegria, de paz, de esperança, já começa a lutar por sua sobrevivência. Afinal, até o carnaval, ainda conseguimos manter um pouco deste clima novidadeiro. Mas e depois? Onde se esconde o espírito de Ano Novo no decorrer do próprio ano novo? Aquele enérgico, com garra, otimista! Se perde no trânsito, nas filas de banco, nos saldos negativos? Se perde nas tragédias do Jornal Nacional, nas frustações, no sexo corriqueiro? Se perde na preguiça, no olhar viciado, no cotidiano. É muito difícil o exercício de manter a vitalidade de começo durante o todo. E isto é padrão em todo e qualquer ciclo. Ok, eu sei. Mas gostaria tanto... Acho que o mais emocionante da época de festas, é desejar ao próximo, com verdade, a felicidade nos próximos 365 dias, e saber que o próximo, muitas vezes um completo estranho, te deseja a mesma coisa. Emocionante é o fato de todos estarem otimistas, e agradecerem pelos ganhos, e até pelas perdas, do ano passado. Acho que é isto que se esconde por aí, pelos becos e banheiros públicos. Isto posto, deixo aqui registrada a minha verdadeira resolução para 2008: MANTER O ESPÍRITO DE ANO NOVO. Agradecer e desejar, com verdade, a felicidade do outro. Mais do que, exclusivamente, correr atrás da minha. Sem pieguice. Sem filantropia. Vamos ver... quem sabe? Bom, é isto, além de: fazer academia, terminar a reforma de casa, arrumar um emprego, ler mais, escrever mais, estudar mais, viajar mais...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Cena 9 - A desilusão

POR TODO AMOR QUE SINTO
INVENTO O ÓDIO
ME TORNO UM BICHO

E SÓ PRA MIM EU MINTO
INVENTO O TÉDIO
ME TORNO LIXO

E ENCARO MEUS ANSEIOS
E CUSPO
E ENGASGO

E LIVRE DE RECEIOS
ME CORTO
ME RASGO

POR TODO AMOR QUE SINTO
DECLARO A FESTA
ME ARRUMO INTEIRO

E EM GOLES DE ABSINTO
CORTO AS ARESTAS
QUEIMO O DINHEIRO

E ENGULO A SOLITUDE
E ENGASGO
E INSISTO

E LIVRE DE VIRTUDE
ME RASGO
DESISTO

E ENGASGO
E ENGULO
E RASGO
E INSISTO
E ASSIM
MATO A FOME
E DESISTO

(Trecho do espetáculo DÉSIR, também de minha autoria).