Sofia chegou em casa ontem como um anjo doce. Me beijou os olhos e até perguntou das minhas coisas.
Fui aos poucos tomando coragem para lhe entregar o presente. Ela propunha que saíssemos para jantar, só nós dois, pois não queria me ver na cozinha depois de um duro dia de trabalho, enquanto eu, casualmente, abria botão por botão de minha camisa listrada em finas riscas feita sob medida pelo alfaiate marroquino da Serra da Mantiqueira.
Quando ela se virou de lado para alcançar o batom dourado na bolsa vermelha, em um só gesto arranquei a camisa e revelei a tatuagem em meu peito. SOFIA, em letras românticas, com o O circundando meu mamilo esquerdo e o S exatamente sobre o coração.
Sua reação foi indescritível! E a pior que poderia ser. Sofia não riu, não chorou, não emitiu um som. Nem mesmo moveu um único músculo de sua linda face. Simplesmente voltou à bolsa vermelha, apanhou seu telemóvel, e trancou-se no banheiro.
Fiquei como uma estátua descamisada no centro da sala. Poucas vezes em minha vida me senti tão humilhado. Tive vontade de explodir em pranto, mas a força da erupção seria tamanha que me rasgaria por dentro até a morte. Então permaneci quieto, sem ar, deglutindo de mansinho cada arrepio de ódio dos poucos pêlos de meu corpo.
Sofia saiu do banheiro alguns minutos depois. Pareceram horas. Sem me olhar no rosto, me entregou num passe um pedaço de papel higiênico rasgado sem o mínimo de cuidado estético, um polígono qualquer de dupla face cheirando a lavanda com um número de telefone anotado em batom dourado.
Depois pegou todas as suas coisas, saiu, e até esta manhã ainda não havia voltado. Liguei para Michele logo cedo, que me atendeu com xingamentos horripilantes por perturbar seu sono matinal. Liguei para os hospitais, delegacias, hotéis, cabeleireiros, e nada.
Quando cheguei no escritório, disquei disfarçadamente para o número do papel higiênico. Que soco na alma levei quando atenderam...
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Metro IV
O jantar de terça-feira foi demasiado estranho. Estou com a pulga atrás da orelha. Realmente não sei se Michele é boa companhia para Sofia.
A amizade foi estranha, desde o início. Que amizade começa no dia de seu casamento? A delas começou, no dia do meu. Lembro de Michele na pista de dança, com seu vestido verde bandeira, vindo nos abraçar e congratular. Nenhum de nós dois sabia dizer quem ela era. Achamos, inicialmente, que estava de bico. Depois ela nos esclareceu ser a namorada do Rezende, meu vizinho de baia no escritório, que faleceu há dois anos. Foi comido por um tubarão na Praia Grande enquanto procurava conchas de madrepérola. Rezende colecionava conchas. Pobre Rezende. Mas o tubarão foi encontrado, foi morto, e Rezende pôde ser enterrado com honrarias e dignidade. Era lindo. O tubarão, não o Rezende. O Rezende era, Deus o tenha, feio de morrer. E morreu! Como age o destino, não?!
Mas voltemos ao jantar. Michele estava muito nervosa, meio persecutória. Olhava para os lados a todo momento, como se estivesse sendo observada. Sua reação ao roastbeef foi exagerada. Gemidos de prazer quase pornográficos a cada garfada. Muito bem, sei que caprichei no molho, mas não estava para tanto.
As duas ficaram bêbadas. As três garrafas do vinho chileno haviam acabado antes mesmo de eu pensar em servir o jantar. Tive de sair para comprar mais. Quando voltei, elas riam muito e me olhavam com certo estranhamento. Conferi minha roupa, cinto e sapatos, verifiquei meu penteado no espelho, chequei os dentes, os cantos dos olhos, o cheiro das axilas. Estava tudo em ordem, em perfeição. Do que riam, afinal? Não quis perguntar. Achei chato.
No meio do jantar, uma bomba. Descobri que Michele é casada. Nunca havia notado sua aliança, e só a percebi porque é idêntica à de Sofia. Rapidamente procurei nos dedos de minha esposa nosso elo, temendo que ela houvesse emprestado ou dado de presente a Michele. Mas constava intacta. Meu Deus, eu disse, vocês já notaram que têm anéis idênticos? Não é um anel, é uma aliança. Mas porque a Michele haveria de usar aliança? Por quê você acha? Acha que sou estúpida? Tenho cara de otária? Usaria uma aliança à toa? Sou casada! Desde quando? Desde sempre.
Há cinco anos conheço Michele. Em duas garfadas de roastbeef ao molho béchamel com cogumelos Paris e um gole de vinho entre elas, descubro que Rezende era um amante, que Michele havia se casado uma semana depois de mim, que Sofia foi ao casamento como acompanhante do Rezende para que não houvesse desconfianças do adultério e nem me comunicou, que o esposo de Michele se chama Kleber e que está nas Bahamas cultivando rabanetes, e que Sofia e Michele têm um gosto muito semelhante para jóias.
Pouco antes de eu ir dormir, Sofia narrava a Michele seu pesadelo da noite anterior. Mas narrava em sussurros. Pude ouvir que havia uma viagem, que alguém matava alguém com um espeto de frango, colocava o alguém morto numa sacola de barraca de camping e jogava ao mar. Havia algo com um restaurante em pleno alto mar, onde os carros deviam esperar o intervalo entre uma onda e outra para poder estacionar, onde as pessoas eram vistas apenas através de suas próprias luminosidades. Havia charuto, havia mafiosos, havia ressurreição do morto? Enfim, não pude entender. O barulho do jato d´água com o qual eu lavava a louça me impedia de escutar em detalhes. Fui dormir e nem ouvi Michele saindo, ou Sofia deitando.
Fizemos sexo de madrugada. Não sei dizer quem começou. Mas eu sonhava com caramelos, então deve ter sido Sofia.
Ontem não nos vimos. Ela dormia quando saí para trabalhar e dormia quando cheguei do trabalho. Nem pude entregar o presente que lhe comprei no caminho de casa. Não posso contar ainda, só depois. Vai que ela encontra este diário e descobre...
Hoje ela acordou mau humorada como o capeta. Bebeu chá de boldo no café da manhã, e seu suco de tomate de praxe, mas com pimenta dedo de moça em excesso. Saiu bufando e nem me disse bom dia. Pois eu digo. Bom dia, Sofia. Bom dia, meu amor. Que o frio de hoje te aqueça.
A amizade foi estranha, desde o início. Que amizade começa no dia de seu casamento? A delas começou, no dia do meu. Lembro de Michele na pista de dança, com seu vestido verde bandeira, vindo nos abraçar e congratular. Nenhum de nós dois sabia dizer quem ela era. Achamos, inicialmente, que estava de bico. Depois ela nos esclareceu ser a namorada do Rezende, meu vizinho de baia no escritório, que faleceu há dois anos. Foi comido por um tubarão na Praia Grande enquanto procurava conchas de madrepérola. Rezende colecionava conchas. Pobre Rezende. Mas o tubarão foi encontrado, foi morto, e Rezende pôde ser enterrado com honrarias e dignidade. Era lindo. O tubarão, não o Rezende. O Rezende era, Deus o tenha, feio de morrer. E morreu! Como age o destino, não?!
Mas voltemos ao jantar. Michele estava muito nervosa, meio persecutória. Olhava para os lados a todo momento, como se estivesse sendo observada. Sua reação ao roastbeef foi exagerada. Gemidos de prazer quase pornográficos a cada garfada. Muito bem, sei que caprichei no molho, mas não estava para tanto.
As duas ficaram bêbadas. As três garrafas do vinho chileno haviam acabado antes mesmo de eu pensar em servir o jantar. Tive de sair para comprar mais. Quando voltei, elas riam muito e me olhavam com certo estranhamento. Conferi minha roupa, cinto e sapatos, verifiquei meu penteado no espelho, chequei os dentes, os cantos dos olhos, o cheiro das axilas. Estava tudo em ordem, em perfeição. Do que riam, afinal? Não quis perguntar. Achei chato.
No meio do jantar, uma bomba. Descobri que Michele é casada. Nunca havia notado sua aliança, e só a percebi porque é idêntica à de Sofia. Rapidamente procurei nos dedos de minha esposa nosso elo, temendo que ela houvesse emprestado ou dado de presente a Michele. Mas constava intacta. Meu Deus, eu disse, vocês já notaram que têm anéis idênticos? Não é um anel, é uma aliança. Mas porque a Michele haveria de usar aliança? Por quê você acha? Acha que sou estúpida? Tenho cara de otária? Usaria uma aliança à toa? Sou casada! Desde quando? Desde sempre.
Há cinco anos conheço Michele. Em duas garfadas de roastbeef ao molho béchamel com cogumelos Paris e um gole de vinho entre elas, descubro que Rezende era um amante, que Michele havia se casado uma semana depois de mim, que Sofia foi ao casamento como acompanhante do Rezende para que não houvesse desconfianças do adultério e nem me comunicou, que o esposo de Michele se chama Kleber e que está nas Bahamas cultivando rabanetes, e que Sofia e Michele têm um gosto muito semelhante para jóias.
Pouco antes de eu ir dormir, Sofia narrava a Michele seu pesadelo da noite anterior. Mas narrava em sussurros. Pude ouvir que havia uma viagem, que alguém matava alguém com um espeto de frango, colocava o alguém morto numa sacola de barraca de camping e jogava ao mar. Havia algo com um restaurante em pleno alto mar, onde os carros deviam esperar o intervalo entre uma onda e outra para poder estacionar, onde as pessoas eram vistas apenas através de suas próprias luminosidades. Havia charuto, havia mafiosos, havia ressurreição do morto? Enfim, não pude entender. O barulho do jato d´água com o qual eu lavava a louça me impedia de escutar em detalhes. Fui dormir e nem ouvi Michele saindo, ou Sofia deitando.
Fizemos sexo de madrugada. Não sei dizer quem começou. Mas eu sonhava com caramelos, então deve ter sido Sofia.
Ontem não nos vimos. Ela dormia quando saí para trabalhar e dormia quando cheguei do trabalho. Nem pude entregar o presente que lhe comprei no caminho de casa. Não posso contar ainda, só depois. Vai que ela encontra este diário e descobre...
Hoje ela acordou mau humorada como o capeta. Bebeu chá de boldo no café da manhã, e seu suco de tomate de praxe, mas com pimenta dedo de moça em excesso. Saiu bufando e nem me disse bom dia. Pois eu digo. Bom dia, Sofia. Bom dia, meu amor. Que o frio de hoje te aqueça.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Metro III 1/2
O roastbeef já está temperado e amarrado no barbante. Sofia e Michele ainda não chegaram. Estou ansioso. Estão atrasadas. Comprei um vinho chileno ótimo. Michele adora vinhos chilenos. Os pais delas são de lá.
O psiquiatra disse que pode ser sonambulismo ou uma crise histérica, apesar de achar que a histeria não faça parte do tipo psicológico de Sofia. Qual é o tipo psicológico de Sofia? Qual é o meu? Ele não quis me dizer por telefone. Pediu para que marcássemos uma consulta. Ainda não sei como dizer isso a Sofia sem magoá-la. Não acho que ela esteja louca. Apenas cansada. Além disso, a consulta é caríssima. Pode melar nosso aniversário de casamento no spa. Talvez valha mais a pena investir na viagem.
Barulho de chave na porta. Devem ser elas.
O psiquiatra disse que pode ser sonambulismo ou uma crise histérica, apesar de achar que a histeria não faça parte do tipo psicológico de Sofia. Qual é o tipo psicológico de Sofia? Qual é o meu? Ele não quis me dizer por telefone. Pediu para que marcássemos uma consulta. Ainda não sei como dizer isso a Sofia sem magoá-la. Não acho que ela esteja louca. Apenas cansada. Além disso, a consulta é caríssima. Pode melar nosso aniversário de casamento no spa. Talvez valha mais a pena investir na viagem.
Barulho de chave na porta. Devem ser elas.
Metro III
Minha noite foi realmente um inferno. Acordei completamente molhado às cinco e meia da manhã, depois de finalmente ter pegado no sono às cinco. Sofia estava parada ao meu lado, em pé. Havia despejado uma jarra inteira de suco de tomate apimentado em mim, com molho inglês em excesso e pouco limão. Parecia um zumbi; ela, não eu. Um olhar esbranquiçado, estático, com a jarra vazia na mão esquerda e a direita arrumando os fios de cabelo que estavam fora do lugar. Depois saiu lentamente, foi à biblioteca, guardou a jarra na prateleira de livros de auto-ajuda e voltou para a cama.
Esperei meia hora, retirei a roupa de cama e coloquei na máquina, deixando-a coberta com um manto de dança flamenca que ela guarda na gaveta de seu criado mudo. Na volta, arrumei novamente a cama com o jogo lilás de algodão egípcio.
Hoje pela manhã, ela estava ótima e nem tocou no assunto. Era como se nada houvesse acontecido. Pediu suco de laranja ao invés do de tomate, para meu alívio. Eu havia esquecido de repor a jarra. Saiu para trabalhar muito perfumada. O cheiro do perfume ainda está impregnado em mim.
Mal estou conseguindo trabalhar. Todos me olham assustados aqui no escritório. Devo estar com uma cara péssima, de olhos esbugalhados e queixo em prognatismo. Devo voltar às minhas planilhas. No intervalo do almoço, ligarei para o meu psiquiatra. Será sonambulismo?
Esperei meia hora, retirei a roupa de cama e coloquei na máquina, deixando-a coberta com um manto de dança flamenca que ela guarda na gaveta de seu criado mudo. Na volta, arrumei novamente a cama com o jogo lilás de algodão egípcio.
Hoje pela manhã, ela estava ótima e nem tocou no assunto. Era como se nada houvesse acontecido. Pediu suco de laranja ao invés do de tomate, para meu alívio. Eu havia esquecido de repor a jarra. Saiu para trabalhar muito perfumada. O cheiro do perfume ainda está impregnado em mim.
Mal estou conseguindo trabalhar. Todos me olham assustados aqui no escritório. Devo estar com uma cara péssima, de olhos esbugalhados e queixo em prognatismo. Devo voltar às minhas planilhas. No intervalo do almoço, ligarei para o meu psiquiatra. Será sonambulismo?
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Metro II
Sofia está tendo pesadelos e não me deixa dormir. Estou preocupado! Faz mais ou menos dois meses que acordo no meio da noite com o som da voz dela. Deu para falar enquanto dorme. Não consigo entender exatamente o que diz. Os sons parecem gemidos de dor, são mais do que palavras. Diz algo como camarões, humm, camarões!
Que eu saiba, ela é extremamente alérgica a camarões.
Em nosso casamento comi mais de quatro cascatas de camarões e, no auge de nossa noite de núpcias, tive de levá-la ao hospital. Recebeu duas injeções de adrenalina para que não sufocasse com o inchaço da própria glote. Depois, perguntei se ela havia comido algum camarão e ela, ofendida, respondeu: Você acha que sou estúpida? Tenho cara de otária?
Depois concluímos que a alergia tinha se dado devido aos meus beijos. Desde então, há cinco anos, sou proibido de comer camarões. Não por ela, por mim mesmo. Pelo seu bem!
Sou apaixonado por camarões. Eu que deveria sonhar com eles, não ela.
Mas nesta noite foi diferente. Acordei com os gritos dela. Fiquei paralisado no meu lado do colchão. Ouvi dizer que não devemos acordar ninguém no meio de um pesadelo. O sonhador pode morrer de parada cardíaca. Esperei passar. E passou. Passou em um esboço de sorriso que ela mantém até este momento. Dorme tranquila aqui, ao meu lado. Meu sono, por sua vez, está perdido em algum canto deste quarto.
Estou realmente preocupado com ela. Que os anjos a enlacem nesta noite.
Vou tomar um chá!
Que eu saiba, ela é extremamente alérgica a camarões.
Em nosso casamento comi mais de quatro cascatas de camarões e, no auge de nossa noite de núpcias, tive de levá-la ao hospital. Recebeu duas injeções de adrenalina para que não sufocasse com o inchaço da própria glote. Depois, perguntei se ela havia comido algum camarão e ela, ofendida, respondeu: Você acha que sou estúpida? Tenho cara de otária?
Depois concluímos que a alergia tinha se dado devido aos meus beijos. Desde então, há cinco anos, sou proibido de comer camarões. Não por ela, por mim mesmo. Pelo seu bem!
Sou apaixonado por camarões. Eu que deveria sonhar com eles, não ela.
Mas nesta noite foi diferente. Acordei com os gritos dela. Fiquei paralisado no meu lado do colchão. Ouvi dizer que não devemos acordar ninguém no meio de um pesadelo. O sonhador pode morrer de parada cardíaca. Esperei passar. E passou. Passou em um esboço de sorriso que ela mantém até este momento. Dorme tranquila aqui, ao meu lado. Meu sono, por sua vez, está perdido em algum canto deste quarto.
Estou realmente preocupado com ela. Que os anjos a enlacem nesta noite.
Vou tomar um chá!
Metro I
Querido diário,
ando angutiado, solitário e medroso. Sofia está trabalhando demais e não tem mais tempo para mim. Ontem a noite, depois de comprar um sapato argentino irresistível no shopping, passei no empório e comprei alcachofras e sorvete de pistache. São os pratos favoritos dela. Comprei um Bordeaux incrível e esperei com o jantar à mesa até as onze da noite. Ela chegou exausta e nem notou o sapato novo. Quando lhe chamei a atenção, disse que era preto como todos os outros. O mesmo aconteceu semana passada com a gravata italiana vermelha que comprei na Armani do Free Shop. Não sei o que está acontecendo com ela. Deve estar com muitos problemas no trabalho, tadinha. Faz tempos que passou a ir somente duas vezes por semana ao cabeleireiro. Apesar disso, continua linda como quando nos conhecemos. Aliás, semana que vem, comemoramos cinco anos de casados. Estou pensando em levá-la ao Nordeste, a um spa-resort ultra-romântico.
Quanto ao meu trabalho, está tudo ótimo. Minha posição está estável e o salário... prefiro nem falar nada para não afastar a sorte. Bato três vezes na madeira.
Amo Sofia como nunca amei! Ela acaba de me dizer que trará a Michele para jantar aqui em casa amanhã. Pediu para eu fazer o roastbeef. Disse boa noite. Boa noite, meu amor. Descansa!
A Michele é sua melhor amiga e confidente. Vão juntas a todos os cantos. Confesso ter um pouco de ciúme dela, mas entendo a necessidade que ela tem de sair com as amigas, tricotar e jogar conversa fora. Nós homens pouco somos capazes de entender as maravilhas e mistérios da alma feminina.
Bom, devo ir dormir também. É a chance que tenho de estar ao seu lado ultimamente. Além disso, minhas olheiras estão profundas. Até amanhã.
ando angutiado, solitário e medroso. Sofia está trabalhando demais e não tem mais tempo para mim. Ontem a noite, depois de comprar um sapato argentino irresistível no shopping, passei no empório e comprei alcachofras e sorvete de pistache. São os pratos favoritos dela. Comprei um Bordeaux incrível e esperei com o jantar à mesa até as onze da noite. Ela chegou exausta e nem notou o sapato novo. Quando lhe chamei a atenção, disse que era preto como todos os outros. O mesmo aconteceu semana passada com a gravata italiana vermelha que comprei na Armani do Free Shop. Não sei o que está acontecendo com ela. Deve estar com muitos problemas no trabalho, tadinha. Faz tempos que passou a ir somente duas vezes por semana ao cabeleireiro. Apesar disso, continua linda como quando nos conhecemos. Aliás, semana que vem, comemoramos cinco anos de casados. Estou pensando em levá-la ao Nordeste, a um spa-resort ultra-romântico.
Quanto ao meu trabalho, está tudo ótimo. Minha posição está estável e o salário... prefiro nem falar nada para não afastar a sorte. Bato três vezes na madeira.
Amo Sofia como nunca amei! Ela acaba de me dizer que trará a Michele para jantar aqui em casa amanhã. Pediu para eu fazer o roastbeef. Disse boa noite. Boa noite, meu amor. Descansa!
A Michele é sua melhor amiga e confidente. Vão juntas a todos os cantos. Confesso ter um pouco de ciúme dela, mas entendo a necessidade que ela tem de sair com as amigas, tricotar e jogar conversa fora. Nós homens pouco somos capazes de entender as maravilhas e mistérios da alma feminina.
Bom, devo ir dormir também. É a chance que tenho de estar ao seu lado ultimamente. Além disso, minhas olheiras estão profundas. Até amanhã.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O Procrastinador e a Última Récita
Estou querendo escrever alguma coisa, mas não sei o quê. Minha mãe dizia que quando não temos o que dizer, o melhor a fazer é ficar quieto. Queria tanto ser mais zen-budista! Mas a questão é que tenho muito a dizer, tanto, que não sei por onde começar, ou como eleger os assuntos mais urgentes. Tudo é pouco urgente para mim, de tão urgente que cada coisa é. Deu pra entender? Você sente isso às vezes?
Vira e mexe desabafo sobre o bafafá de idéias que turbilham em minha humilde mente e me tiram a quietude. Mas não é sobre isso que quero escrever, mais uma vez. Não me agüento mais nessas histórias.
Meu grande dilema tem sido, em suma, a angústia, no sentido mais Kierkegaardiano possível. Ou seja, a enorme dificuldade de lidar com o livre-arbítrio e, principalmente, com as conseqüências que ele carrega consigo.
Ontem mesmo escrevi um grande texto sobre a prisão. Sobre o sentimento de aprisionamento, para ser mais específico. Dizia que sentia isso. E sinto. Mas o mais louco é que é a própria liberdade que está me aprisionando. Isso faz algum sentido para você? Para mim faz.
Talvez eu realmente precise de um cartão de ponto. De despertadores. De um chefe insuportável que me dê vontade de enviá-lo a receber no ânus a cada minuto. Percebes?
Enfim, cá estou. Pensando, pensando, com leques de penas vermelhas abertos em minha frente, sem ter a mínima condição de escolher uma delas para soltar ao vento no melhor Forrest Gump Way possível.
Espairecerei e procrastinarei mais um pouco.
Vira e mexe desabafo sobre o bafafá de idéias que turbilham em minha humilde mente e me tiram a quietude. Mas não é sobre isso que quero escrever, mais uma vez. Não me agüento mais nessas histórias.
Meu grande dilema tem sido, em suma, a angústia, no sentido mais Kierkegaardiano possível. Ou seja, a enorme dificuldade de lidar com o livre-arbítrio e, principalmente, com as conseqüências que ele carrega consigo.
Ontem mesmo escrevi um grande texto sobre a prisão. Sobre o sentimento de aprisionamento, para ser mais específico. Dizia que sentia isso. E sinto. Mas o mais louco é que é a própria liberdade que está me aprisionando. Isso faz algum sentido para você? Para mim faz.
Talvez eu realmente precise de um cartão de ponto. De despertadores. De um chefe insuportável que me dê vontade de enviá-lo a receber no ânus a cada minuto. Percebes?
Enfim, cá estou. Pensando, pensando, com leques de penas vermelhas abertos em minha frente, sem ter a mínima condição de escolher uma delas para soltar ao vento no melhor Forrest Gump Way possível.
Espairecerei e procrastinarei mais um pouco.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Individuação

Quando o indivíduo se torna o todo e o todo se torna o indivíduo. Religação, religião do único com o coletivo, do ponto com a amplitude. Convexividade e concavidade sintonizadas e afinadas. Indivíduo, individual e individuado.
Sim, estou sóbrio. Mais do que nunca. Calma, não estou vendo duendes ou fadas. Nem escrevendo auto-ajuda. Estou simplesmente sentado em meu escritório, em mais um segundo deste longo trajeto. Sou eu ainda. Sou eu mais do que nunca. Humano em demasia. Lúcido e bravo!
(Esta mandala me foi doada pela querida Marina Franco. É parte do livro "MANDALAS DE AL-ANDALUZ. Trata-se de atividade terapêutica e analítica. Basta ir colorindo e avivando o que era morto e insosso, dentro e fora de si. Recomendo!)
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Dinâmica
Deitado na caçamba, olhando a noite estrelada e ouvindo o vento a 150km/h pela highway. Cheiro de deserto, frio revigorante sobre o cobertor e aconchego sob, solidão acompanhante, blues rasgado ao fundo vindo da cabine do carro que um estranho de nome esquecido dirige. Destino desconhecido, sorriso no rosto por sentir no corpo o atravessar pungente da vida.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Cortesia
Cara senhora Q.,
suas pérolas foram encontradas ao longo da escadaria de acesso às frisas. Cheiram como gardênias. Gostaria de entregá-las pessoalmente. Peço-lhe, então, que indique em resposta o melhor horário para eu fazer-lhe esta visita, na qual devolverei-lhe o que é seu e aproveitaremos para tomar um chá e discorrer um pouco sobre a opereta da noite passada.
Cordialmente,
Senhor T.
PS.: Sinto apenas que o odor de seu pescoço já tenha se perdido no suor de minhas mãos. Ansioso para beijar-lhe os olhos novamente.
suas pérolas foram encontradas ao longo da escadaria de acesso às frisas. Cheiram como gardênias. Gostaria de entregá-las pessoalmente. Peço-lhe, então, que indique em resposta o melhor horário para eu fazer-lhe esta visita, na qual devolverei-lhe o que é seu e aproveitaremos para tomar um chá e discorrer um pouco sobre a opereta da noite passada.
Cordialmente,
Senhor T.
PS.: Sinto apenas que o odor de seu pescoço já tenha se perdido no suor de minhas mãos. Ansioso para beijar-lhe os olhos novamente.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Estrela de menina
Todas as noites, apoiada no parapeito da janela de seu quarto, depois de acariciar-se com a própria camisola e de pentear-se de olhos fechados, ela procurava no céu a sua estrela. Era dela desde criança, desde o dia em que se mudara para aquela casa. Adotara-a com amor e gratidão e cantava para ela, noite após noite, sua música predileta, de modo que, com o tempo o canto tornara-se reza.
Com o passar dos anos, porém, sua reza foi deixando de ser canto e passou a ser súplica. As irmãs, mais velhas e mais moças, mudaram-se todas com seus maridos. Os sobrinhos, pouco a pouco, passaram a ser como filhos. Os pais estavam de memória fraca, de pernas bambas e de cabelos ralos e sua janela era ainda a mesma, mas já de tinta desbotada e de madeira fraquejada.
Suplicava, no início, que sua estrela a trouxesse seu grande amor. Passou a permitir que fosse apenas um amor, depois apenas um carinho, depois uma gentileza, um olhar e por fim uma companhia qualquer.
Em bela noite de lua gorda e pálida, cansada de esperar e olhando fixamente para sua estrela como quem tenta ler os olhos de outra pessoa depois de dizer-lhe muitos desaforos, fechou a janela em sua cara num estacato e passou a madrugada em claro. Raivosa, levantou junto ao primeiro raio, arrumou suas malas e saiu, para sempre, de seu passado.
Mudou-se ao outro lado de seu mundo, e em desespero solitário na primeira noite de janela nova, numa tentativa de redimir-se junto a sua estrela, explodiu em choro convulsivo por não encontrá-la. Saiu ao meio da rua deserta e enevoada para poder ver o céu em amplitude, e nada.
Acordou de olhos inchados e secos, olhou-se no espelho d’água ao lavar o rosto, e vendo-se, lembrou das letras que cantava quando menina. Cantou, primeiro baixinho e depois ao mundo todo. Saiu, tingiu os cabelos e as unhas, passou a olhar para o céu na presença do sol e não mais da lua, ficou mais alta e de olhos mais vivos.
Assim, num fim de tarde em tom de cobre e brisa leve, depois do chá que a aquecera e a confortara, sentiu o toque antes de ouvir a voz daquele que seria o seu primeiro amor.
Naquela noite, apoiada no parapeito de uma terceira janela, depois de ter sido acariciada e de pentear-se de olhos bem abertos, ela não mais procurou a sua estrela. Sabendo de sua existência em algum lugar, agradeceu-a do fundo de sua alma em compreensão; não pelo concedido, mas por tudo que lhe fora negado.
Com o passar dos anos, porém, sua reza foi deixando de ser canto e passou a ser súplica. As irmãs, mais velhas e mais moças, mudaram-se todas com seus maridos. Os sobrinhos, pouco a pouco, passaram a ser como filhos. Os pais estavam de memória fraca, de pernas bambas e de cabelos ralos e sua janela era ainda a mesma, mas já de tinta desbotada e de madeira fraquejada.
Suplicava, no início, que sua estrela a trouxesse seu grande amor. Passou a permitir que fosse apenas um amor, depois apenas um carinho, depois uma gentileza, um olhar e por fim uma companhia qualquer.
Em bela noite de lua gorda e pálida, cansada de esperar e olhando fixamente para sua estrela como quem tenta ler os olhos de outra pessoa depois de dizer-lhe muitos desaforos, fechou a janela em sua cara num estacato e passou a madrugada em claro. Raivosa, levantou junto ao primeiro raio, arrumou suas malas e saiu, para sempre, de seu passado.
Mudou-se ao outro lado de seu mundo, e em desespero solitário na primeira noite de janela nova, numa tentativa de redimir-se junto a sua estrela, explodiu em choro convulsivo por não encontrá-la. Saiu ao meio da rua deserta e enevoada para poder ver o céu em amplitude, e nada.
Acordou de olhos inchados e secos, olhou-se no espelho d’água ao lavar o rosto, e vendo-se, lembrou das letras que cantava quando menina. Cantou, primeiro baixinho e depois ao mundo todo. Saiu, tingiu os cabelos e as unhas, passou a olhar para o céu na presença do sol e não mais da lua, ficou mais alta e de olhos mais vivos.
Assim, num fim de tarde em tom de cobre e brisa leve, depois do chá que a aquecera e a confortara, sentiu o toque antes de ouvir a voz daquele que seria o seu primeiro amor.
Naquela noite, apoiada no parapeito de uma terceira janela, depois de ter sido acariciada e de pentear-se de olhos bem abertos, ela não mais procurou a sua estrela. Sabendo de sua existência em algum lugar, agradeceu-a do fundo de sua alma em compreensão; não pelo concedido, mas por tudo que lhe fora negado.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Achei que soubesse
Você sabe dobrar uma camiseta?
Quando vi esta manchete na página principal da UOL pensei: ou o mundo está muito chato, ou os jornalistas estão muito preguiçosos! Desde quando uma matéria sobre isso merece destaque? É tão penoso conseguir espaço na mídia para a arte, por exemplo! Mesmo entregando um release perfeito levamos muitos nãos na cara. Mas o virtuosismo da dobra correta e perfeita de uma camiseta ficou lá, mais de uma semana, em destaque, gritando aos meus olhos toda vez que eu acionava o navegador.
Enfim, me revoltei. Fiquei alguns dias revoltadinho. Mas ontem à noite, depois de tirar a roupa para dormir, fui dobrar minha camiseta. A dobradura ficou uma bosta e pensei que deveria ter lido a tal manchete. Logo em seguida, naqueles microsegundos sinápticos de nosso cérebro, lembrei de quem amo! Lembrei de um dia de ensinamentos sobre como dobrar uma camiseta com a experiência de quem trabalhou muitos anos em lojas de roupas, lembrei de como o armário fica mais harmonioso quando quem amo decide tirar todas as roupas para dobrar com perfeição, lembrei que é mais fácil dormir assim porque os olhos se acalmam quando eu olho para o armário bonitinho e ordenado e percebi que sempre me lembro de quem amo quando vou dobrar qualquer uma das minhas camisetas, só que ainda não tinha dado a devida importância a este fato.
Dobrar camisetas é algo muitíssimo importante para mim, porque atinge meu peito, porque me faz lembrar que amo e que sou amado.
Por isso, naquele microsegundo, me senti um trolha prepotente ao achar que somente os grandes acontecimentos mundiais, ou as grandes obras de arte, ou as grandes descobertas cientificas é que mereciam uma manchete de primeira página!
Dobrar bem uma camiseta pode sim salvar muitas vidas, por melhorar sutilmente uma única!
Quando vi esta manchete na página principal da UOL pensei: ou o mundo está muito chato, ou os jornalistas estão muito preguiçosos! Desde quando uma matéria sobre isso merece destaque? É tão penoso conseguir espaço na mídia para a arte, por exemplo! Mesmo entregando um release perfeito levamos muitos nãos na cara. Mas o virtuosismo da dobra correta e perfeita de uma camiseta ficou lá, mais de uma semana, em destaque, gritando aos meus olhos toda vez que eu acionava o navegador.
Enfim, me revoltei. Fiquei alguns dias revoltadinho. Mas ontem à noite, depois de tirar a roupa para dormir, fui dobrar minha camiseta. A dobradura ficou uma bosta e pensei que deveria ter lido a tal manchete. Logo em seguida, naqueles microsegundos sinápticos de nosso cérebro, lembrei de quem amo! Lembrei de um dia de ensinamentos sobre como dobrar uma camiseta com a experiência de quem trabalhou muitos anos em lojas de roupas, lembrei de como o armário fica mais harmonioso quando quem amo decide tirar todas as roupas para dobrar com perfeição, lembrei que é mais fácil dormir assim porque os olhos se acalmam quando eu olho para o armário bonitinho e ordenado e percebi que sempre me lembro de quem amo quando vou dobrar qualquer uma das minhas camisetas, só que ainda não tinha dado a devida importância a este fato.
Dobrar camisetas é algo muitíssimo importante para mim, porque atinge meu peito, porque me faz lembrar que amo e que sou amado.
Por isso, naquele microsegundo, me senti um trolha prepotente ao achar que somente os grandes acontecimentos mundiais, ou as grandes obras de arte, ou as grandes descobertas cientificas é que mereciam uma manchete de primeira página!
Dobrar bem uma camiseta pode sim salvar muitas vidas, por melhorar sutilmente uma única!
Deem o alerta!
Existe algo pior do que o espírito de porco, do que a cabeça de bagre, do que o pobre de espírito, do que a idéia de jerico.
Existe algo mais penoso do que a limitação de raciocínio, do que a prisão da tradição, do que a covardia a ousadia, do que a impossibilidade de abstração?
E quando o infeliz é pobre de espírito de porco com a cabeça de jerico cheia de idéias de bagre?
Quando eu, por ventura, me enquadrar nesses quesitos, aos amigos peço que me avisem! Não sei se há algo pior do que o sentimento que nutro, neste momento, por estes quadros clínicos! Não quero que sintam o que sinto por mim.
Portanto, Amigos, como diz a finésima Hilal em seu linguajar de reunião corporativa, “podemos trabalhar nessa linha?”.
Existe algo mais penoso do que a limitação de raciocínio, do que a prisão da tradição, do que a covardia a ousadia, do que a impossibilidade de abstração?
E quando o infeliz é pobre de espírito de porco com a cabeça de jerico cheia de idéias de bagre?
Quando eu, por ventura, me enquadrar nesses quesitos, aos amigos peço que me avisem! Não sei se há algo pior do que o sentimento que nutro, neste momento, por estes quadros clínicos! Não quero que sintam o que sinto por mim.
Portanto, Amigos, como diz a finésima Hilal em seu linguajar de reunião corporativa, “podemos trabalhar nessa linha?”.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Re:versinho
Quando leãozinho preciso de toque
Preciso de ajuste
De pente e retoque
Quando leãozinho não ligo pra caça
Escondo minha garra
E esqueço minha raça
Preciso de ajuste
De pente e retoque
Quando leãozinho não ligo pra caça
Escondo minha garra
E esqueço minha raça
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Est Á
Está assim, como um tornado! Se fosse escrever como penso, não conseguiria formular uma frase sequer. Os pensamentos atuam em ritmo onírico, desenfreado, frouxo! As idéias surgem como icebergs e depois afundam novamente! E se misturam a outras, e vão de um lado pro outro, em zigue-zague, e me deixam ambivalente, de mãos atadas em mim mesmo. Será que isso passa? E como passaria? Shakespeare, Tchekhov, Chico... Planilhas, atos, divã... Casa, cachorro, currículos... Atenção, agressão, regressão... Solos, duos, multidão... Idosos, crianças, captação... Vídeo, palco, formação... Culinária, visagismo, depilação! Que desejo louco de me formatar para reiniciar!!
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Aniversário - Parágrafo Único
PARÁGRAFO ÚNICO - Quero ser lembrado pelo que fiz de belo. Um 'viva' à minha vida!
"Fique assim, meu amor, sempre assim, e se lembre de mim pelas coisas que eu dei. E também não se esqueça de mim, quando você souber enfim de tudo que amei."
"Fique assim, meu amor, sempre assim, e se lembre de mim pelas coisas que eu dei. E também não se esqueça de mim, quando você souber enfim de tudo que amei."
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Sofrimento Inocente
Fujonas, bagres ensebadas, malandras de viés!
Se não querem ficar, nem venham! Não atormentem meu sono às seis da manhã! Não apressem minha toalete intestinal! Não façam meu café esfriar e menos ainda meu cigarro apagar!
Ideias da peste, que me arrastam pelo pé ao centro da terra, que me puxam pelos cabelos até acabar o ar, que não me deixam ver uma cor de cada vez e empalidecem minha visão, e que depois me abandonam, bêbado, com as roupas rasgadas, o sexo sujo e a pele marcada!
Assumam suas crias! Dêem de mamar! Tragam dinheiro pra casa!
Agora, se isso for realmente impossível e sua sina for mesmo me deixar, um pedido lhes rogo! Não me traiam com um qualquer! Escolham ao menos uma mente mais brilhante, uma cama mais limpa e uma voz atuante!
E não me culpem! Não me punam mais! Este inocente não foi quem lhes roubou o acento e, assim sendo, não merece este sofrimento!
Se não querem ficar, nem venham! Não atormentem meu sono às seis da manhã! Não apressem minha toalete intestinal! Não façam meu café esfriar e menos ainda meu cigarro apagar!
Ideias da peste, que me arrastam pelo pé ao centro da terra, que me puxam pelos cabelos até acabar o ar, que não me deixam ver uma cor de cada vez e empalidecem minha visão, e que depois me abandonam, bêbado, com as roupas rasgadas, o sexo sujo e a pele marcada!
Assumam suas crias! Dêem de mamar! Tragam dinheiro pra casa!
Agora, se isso for realmente impossível e sua sina for mesmo me deixar, um pedido lhes rogo! Não me traiam com um qualquer! Escolham ao menos uma mente mais brilhante, uma cama mais limpa e uma voz atuante!
E não me culpem! Não me punam mais! Este inocente não foi quem lhes roubou o acento e, assim sendo, não merece este sofrimento!
segunda-feira, 1 de junho de 2009
O Lado B da Arte
Uma amiga me enviou um scrap dizendo ter visto, num semáforo, um flanelinha usando uma camiseta de um espetáculo que dirigi em 2006, o “LADO B”.
Achei, no mínimo, inusitado. Eram poucas as camisetas, e só foram entregues aos membros da Cia. e à equipe técnica da época. Primeiro imaginei quem teria doado a camiseta a alguma campanha de inverno para descamisados. Pensei se eu mesmo o teria feito. Tenho duas ainda, que uso para ensaios, aulas de dança, enfim, mas talvez tivesse mais.
A camiseta de um espetáculo é o último produto do processo criativo do mesmo. Depois nos serve de lembrança. Teatro pede essas coisas... Depois de pronto, não se encontra nas locadoras, nos brechós, nas galerias, nas livrarias, nas discotecas ou nos antiquários. É extremamente efêmero e por isso ficamos guardando essas evidências que para pouco servem. Mas, de toda forma, faz parte do próprio espetáculo, o que me causou uma sensação gostosa de estar ainda, três anos depois, contribuindo com o mundo de alguma forma através desta peça.
Fazemos arte para nós mesmos – e não se engane quem disser que não – e obrigatoriamente para os outros. De nada adianta uma obra que não seja vista ou experimentada por um público, qualquer que seja. E quando doamos esta parte de nós, que é como um filho, ao público, esperamos que essa obra nunca morra em suas memórias; esperamos que habite seus sonhos, que seja parte do arsenal simbólico de quem a vivenciou. E assim conquistamos, aos poucos, pequenos tecos da eternidade.
Esse pequeno fato, do flanelinha com a camiseta, funcionou para mim como uma provação concreta de que algo que criei realmente se perpetua por aí. E isso me dá uma garra gostosa e me confirma que realmente vale a pena continuar fazendo isso que faço, nem que seja para, no final de todo o esforço, simplesmente vestir um descamisado durante seu trabalho cotidiano.
Achei, no mínimo, inusitado. Eram poucas as camisetas, e só foram entregues aos membros da Cia. e à equipe técnica da época. Primeiro imaginei quem teria doado a camiseta a alguma campanha de inverno para descamisados. Pensei se eu mesmo o teria feito. Tenho duas ainda, que uso para ensaios, aulas de dança, enfim, mas talvez tivesse mais.
A camiseta de um espetáculo é o último produto do processo criativo do mesmo. Depois nos serve de lembrança. Teatro pede essas coisas... Depois de pronto, não se encontra nas locadoras, nos brechós, nas galerias, nas livrarias, nas discotecas ou nos antiquários. É extremamente efêmero e por isso ficamos guardando essas evidências que para pouco servem. Mas, de toda forma, faz parte do próprio espetáculo, o que me causou uma sensação gostosa de estar ainda, três anos depois, contribuindo com o mundo de alguma forma através desta peça.
Fazemos arte para nós mesmos – e não se engane quem disser que não – e obrigatoriamente para os outros. De nada adianta uma obra que não seja vista ou experimentada por um público, qualquer que seja. E quando doamos esta parte de nós, que é como um filho, ao público, esperamos que essa obra nunca morra em suas memórias; esperamos que habite seus sonhos, que seja parte do arsenal simbólico de quem a vivenciou. E assim conquistamos, aos poucos, pequenos tecos da eternidade.
Esse pequeno fato, do flanelinha com a camiseta, funcionou para mim como uma provação concreta de que algo que criei realmente se perpetua por aí. E isso me dá uma garra gostosa e me confirma que realmente vale a pena continuar fazendo isso que faço, nem que seja para, no final de todo o esforço, simplesmente vestir um descamisado durante seu trabalho cotidiano.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
SIM
Sabe quando um bom sábado gera um bom domingo?
Sábado ativo, como eu gosto... Pegar a estrada, experimentar teatro, rever amiga, rever pai e ser beijado pelo carinho de um disco de Miles Davis, rever irmão e olhar no espelho, pegar estrada de novo, agora ao som do Davis, agora mais bonito por ter maior significado, ver teatro, ouvir jazz nos fundos, rever amigos, terminar a noite comendo temaki e se sensibilizando com a sensibilidade dos outros, com a diversidade do mundo e com o prazer.
Gerou: domingo que começou no meio do dia, que foi ao supermercado, que gritou ‘dia lindo’ pro vento da janela do carro, que fez almoço caseiro com picanha ao shoyo, vinagrete, arroz ao alho, farofinha e quiabo na manteiga, que viu monólogo, que caminhou em noite estrelada sobre o viaduto e parou para ver as luzes e as cores da cidade, que alugou filmes, que voltou ao supermercado, que fez massa caseira de cookies chop-chips e os assou, e os comeu, que chorou em fim de filme, que continuou chorando, que fez declarações de amor caladas para depois dormir sorrindo.
Como gira o mundo quando dizemos sim!
Sábado ativo, como eu gosto... Pegar a estrada, experimentar teatro, rever amiga, rever pai e ser beijado pelo carinho de um disco de Miles Davis, rever irmão e olhar no espelho, pegar estrada de novo, agora ao som do Davis, agora mais bonito por ter maior significado, ver teatro, ouvir jazz nos fundos, rever amigos, terminar a noite comendo temaki e se sensibilizando com a sensibilidade dos outros, com a diversidade do mundo e com o prazer.
Gerou: domingo que começou no meio do dia, que foi ao supermercado, que gritou ‘dia lindo’ pro vento da janela do carro, que fez almoço caseiro com picanha ao shoyo, vinagrete, arroz ao alho, farofinha e quiabo na manteiga, que viu monólogo, que caminhou em noite estrelada sobre o viaduto e parou para ver as luzes e as cores da cidade, que alugou filmes, que voltou ao supermercado, que fez massa caseira de cookies chop-chips e os assou, e os comeu, que chorou em fim de filme, que continuou chorando, que fez declarações de amor caladas para depois dormir sorrindo.
Como gira o mundo quando dizemos sim!
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Canis in sinapsis I
Meus dentes coçam e todos os sons e formas do mundo são novos para mim. Sorrio do momento em que acordo ao último suspiro da consciência diária. Expiro instinto e reflexos. Conheço bem o prazer, e da dor só conheço o alívio da cura. Me divirto com a vida em si, com meu próprio corpo, com a passagem do ar entre o mundo e eu, e não preciso de nada além disso. Sinto fome e mato, sinto sede e bebo. Se me canso, durmo. E sonho bem para reorganizar minha caixa de novidades. Não me perguntam o que ando fazendo, porque mal andar eu ando. E além de existir, nada faço, porque não preciso. Porque isso já é fantástico demais para mim.
Sou novo no mundo e já beijo. Sou novo nos beijos e já sei amar. Sei sentir falta do amor. Sei retribuir. Sei ser amado sem culpa quando me desmancho em afagos e afetos. Se quero fico, se não quero, vou embora. Livre e solto, correndo sem destino, sem motivo, sem orientação médica ou estética. Gosto do vento, gosto da chuva, gosto do calor e do conforto. E de todas as respostas que esperam do mundo nas perguntas que insistem em fazer, apenas uma me interessa: por quê dizem que esta vida que tanto me alegra é tão difícil?
Sou novo no mundo e já beijo. Sou novo nos beijos e já sei amar. Sei sentir falta do amor. Sei retribuir. Sei ser amado sem culpa quando me desmancho em afagos e afetos. Se quero fico, se não quero, vou embora. Livre e solto, correndo sem destino, sem motivo, sem orientação médica ou estética. Gosto do vento, gosto da chuva, gosto do calor e do conforto. E de todas as respostas que esperam do mundo nas perguntas que insistem em fazer, apenas uma me interessa: por quê dizem que esta vida que tanto me alegra é tão difícil?
terça-feira, 19 de maio de 2009
Saturnidade
Uma mistura de sentimentos depressivos e temerosos com necessidades extremas de aconchego e proteção. Carência profunda. Sensação de solidão e de desamparo e a vontade contraditória de cavar minha toca e me esconder da sociedade.
Chegou assim meu Saturno, meses atrás. Na realidade, já há quase um ano. Realidade. Palavra que revela muito do que venho buscando e precisando nos últimos tempos; um reencontro com minhas realidades, com minhas origens.
Nunca estive tão família. Tenho sentido desejos imensos de rever fotografias, de ouvir histórias das gerações que me antecederam, de mergulhar na nostalgia da infância e suas primeiras descobertas.
Estou preferindo calor ao frio. Terra ao ar. Pernas a cabeças.
Tenho me reencontrado comigo mesmo diariamente frente ao espelho, e conversado com esta parte de mim que deriva do umbigo, que é essencial de minha personalidade.
Decidi rever meu nome artístico; Santhiago não sou eu. Sou São Thiago, e voltarei a ser.
Lembranças de tempos de colégio, de amizades primárias.
Sincronismos extremamente afiados, que até geram medos; penso e ligam; sonho e recebo notícias.
Estou caseiro, simplificado, profundo e retrospectivo.
Temos um cachorro, agora. Quero cuidar e ver crescer. Estou pensando mais na casa quando estou na rua do que na rua quando estou em casa.
Comprei roupas de cama novas e fofas. Todo um ritual de eremita para rever meus conceitos, minhas pendências, minhas preferências e escolhas.
E todos estão envelhecendo... E meu irmão está mais perto... E sinto os laços outra vez mais fortes...
E meus amigos também estão assim, cada qual em seu canto.
Fase difícil esta, mas necessária e urgente! O louco sai pelo mundo, se constrói, se destrói, testa máscaras, se reinventa, se espalha feito pólen em vento e agora vai juntado os cacos, as peças, as dicas, as memórias, os fatos, para recomeçar de um ponto que não é inicial e que é mais sólido, robusto e pleno de si.
Lindo, lindo, lindo este processo de individuação! Lindo e árduo, senão qual seria a graça?
Pés na terra, olhos no céu, e vamos andando.
Chegou assim meu Saturno, meses atrás. Na realidade, já há quase um ano. Realidade. Palavra que revela muito do que venho buscando e precisando nos últimos tempos; um reencontro com minhas realidades, com minhas origens.
Nunca estive tão família. Tenho sentido desejos imensos de rever fotografias, de ouvir histórias das gerações que me antecederam, de mergulhar na nostalgia da infância e suas primeiras descobertas.
Estou preferindo calor ao frio. Terra ao ar. Pernas a cabeças.
Tenho me reencontrado comigo mesmo diariamente frente ao espelho, e conversado com esta parte de mim que deriva do umbigo, que é essencial de minha personalidade.
Decidi rever meu nome artístico; Santhiago não sou eu. Sou São Thiago, e voltarei a ser.
Lembranças de tempos de colégio, de amizades primárias.
Sincronismos extremamente afiados, que até geram medos; penso e ligam; sonho e recebo notícias.
Estou caseiro, simplificado, profundo e retrospectivo.
Temos um cachorro, agora. Quero cuidar e ver crescer. Estou pensando mais na casa quando estou na rua do que na rua quando estou em casa.
Comprei roupas de cama novas e fofas. Todo um ritual de eremita para rever meus conceitos, minhas pendências, minhas preferências e escolhas.
E todos estão envelhecendo... E meu irmão está mais perto... E sinto os laços outra vez mais fortes...
E meus amigos também estão assim, cada qual em seu canto.
Fase difícil esta, mas necessária e urgente! O louco sai pelo mundo, se constrói, se destrói, testa máscaras, se reinventa, se espalha feito pólen em vento e agora vai juntado os cacos, as peças, as dicas, as memórias, os fatos, para recomeçar de um ponto que não é inicial e que é mais sólido, robusto e pleno de si.
Lindo, lindo, lindo este processo de individuação! Lindo e árduo, senão qual seria a graça?
Pés na terra, olhos no céu, e vamos andando.
terça-feira, 17 de março de 2009
Desertado
Estou em uma festa, rodeado de pessoas que me amam. Os pés seguros na terra, a cabeça ereta, sorriso nos lábios e esperança nos olhos. Tudo vai dar certo, penso, otimista. Conto das minhas coisas, conto de mim, e os ouvidos ao redor realmente ouvem; e se interessam, e opinam, e querem saber mais. Se preocupam, sem invadir; estimulam, sem iludir.
Num piscar de olhos, volto ao deserto. Sozinho. As mesmas pessoas que há pouco eu alimentava em festa, agora se ocupam demais em achar suas próprias gotas d´água. Eu sei onde há água, digo, otimista. Não me dão atenção. Não me ouvem. Acreditem em mim, eu sei que há água sob nossos pés. Não basta, estou sozinho, e sozinho não consigo cavar. Digo minhas coisas para mim mesmo, na esperança de que o vento as espalhe. Sofro, dói. Caminho engolido por minhas esperanças, perdido, sem bússolas ou estrelas. Perco o rumo, me perco, temo morrer e não cair, temo morrer e continuar andando. Por onde eu vou, pergunto. Por quê por aí? O vento me ouve, mas não escuta e nada me responde. Estou sozinho. Sozinho. Só. Quero afundar na areia. As pernas mal sentem o chão; estão bambas, tortas, a cabeça baixa, a coluna arqueada, os olhos fundos. Não me ouvem, não me apóiam, não acreditam em mim. Aos poucos, também deixo de acreditar. Aos poucos, deixo de me ouvir, depois deixo de falar, deixo de sentir, de pedir, de esperar. Gostaria que o deserto tivesse ao menos uma gruta, estreita e escura, onde eu pudesse me esconder. Mas grutas, não há. Não há nada. Não há ninguém. No deserto, só há a lembrança da festa, só há a lembrança da, só há a lembrança, só há a, só há, só.
Num piscar de olhos, volto ao deserto. Sozinho. As mesmas pessoas que há pouco eu alimentava em festa, agora se ocupam demais em achar suas próprias gotas d´água. Eu sei onde há água, digo, otimista. Não me dão atenção. Não me ouvem. Acreditem em mim, eu sei que há água sob nossos pés. Não basta, estou sozinho, e sozinho não consigo cavar. Digo minhas coisas para mim mesmo, na esperança de que o vento as espalhe. Sofro, dói. Caminho engolido por minhas esperanças, perdido, sem bússolas ou estrelas. Perco o rumo, me perco, temo morrer e não cair, temo morrer e continuar andando. Por onde eu vou, pergunto. Por quê por aí? O vento me ouve, mas não escuta e nada me responde. Estou sozinho. Sozinho. Só. Quero afundar na areia. As pernas mal sentem o chão; estão bambas, tortas, a cabeça baixa, a coluna arqueada, os olhos fundos. Não me ouvem, não me apóiam, não acreditam em mim. Aos poucos, também deixo de acreditar. Aos poucos, deixo de me ouvir, depois deixo de falar, deixo de sentir, de pedir, de esperar. Gostaria que o deserto tivesse ao menos uma gruta, estreita e escura, onde eu pudesse me esconder. Mas grutas, não há. Não há nada. Não há ninguém. No deserto, só há a lembrança da festa, só há a lembrança da, só há a lembrança, só há a, só há, só.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Um tempo de 1 cigarro
Dois goles de café. Um terceiro.
Cigarro. Isqueiro. Boca. Dedo. Fogo. Pulmões. Fumaça.
Mais um trago que o deixe bem aceso.
Largada no tempo!
A ruiva de vinte anos do escritório de arquitetura chega à maternidade em trabalho de parto. O aposentado sisudo escolhe os números que irá jogar na mega-sena. O motoboy olha no relógio e decide mudar sua rota. O piloto do avião inicia procedimento de bordo. O rapaz apaixonado liga seu computador e não ouve a campainha que toca. O cabeleireiro cansado sente vontade de bocejar. O executivo workaholic na reunião da manha sente a frieira coçar no pé esquerdo.
Sexto trago.
A ruiva de vinte anos já está na sala de parto, asséptica e em esforço. O aposentado sisudo, na fila para pagar o bilhete, se revolta pelos setenta anos de não-sorte. O motoboy pensa no jogo de futebol de ontem à noite, e não vê a babá atravessando a rua com o carrinho. O piloto do avião pensa em ligar para sua esposa e desiste. O rapaz apaixonado lê o último e-mail de seu amado, chora e pensa em morte. O cabeleireiro cansado tenta prestar atenção nas queixas sexuais da madame, mas, na verdade, pensa se boceja ou não, com medo de ficar feio no próprio espelho. O executivo workaholic tem um acesso de fúria no meio da reunião, pelo fato do motoboy estar atrasado com os documentos necessários, e assusta os outros ternos e tailleurs.
Décimo primeiro trago.
A ruiva de vinte anos se preocupa ao ouvir que a bundinha vai sair primeiro. O aposentado sisudo luta contra a sorte, pensando se desiste ou não do jogo, e segura o bilhete como se fosse sua própria vida. O motoboy, ao olhar para frente, aperta o freio com toda a força. O piloto de avião desiste de ligar para a esposa por ver uma luz vermelha piscando. O rapaz apaixonado se culpa e pensa que não sabe o que fazer por ser a primeira vez que é abandonado. O cabeleireiro decide se entregar aos prazeres da vida e boceja o maior bocejo da sua existência. O executivo ouve do chefe, na frente dos outros ternos, que pode passar no RH.
Último trago.
A ruiva de vinte anos ouve o choro do primeiro filho e pensa qual pai vai escolher para ele. O aposentado sisudo joga no lixo o bilhete amassado que contém os números que serão sorteados daqui a dois dias, e nunca irá saber, pois em dois dias estará nas cataratas do Iguaçu, tirando fotos e gastando todas as suas economias. O motoboy decide vender sua moto e chora na calçada, ao ver a criança rindo para ele em seu colo e a babá lhe oferecendo um abraço. O piloto liga para a esposa e diz estar indo para casa, depois de cancelar a decolagem por notar, a tempo, uma falha grave na aeronave. O rapaz apaixonado, com lágrima nos olhos, decide atender à campainha e chora mais ao ver os olhos do amado e as rosas amarelas que ele traz. O cabeleireiro abre os olhos depois do bocejo e assusta com o grito da madame, que acaba de ganhar uma bela falha careca no lado direito da cabeça, e da luta contra o bocejo, passa a lutar contra o riso. O executivo, ao ouvir o chefe, não pensa duas vezes antes de tirar seu sapato esquerdo, arremessá-lo contra o datashow, arrancar sua meia esquerda, jogá-la na cara da colega sardenta e mal-comida, colocar o pé esquerdo sobre a mesa de reuniões e coçar, em gozos, sua frieira do dedão.
Um cigarro.
Muitas vidas salvas.
Uma madeixa perdida.
(Postagem comemorativa - Edição para colecionadores - número 100)
Cigarro. Isqueiro. Boca. Dedo. Fogo. Pulmões. Fumaça.
Mais um trago que o deixe bem aceso.
Largada no tempo!
A ruiva de vinte anos do escritório de arquitetura chega à maternidade em trabalho de parto. O aposentado sisudo escolhe os números que irá jogar na mega-sena. O motoboy olha no relógio e decide mudar sua rota. O piloto do avião inicia procedimento de bordo. O rapaz apaixonado liga seu computador e não ouve a campainha que toca. O cabeleireiro cansado sente vontade de bocejar. O executivo workaholic na reunião da manha sente a frieira coçar no pé esquerdo.
Sexto trago.
A ruiva de vinte anos já está na sala de parto, asséptica e em esforço. O aposentado sisudo, na fila para pagar o bilhete, se revolta pelos setenta anos de não-sorte. O motoboy pensa no jogo de futebol de ontem à noite, e não vê a babá atravessando a rua com o carrinho. O piloto do avião pensa em ligar para sua esposa e desiste. O rapaz apaixonado lê o último e-mail de seu amado, chora e pensa em morte. O cabeleireiro cansado tenta prestar atenção nas queixas sexuais da madame, mas, na verdade, pensa se boceja ou não, com medo de ficar feio no próprio espelho. O executivo workaholic tem um acesso de fúria no meio da reunião, pelo fato do motoboy estar atrasado com os documentos necessários, e assusta os outros ternos e tailleurs.
Décimo primeiro trago.
A ruiva de vinte anos se preocupa ao ouvir que a bundinha vai sair primeiro. O aposentado sisudo luta contra a sorte, pensando se desiste ou não do jogo, e segura o bilhete como se fosse sua própria vida. O motoboy, ao olhar para frente, aperta o freio com toda a força. O piloto de avião desiste de ligar para a esposa por ver uma luz vermelha piscando. O rapaz apaixonado se culpa e pensa que não sabe o que fazer por ser a primeira vez que é abandonado. O cabeleireiro decide se entregar aos prazeres da vida e boceja o maior bocejo da sua existência. O executivo ouve do chefe, na frente dos outros ternos, que pode passar no RH.
Último trago.
A ruiva de vinte anos ouve o choro do primeiro filho e pensa qual pai vai escolher para ele. O aposentado sisudo joga no lixo o bilhete amassado que contém os números que serão sorteados daqui a dois dias, e nunca irá saber, pois em dois dias estará nas cataratas do Iguaçu, tirando fotos e gastando todas as suas economias. O motoboy decide vender sua moto e chora na calçada, ao ver a criança rindo para ele em seu colo e a babá lhe oferecendo um abraço. O piloto liga para a esposa e diz estar indo para casa, depois de cancelar a decolagem por notar, a tempo, uma falha grave na aeronave. O rapaz apaixonado, com lágrima nos olhos, decide atender à campainha e chora mais ao ver os olhos do amado e as rosas amarelas que ele traz. O cabeleireiro abre os olhos depois do bocejo e assusta com o grito da madame, que acaba de ganhar uma bela falha careca no lado direito da cabeça, e da luta contra o bocejo, passa a lutar contra o riso. O executivo, ao ouvir o chefe, não pensa duas vezes antes de tirar seu sapato esquerdo, arremessá-lo contra o datashow, arrancar sua meia esquerda, jogá-la na cara da colega sardenta e mal-comida, colocar o pé esquerdo sobre a mesa de reuniões e coçar, em gozos, sua frieira do dedão.
Um cigarro.
Muitas vidas salvas.
Uma madeixa perdida.
(Postagem comemorativa - Edição para colecionadores - número 100)
Hoje a bolsa fechou em queda!
Hoje a vida não está boa. Hoje.
Há esses dias, não há? Em que acordamos preocupados, dias de surto de realidade.
Freqüentei ares antigos e percebi poucas mudanças. Percebi que talvez quisesse não haver mudado junto. Ou que, se tivesse ficado, se tivesse engolido meus próprios sapos, talvez estivesse mais satisfeito, com menos fome.
A fome... A fome que impede que sintamos o verdadeiro gosto da refeição. Que nos ilude, que nos mascara por dentro.
Dia púrpura... Púrpura escuro, quase negro.
Quanta bobagem por aí... Bobagens gratuitas e pagas. Quanta injustiça, não? Complicado manter a sobriedade da construção do caminho. Complicado aceitar as mazelas como parte do processo.
Quantos eternos começos! Quantos poucos fins!
Entendo bem a saída de incêndio nesses dias. Entendo muito bem...
Com licença, vou me afogar em cobertas felpudas e duchas fortes. Não sei ainda se nesta ordem, ou se em ordem inversa...
É, talvez prefira os inversos. Talvez prefira os invernos nestes dias vermelhos da minha bipolaridade!
Há esses dias, não há? Em que acordamos preocupados, dias de surto de realidade.
Freqüentei ares antigos e percebi poucas mudanças. Percebi que talvez quisesse não haver mudado junto. Ou que, se tivesse ficado, se tivesse engolido meus próprios sapos, talvez estivesse mais satisfeito, com menos fome.
A fome... A fome que impede que sintamos o verdadeiro gosto da refeição. Que nos ilude, que nos mascara por dentro.
Dia púrpura... Púrpura escuro, quase negro.
Quanta bobagem por aí... Bobagens gratuitas e pagas. Quanta injustiça, não? Complicado manter a sobriedade da construção do caminho. Complicado aceitar as mazelas como parte do processo.
Quantos eternos começos! Quantos poucos fins!
Entendo bem a saída de incêndio nesses dias. Entendo muito bem...
Com licença, vou me afogar em cobertas felpudas e duchas fortes. Não sei ainda se nesta ordem, ou se em ordem inversa...
É, talvez prefira os inversos. Talvez prefira os invernos nestes dias vermelhos da minha bipolaridade!
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Às Vezes
A Mãe dá banho no pequeno filho.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar tomar banho?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e escovar os dentes? Quantas vezes?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E limpar a bunda depois de fazer cocô?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe passa a camisa do pequeno adolescente.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar arrumar a cama?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar comprar camisinha?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E encher o tanque do carro? E fazer a barba?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe prega o cravo no fraque do pequeno noivo.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar esperar do lado de fora das lojinhas?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar declarar o Imposto de Renda?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E comemorar o Natal? E pular ondinhas? E jantar com os sogros? E discutir a relação?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe enxuga a baba do queixo do pequeno pai.
- Mãe, quantas vezes na vida vou precisar ir a festinhas?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida vou ouvir ‘eu não pedi pra nascer’?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E pagar pelos brinquedos? E pelos cursos? E não dormir de preocupação?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe ajeita a gravata do pequeno pai do formando.
- Mãe, quantas vezes vou chorar de saudades?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou desejar ter feito tudo diferente?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e fazer telefonemas? E esperar por eles? E me sentir só?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe segura nos braços do pequeno pai do noivo.
- Mãe, quantas vezes vou me lembrar deste momento?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E pensar no que fazer agora?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E me sentir envelhecido?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe olha nos olhos do pequeno avô.
- Mãe, quantas vezes vou repetir a mesma história?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou me preocupar com novas dores?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e mostrar a foto dele? E dizer que o amo?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
O Filho segura nas mãos da pequena mãe.
- Mãe, quantas vezes vou ouvir ‘eu te amo’?
- Poucas vezes, meu filho. Poucas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou ter medo da morte?
- Poucas vezes, meu filho. Poucas vezes.
- Mãe, quantas vezes te disse ‘eu te amo’?
- Nenhuma vez, meu filho. Nenhuma vez.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar tomar banho?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e escovar os dentes? Quantas vezes?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E limpar a bunda depois de fazer cocô?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe passa a camisa do pequeno adolescente.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar arrumar a cama?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar comprar camisinha?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E encher o tanque do carro? E fazer a barba?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe prega o cravo no fraque do pequeno noivo.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar esperar do lado de fora das lojinhas?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida eu vou precisar declarar o Imposto de Renda?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E comemorar o Natal? E pular ondinhas? E jantar com os sogros? E discutir a relação?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe enxuga a baba do queixo do pequeno pai.
- Mãe, quantas vezes na vida vou precisar ir a festinhas?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes na vida vou ouvir ‘eu não pedi pra nascer’?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E pagar pelos brinquedos? E pelos cursos? E não dormir de preocupação?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe ajeita a gravata do pequeno pai do formando.
- Mãe, quantas vezes vou chorar de saudades?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou desejar ter feito tudo diferente?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e fazer telefonemas? E esperar por eles? E me sentir só?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe segura nos braços do pequeno pai do noivo.
- Mãe, quantas vezes vou me lembrar deste momento?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E pensar no que fazer agora?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- E me sentir envelhecido?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
A Mãe olha nos olhos do pequeno avô.
- Mãe, quantas vezes vou repetir a mesma história?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou me preocupar com novas dores?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
- Mãe, e mostrar a foto dele? E dizer que o amo?
- Muitas vezes, meu filho. Muitas vezes.
O Filho segura nas mãos da pequena mãe.
- Mãe, quantas vezes vou ouvir ‘eu te amo’?
- Poucas vezes, meu filho. Poucas vezes.
- Mãe, quantas vezes vou ter medo da morte?
- Poucas vezes, meu filho. Poucas vezes.
- Mãe, quantas vezes te disse ‘eu te amo’?
- Nenhuma vez, meu filho. Nenhuma vez.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Orlando e Penélope
Olha Penélope, eu tô de saco cheio de ser o casal de frente. Da próxima vez, a gente chega primeiro. Não me importa se seu cabelo vai estar eletro-frisado, se o batom vai estar borrado, se seus cílios postiços estiverem caindo ou se sua calcinha estiver marcando. No jantar de amanhã, nós vamos ser os primeiros a chegar e não vamos ser o casal de frente.
Orlando e Penélope tem o hábito de sair para jantar com mais dois casais de amigos, todas as sextas-feiras, faça chuva ou sol, seja a semana de posse de Barack Obama ou não.
Puta que o pariu, Penélope. Eu ganho mais que o Carlos Eduardo. Você é muito mais magra que a Regina. A perna da Fabiola parece um mapa rodoviário perto da sua, de tanta varize. E o Paulo Fabio tem um puta mau hálito. Não é justo que a gente seja sempre o ‘casal de frente’ e eles se regozijem toda noite sendo os ‘casais de lado’.
Acontece que Orlando e Penélope tem o hábito de chegar um pouco atrasados nestas ocasiões, devido à quantidade de fechaduras que devem ser trancadas ao saírem de casa (mania de Orlando), devido às sete trocas de calcinha (mania de Penélope), devido à procura da chave do carro (distração de Orlando), devido ao perfume exagerado e ao segundo banho depois de toda pronta (desajuste de Penélope), devido à desorientação espacial e aos erros dos caminhos (defeito de Orlando) e devido à verborragia que contribui imensamente para os erros dos caminhos (defeito de Penélope).
Sabe o que mais me incomoda em ser o casal da frente? Sabe? Aquele limbo entre o fim da sobremesa e o cafezinho, quando eles começam a se beijar e a dizer segredinhos ao pé do ouvido. A gente fica olhando um pra cara o outro, com uma mesa entre nós, sem ter nada para fazer. Não podemos olhar para um lado, ou eles podem achar que somos pervertidos e que estamos interessados em demasia em suas carícias privadas. Não podemos olhar para o outro ou os outros clientes podem pensar que nós não nos suportamos e que somos um casal sem assuntos. Aí ficamos olhando um pra cara do outro, eu morrendo de vontade de fumar um cigarro sem poder, porque Paulo Fabio é asmático, e você Penélope, você fica com aquele sorrisinho amarelo por fora, mas fazendo aquele lance da língua nos dentes que você tem mania de fazer quando está sem graça, que faz um barulhinho que parece grunhido de rato, bem baixinho, que ninguém ouve mas que para mim parece uma britadeira.
Orlando e Penélope, ao chegarem atrasados, acabam sentando-se um de frente para o outro, numa mesa em que os outros casais – Carlos Eduardo e Regina, Paulo Fabio e Fabiola – já se encontram devidamente acomodados um ao lado do outro.
A gente precisa convidar um quarto casal para jantar conosco. Oito pessoas. Assim ninguém vai precisar sentar de frente. Se bem que... Não, deixa como está. Eu quero ter o prazer de ver o bafudo do Paulo Fabio sentando de frente com a trama ferroviária daquela mulher dele. Vou fazer questão de enfiar a língua na sua orelha no momento cafezinho. Vou passar a noite toda dizendo segredinhos ao pé do seu ouvido. E eu vou ser o primeiro a receber a conta. Vou ter o imenso de prazer de dizer ao Carlos Eduardo “cada um paga o seu”, sem essa de rachar em três. Quero só ver a cara dele praquela balofa que come couvert, entrada, primo piatto, secondo piatto, sobremesa, sobremesa, sobremesa, dois cafés e licor digestivo com um copo de água com Eno no final. Aposto que é pra caber a ceia quando ela chega em casa. Há-Há.
Penélope ouvia tudo atentamente, fazendo o barulhinho de rato que lhe é tão característico.
Pára com essa porra de barulho! Que saco!
Penélope parou de fazer o barulho. E logo em seguida, abriu a boca para pedir o divórcio.
Divorciaram-se. Orlando, contudo, contratou uma garota de programa no dia seguinte, para acompanhá-lo no próximo jantar. Treinou-a como àqueles cavalos que dançam Cavalleria Rusticana. Fez que fez que, no fim, Dida estava conseguindo reproduzir fielmente o tique de Penélope, e até mesmo suas manias de sete calcinhas e de dois banhos. Porém, sendo uma profissional que era, estava pontualmente pronta para o grande evento.
Chegaram com duas horas de antecedência. Os garçons ainda fumavam seus cigarros do lado de fora do elegante restaurante.
Sentaram-se gloriosamente. Um ao lado do outro. Orlando não se conteve e sentiu uma certa contração perineal, como costumava sentir nas noites de sexo às quartas-feiras com Penélope. Ah, Penélope... Olhou no relógio.
Estranho, Dida. Estranho. Estão meia hora atrasados. Devem ter se perdido. Há! Babacas.
Quatro horas depois, Dida, já levemente pálida devido à hipoglicemia em seu sangue, solicitou educadamente que fossem embora e que passassem no Mc Donald´s para que ela comesse um lanche.
Orlando, indignado, cedeu.
Fascistas! Tradicionais! Devem ter descoberto meu divórcio. Esse tipo de gente não sai com divorciados! Filha-da-puta, aquela Penélope. Filha-da-puta!
Penélope, no restaurante da frente, jantava com seu ex-amante, futuro-marido, e brindava sua nova vida.
Os dois casais jantavam também, agora quatro pessoas sentadas lado-a-lado, como de costume, e comentavam sua decepção ao assistirem o discurso de Orlando - aquele em que ele os insultava energicamente - pelas câmeras ocultas que haviam mandando instalar em seu apartamento, cuja finalidade inicial era fetichista, mas que acabou rompendo uma linda amizade e uma grande tradição gastronômica de dois meses.
Ao sairem do restaurante, iriam para o clube de swing de sempre, do qual sempre excluiram Orlando e Penélope. Orlando pelo mau cheiro em suas axilas e Penélope pela tonalidade da tintura loira em seu cabelo, que consideravam demasiadamente vulgar.
Orlando e Penélope tem o hábito de sair para jantar com mais dois casais de amigos, todas as sextas-feiras, faça chuva ou sol, seja a semana de posse de Barack Obama ou não.
Puta que o pariu, Penélope. Eu ganho mais que o Carlos Eduardo. Você é muito mais magra que a Regina. A perna da Fabiola parece um mapa rodoviário perto da sua, de tanta varize. E o Paulo Fabio tem um puta mau hálito. Não é justo que a gente seja sempre o ‘casal de frente’ e eles se regozijem toda noite sendo os ‘casais de lado’.
Acontece que Orlando e Penélope tem o hábito de chegar um pouco atrasados nestas ocasiões, devido à quantidade de fechaduras que devem ser trancadas ao saírem de casa (mania de Orlando), devido às sete trocas de calcinha (mania de Penélope), devido à procura da chave do carro (distração de Orlando), devido ao perfume exagerado e ao segundo banho depois de toda pronta (desajuste de Penélope), devido à desorientação espacial e aos erros dos caminhos (defeito de Orlando) e devido à verborragia que contribui imensamente para os erros dos caminhos (defeito de Penélope).
Sabe o que mais me incomoda em ser o casal da frente? Sabe? Aquele limbo entre o fim da sobremesa e o cafezinho, quando eles começam a se beijar e a dizer segredinhos ao pé do ouvido. A gente fica olhando um pra cara o outro, com uma mesa entre nós, sem ter nada para fazer. Não podemos olhar para um lado, ou eles podem achar que somos pervertidos e que estamos interessados em demasia em suas carícias privadas. Não podemos olhar para o outro ou os outros clientes podem pensar que nós não nos suportamos e que somos um casal sem assuntos. Aí ficamos olhando um pra cara do outro, eu morrendo de vontade de fumar um cigarro sem poder, porque Paulo Fabio é asmático, e você Penélope, você fica com aquele sorrisinho amarelo por fora, mas fazendo aquele lance da língua nos dentes que você tem mania de fazer quando está sem graça, que faz um barulhinho que parece grunhido de rato, bem baixinho, que ninguém ouve mas que para mim parece uma britadeira.
Orlando e Penélope, ao chegarem atrasados, acabam sentando-se um de frente para o outro, numa mesa em que os outros casais – Carlos Eduardo e Regina, Paulo Fabio e Fabiola – já se encontram devidamente acomodados um ao lado do outro.
A gente precisa convidar um quarto casal para jantar conosco. Oito pessoas. Assim ninguém vai precisar sentar de frente. Se bem que... Não, deixa como está. Eu quero ter o prazer de ver o bafudo do Paulo Fabio sentando de frente com a trama ferroviária daquela mulher dele. Vou fazer questão de enfiar a língua na sua orelha no momento cafezinho. Vou passar a noite toda dizendo segredinhos ao pé do seu ouvido. E eu vou ser o primeiro a receber a conta. Vou ter o imenso de prazer de dizer ao Carlos Eduardo “cada um paga o seu”, sem essa de rachar em três. Quero só ver a cara dele praquela balofa que come couvert, entrada, primo piatto, secondo piatto, sobremesa, sobremesa, sobremesa, dois cafés e licor digestivo com um copo de água com Eno no final. Aposto que é pra caber a ceia quando ela chega em casa. Há-Há.
Penélope ouvia tudo atentamente, fazendo o barulhinho de rato que lhe é tão característico.
Pára com essa porra de barulho! Que saco!
Penélope parou de fazer o barulho. E logo em seguida, abriu a boca para pedir o divórcio.
Divorciaram-se. Orlando, contudo, contratou uma garota de programa no dia seguinte, para acompanhá-lo no próximo jantar. Treinou-a como àqueles cavalos que dançam Cavalleria Rusticana. Fez que fez que, no fim, Dida estava conseguindo reproduzir fielmente o tique de Penélope, e até mesmo suas manias de sete calcinhas e de dois banhos. Porém, sendo uma profissional que era, estava pontualmente pronta para o grande evento.
Chegaram com duas horas de antecedência. Os garçons ainda fumavam seus cigarros do lado de fora do elegante restaurante.
Sentaram-se gloriosamente. Um ao lado do outro. Orlando não se conteve e sentiu uma certa contração perineal, como costumava sentir nas noites de sexo às quartas-feiras com Penélope. Ah, Penélope... Olhou no relógio.
Estranho, Dida. Estranho. Estão meia hora atrasados. Devem ter se perdido. Há! Babacas.
Quatro horas depois, Dida, já levemente pálida devido à hipoglicemia em seu sangue, solicitou educadamente que fossem embora e que passassem no Mc Donald´s para que ela comesse um lanche.
Orlando, indignado, cedeu.
Fascistas! Tradicionais! Devem ter descoberto meu divórcio. Esse tipo de gente não sai com divorciados! Filha-da-puta, aquela Penélope. Filha-da-puta!
Penélope, no restaurante da frente, jantava com seu ex-amante, futuro-marido, e brindava sua nova vida.
Os dois casais jantavam também, agora quatro pessoas sentadas lado-a-lado, como de costume, e comentavam sua decepção ao assistirem o discurso de Orlando - aquele em que ele os insultava energicamente - pelas câmeras ocultas que haviam mandando instalar em seu apartamento, cuja finalidade inicial era fetichista, mas que acabou rompendo uma linda amizade e uma grande tradição gastronômica de dois meses.
Ao sairem do restaurante, iriam para o clube de swing de sempre, do qual sempre excluiram Orlando e Penélope. Orlando pelo mau cheiro em suas axilas e Penélope pela tonalidade da tintura loira em seu cabelo, que consideravam demasiadamente vulgar.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Óleo mancha.
Um pequeno pedaço de berinjela ao alho se desequilibrou como ela e caiu na roupa que havia sido trazida da Itália. Óleo mancha.
Ela se levantou bruscamente olhando nos olhos dos que não a acompanhavam naquele jantar. Tremia um pouco, o ar completamente preso em seus pulmões já por segundos significativos. Segurava um grito que não podia soltar, não queria; não sem ter quem a ouvisse. Olhou ao redor. A letra do samba que há pouco a transportava ao seu passado, agora a trazia eternamente ao desiludido presente. A foto do filho cuja voz não mais conhecia no porta-retrato. Vontade de passar a mão no telefone e falar com ele, mas já não sabia mais de cor, o telefone. Agora eram muitos números, e a incerteza de que ele seria o primeiro a atender. Talvez viesse a outra, com quem não poderia gritar como gostaria. A comida fresca brilhava no prato. Havia alguns grãos de cuscuz no chão. Na dúvida entre limpar ou deixar que lá amanhecessem, sentou-se novamente. A respiração agora era ofegante, e a lágrima latente esforçava-se para deixar o olho esquerdo. Não iria chorar. Não queria; não sem ter quem a visse. Bebe um gole do vinho rosado que agora lhe descia mais ácido que o vinagre em que se transformaria. Sente náuseas e a vontade de se regurgitar por inteiro. Puxa o ar, que se recusa a entrar. Tenta novamente. A guerra contra a lágrima mostra sinais de derrota. Respira mais uma vez, sem sucesso. A foto do filho. Os olhos dele, que não lembravam os dela. A mancha na roupa nova, que vestiu hoje pela primeira vez para jantar em sua própria companhia. A roupa que ninguém havia elogiado, porque ninguém havia visto. A garganta fechada, a pontada no peito, a náusea, a lágrima. O chão sujo sob seus pés recém feitos no salão. Óleo mancha. O maldito ar que não passa.
Levanta-se impetuosamente e com a faca ainda marcada pela comida por ela preparada, rompe a fronteira do pescoço para que o ar enfim entre e para que o grito saia. E assim se passa. Escorrem todos: a roupa manchada, a faca e a lágrima.
Ela se levantou bruscamente olhando nos olhos dos que não a acompanhavam naquele jantar. Tremia um pouco, o ar completamente preso em seus pulmões já por segundos significativos. Segurava um grito que não podia soltar, não queria; não sem ter quem a ouvisse. Olhou ao redor. A letra do samba que há pouco a transportava ao seu passado, agora a trazia eternamente ao desiludido presente. A foto do filho cuja voz não mais conhecia no porta-retrato. Vontade de passar a mão no telefone e falar com ele, mas já não sabia mais de cor, o telefone. Agora eram muitos números, e a incerteza de que ele seria o primeiro a atender. Talvez viesse a outra, com quem não poderia gritar como gostaria. A comida fresca brilhava no prato. Havia alguns grãos de cuscuz no chão. Na dúvida entre limpar ou deixar que lá amanhecessem, sentou-se novamente. A respiração agora era ofegante, e a lágrima latente esforçava-se para deixar o olho esquerdo. Não iria chorar. Não queria; não sem ter quem a visse. Bebe um gole do vinho rosado que agora lhe descia mais ácido que o vinagre em que se transformaria. Sente náuseas e a vontade de se regurgitar por inteiro. Puxa o ar, que se recusa a entrar. Tenta novamente. A guerra contra a lágrima mostra sinais de derrota. Respira mais uma vez, sem sucesso. A foto do filho. Os olhos dele, que não lembravam os dela. A mancha na roupa nova, que vestiu hoje pela primeira vez para jantar em sua própria companhia. A roupa que ninguém havia elogiado, porque ninguém havia visto. A garganta fechada, a pontada no peito, a náusea, a lágrima. O chão sujo sob seus pés recém feitos no salão. Óleo mancha. O maldito ar que não passa.
Levanta-se impetuosamente e com a faca ainda marcada pela comida por ela preparada, rompe a fronteira do pescoço para que o ar enfim entre e para que o grito saia. E assim se passa. Escorrem todos: a roupa manchada, a faca e a lágrima.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Vamo Q Vamo
Inaugurada, então, a temporada 2009.
Um ano que começou realmente promovendo e sendo promovido, o que é o mais importante.
Interessante como este período pós-inter-férias-pré-carnaval aponta algumas vertentes que serão seguidas durante o ano que correrá. Muitas delas nos mesmos moldes do ano passado, algumas nos moldes de todos os anteriores, e poucas, porém importantíssimas, em moldes completamente novos.
Sinto algo engraçado, como começo de nova temporada de seriado americano. Posso explicar, eu acho. Alguns conflitos são permanentes, seguem sua rota rumo às resoluções que não mostram nem sinal de vida. Outros conflitos, mais recentes, que começaram na segunda metade da temporada passada, ou algo assim, já estão perto de seus ápices, ou passando por eles, ou saindo da tempestade. Novidades pipocam freneticamente na vida de todos. E mais uma temporada se inicia. Deu pra entender a sensação? É que não sou exatamente um Às dos seriados, mas de dramaturgia entendo um pouquinho, então... Enfim, isso é bobagem!
Comecei bem, legal, bacana, tô gostando. Que fique assim ou melhore!
Amigos que sofriam com óculos já enxergam. Temporada da caxumba aniquilada. Amigos que continuam em busca de seus amores. Amores que buscam seus próprios caminhos agindo bravamente. Situações familiares permanecendo. Noticias boas. Noticias ruins. Trabalhos animados. Cursos e leituras revigorantes. Complexos mais tênues, outros mais aguçados do que nunca. Neuroses novas, neuroses surpreendentemente superadas. Planos e planos e planos. Festas, eventos e casa! E vamo que vamo!
2009, o ano que promove, saindo na dianteira!
Um ano que começou realmente promovendo e sendo promovido, o que é o mais importante.
Interessante como este período pós-inter-férias-pré-carnaval aponta algumas vertentes que serão seguidas durante o ano que correrá. Muitas delas nos mesmos moldes do ano passado, algumas nos moldes de todos os anteriores, e poucas, porém importantíssimas, em moldes completamente novos.
Sinto algo engraçado, como começo de nova temporada de seriado americano. Posso explicar, eu acho. Alguns conflitos são permanentes, seguem sua rota rumo às resoluções que não mostram nem sinal de vida. Outros conflitos, mais recentes, que começaram na segunda metade da temporada passada, ou algo assim, já estão perto de seus ápices, ou passando por eles, ou saindo da tempestade. Novidades pipocam freneticamente na vida de todos. E mais uma temporada se inicia. Deu pra entender a sensação? É que não sou exatamente um Às dos seriados, mas de dramaturgia entendo um pouquinho, então... Enfim, isso é bobagem!
Comecei bem, legal, bacana, tô gostando. Que fique assim ou melhore!
Amigos que sofriam com óculos já enxergam. Temporada da caxumba aniquilada. Amigos que continuam em busca de seus amores. Amores que buscam seus próprios caminhos agindo bravamente. Situações familiares permanecendo. Noticias boas. Noticias ruins. Trabalhos animados. Cursos e leituras revigorantes. Complexos mais tênues, outros mais aguçados do que nunca. Neuroses novas, neuroses surpreendentemente superadas. Planos e planos e planos. Festas, eventos e casa! E vamo que vamo!
2009, o ano que promove, saindo na dianteira!
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
O Corte
Quase... Tudo está quase pronto para o final, para o rompimento do cordão, para o corte da fita do novo.
E não são isso as festas de Natal e Ano Novo? Uma celebração ao novo, ao nascimento, à vida?
Os presentes que damos às crianças, aos inícios. Os presentes que recebemos pelo nosso renascimento. Os brindes que fazemos aos desejos e ao destino. O branco, o puro, a festa, o pueril. Os loucos que em nós jazem e que retornam às superfícies para reiniciar suas jornadas.
Ah, preguiça de recomeçar, que nada! Ânimo! A alma bombando, cheia de planos e vontades, pronta para agir e repleta de expectativas de ação, não de espera. Assim deveria ser em plenitude, mas é quase. Uma preguicinha humana sempre resta lá no fundo. Mas precisamos dela também, para dormirmos aconchegados.
E neste querido blog, onde criei e desabafei boa parte de minha existência no ano que passou; neste querido blog, que também comemorou seu 1 ano de vida, virtual, mas que não poderia ser mais real; neste querido blog, registro esta última postagem, como um grandíssimo agradecimento à vida, à arte e às oportunidades que recebi nos últimos 525.600 minutos de minha ainda pequenina existência.
E assim:
Por tudo que estremeci
Por tudo que amei
Por tudo que sonhei
Por tudo que pensei
Por tudo que criei
Por tudo que chorei
Por tudo que deixei
Por tudo que ensinei
Por tudo que ganhei
Por tudo que mudei
Por tudo que morei
Por tudo que comprei
Por tudo que respirei
Por tudo que viajei
Por tudo que dei
Por tudo que andei
Por tudo que beijei
Por tudo que abracei
Por tudo que conquistei
Por tudo que arrepiei
Por tudo que dancei
Por tudo que vi
Por tudo que ouvi
Por tudo que li
Por tudo que ri
Por tudo que cresci
Por tudo que escrevi
Por tudo que perdi
Por tudo que bebi
Por tudo que recebi
Por tudo que corri
Por tudo que aprendi
Por tudo que comi
Por tudo que dormi
Por tudo que vivi
Por tudo que senti em 2008
Por tudo que sinto hoje
Por tudo que sentirei em 2009
MUITO OBRIGADO!
FELIZ NATAL E UM ESPETACULAR ANO NOVO A TODOS NÓS!
E não são isso as festas de Natal e Ano Novo? Uma celebração ao novo, ao nascimento, à vida?
Os presentes que damos às crianças, aos inícios. Os presentes que recebemos pelo nosso renascimento. Os brindes que fazemos aos desejos e ao destino. O branco, o puro, a festa, o pueril. Os loucos que em nós jazem e que retornam às superfícies para reiniciar suas jornadas.
Ah, preguiça de recomeçar, que nada! Ânimo! A alma bombando, cheia de planos e vontades, pronta para agir e repleta de expectativas de ação, não de espera. Assim deveria ser em plenitude, mas é quase. Uma preguicinha humana sempre resta lá no fundo. Mas precisamos dela também, para dormirmos aconchegados.
E neste querido blog, onde criei e desabafei boa parte de minha existência no ano que passou; neste querido blog, que também comemorou seu 1 ano de vida, virtual, mas que não poderia ser mais real; neste querido blog, registro esta última postagem, como um grandíssimo agradecimento à vida, à arte e às oportunidades que recebi nos últimos 525.600 minutos de minha ainda pequenina existência.
E assim:
Por tudo que estremeci
Por tudo que amei
Por tudo que sonhei
Por tudo que pensei
Por tudo que criei
Por tudo que chorei
Por tudo que deixei
Por tudo que ensinei
Por tudo que ganhei
Por tudo que mudei
Por tudo que morei
Por tudo que comprei
Por tudo que respirei
Por tudo que viajei
Por tudo que dei
Por tudo que andei
Por tudo que beijei
Por tudo que abracei
Por tudo que conquistei
Por tudo que arrepiei
Por tudo que dancei
Por tudo que vi
Por tudo que ouvi
Por tudo que li
Por tudo que ri
Por tudo que cresci
Por tudo que escrevi
Por tudo que perdi
Por tudo que bebi
Por tudo que recebi
Por tudo que corri
Por tudo que aprendi
Por tudo que comi
Por tudo que dormi
Por tudo que vivi
Por tudo que senti em 2008
Por tudo que sinto hoje
Por tudo que sentirei em 2009
MUITO OBRIGADO!
FELIZ NATAL E UM ESPETACULAR ANO NOVO A TODOS NÓS!
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Escrita Proscrita!
Onde foi parar minha escrita?
Em que ralo, em que tela, em que espaço?
De onde vem a confusão de idéias e a pobreza estética? E a ética?
Por quê o medo da brancura? Será excesso de censura?
Pra quê as rimas não rimadas e as não-rimas tão rimadas?
O que fazer com o que tenho em mim quando eu mesmo não tenho idéia do que tenho em mim? Por tudo que sinto, muitas vezes, acontece. Por tanto que sinto, nunca. Acontece... Acho que acontece... E espero que passe. Que suma esse tanto quantitativo! Que dê espaço ao tudo qualitativo. Que passe a escola. Que alguém reboque o carro quebrado! Que a dispersão flua tanto, ou mais, que a concentração!
E, por favor, que a bateria toque mais alto! E menos quadrada, mais sincopada! E que erre mais vezes. E que o erro se perca em meio a tamborins furados, bumbos rachados e cuícas desajustadas...
Que venha logo o novo ano!
Em que ralo, em que tela, em que espaço?
De onde vem a confusão de idéias e a pobreza estética? E a ética?
Por quê o medo da brancura? Será excesso de censura?
Pra quê as rimas não rimadas e as não-rimas tão rimadas?
O que fazer com o que tenho em mim quando eu mesmo não tenho idéia do que tenho em mim? Por tudo que sinto, muitas vezes, acontece. Por tanto que sinto, nunca. Acontece... Acho que acontece... E espero que passe. Que suma esse tanto quantitativo! Que dê espaço ao tudo qualitativo. Que passe a escola. Que alguém reboque o carro quebrado! Que a dispersão flua tanto, ou mais, que a concentração!
E, por favor, que a bateria toque mais alto! E menos quadrada, mais sincopada! E que erre mais vezes. E que o erro se perca em meio a tamborins furados, bumbos rachados e cuícas desajustadas...
Que venha logo o novo ano!
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Foi bom pra você?
Antes, sempre duvido.
Durante, sempre questiono.
Depois, sempre descubro o porquê de tanto suor, tanta rouquidão, tanta taquicardia, tanta dor, tantas noites em claro, tantos neurônios ativos, tantas lágrimas e tanto riso.
Dirigir é minha paixão absoluta, disso sei há tempos! Atuar é um prazer meio mágico, um opióide viciante que deve ser usado com moderação! Agora, ensinar é um trabalho que une as duas coisas e é tão árduo que, como todos os outros assim, acaba se sublimando em arrepios no final do processo.
Poder vivenciar a transformação de rostos, de corpos, de almas, o crescimento de seres, a humanização de homens e a alegria da conquista do outro é uma dádiva, um privilégio. E depois, receber o carinho, as mensagens de agradecimento, os pedidos de mais, e comprovar que, de uma forma ou de outra, pudemos contribuir para a formação e para a realização das pessoas, é inspirador! Neste momento, esquecemos as burocracias, as politicagens, as tradicionalices, os berecreteques, e presos ao chão e aos olhares à nossa volta, sentimo-nos uma pequena parte de cada um, e cada um uma pequena parte de nós.
Poder ouvir coisas como "me ajudou a me encontrar", "despertou minha paixão pelo palco", "fez-me sentir vivo", "larguei minhas cartelas de anti-depressivos", "me fez repensar minha vida", "me ajudou a rever meus valores", "me ajudou a quebrar meus limites", e muitos dos especialíssimos "aprendi muito com você!", faz-me abrir um sorriso imenso no meio do peito!
Ao meu Deus, peço que eu possa preencher cada canto dos palcos do mundo com artistas tão apaixonados pela arte quanto eu, ou talvez, ainda mais!
Durante, sempre questiono.
Depois, sempre descubro o porquê de tanto suor, tanta rouquidão, tanta taquicardia, tanta dor, tantas noites em claro, tantos neurônios ativos, tantas lágrimas e tanto riso.
Dirigir é minha paixão absoluta, disso sei há tempos! Atuar é um prazer meio mágico, um opióide viciante que deve ser usado com moderação! Agora, ensinar é um trabalho que une as duas coisas e é tão árduo que, como todos os outros assim, acaba se sublimando em arrepios no final do processo.
Poder vivenciar a transformação de rostos, de corpos, de almas, o crescimento de seres, a humanização de homens e a alegria da conquista do outro é uma dádiva, um privilégio. E depois, receber o carinho, as mensagens de agradecimento, os pedidos de mais, e comprovar que, de uma forma ou de outra, pudemos contribuir para a formação e para a realização das pessoas, é inspirador! Neste momento, esquecemos as burocracias, as politicagens, as tradicionalices, os berecreteques, e presos ao chão e aos olhares à nossa volta, sentimo-nos uma pequena parte de cada um, e cada um uma pequena parte de nós.
Poder ouvir coisas como "me ajudou a me encontrar", "despertou minha paixão pelo palco", "fez-me sentir vivo", "larguei minhas cartelas de anti-depressivos", "me fez repensar minha vida", "me ajudou a rever meus valores", "me ajudou a quebrar meus limites", e muitos dos especialíssimos "aprendi muito com você!", faz-me abrir um sorriso imenso no meio do peito!
Ao meu Deus, peço que eu possa preencher cada canto dos palcos do mundo com artistas tão apaixonados pela arte quanto eu, ou talvez, ainda mais!
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Chegou!
Sim, fizemos tudo como manda o protocolo.
Primeiro um jantarzinho, depois um cigarrinho e começamos. Luz baixa, precisava da música certa. Pus pra tocar. As gringas são ótimas, são as melhores nesta época. E são lindas.
Prega de cá, amarra o nylon de lá, estica, desembaraça, sopra pra encher. Desamassa, entrelaça, ilumina. Abre o invólucro, tira de dentro, observa, depois pendura. Sobe na cadeira, chega no ápice, distribui, olha nos olhos, e a música tocando, o disco repetindo a terceira passada.
Lá fora, era como se a neve estivesse caindo. Aqui dentro, como se tivéssemos uma lareira ardendo. E mais aqui dentro ainda, era como se fossemos crianças novamente.
Essa é a parte que eu gosto desta festa. É a parte que não acho triste. Lembrei de minha mãe com seu perfeccionismo, lembrei da espera pela abertura dos presentes. Agora as rédeas estavam comigo. Agora eu mesmo me proporcionava. Agora era ativo, não passivo.
E pra lá da meia noite, com as costas doendo, a música se esvai, e o último cigarro da noite é desfrutado junto à admiração pelo resultado do trabalho. Ficou lindo.
O Natal chegou à minha casa. Guirlanda na porta, apagar as luzes que agora são muitas, e dormir com um sorriso de amor e leveza nos lábios. Boa noite e Feliz Natal.
Primeiro um jantarzinho, depois um cigarrinho e começamos. Luz baixa, precisava da música certa. Pus pra tocar. As gringas são ótimas, são as melhores nesta época. E são lindas.
Prega de cá, amarra o nylon de lá, estica, desembaraça, sopra pra encher. Desamassa, entrelaça, ilumina. Abre o invólucro, tira de dentro, observa, depois pendura. Sobe na cadeira, chega no ápice, distribui, olha nos olhos, e a música tocando, o disco repetindo a terceira passada.
Lá fora, era como se a neve estivesse caindo. Aqui dentro, como se tivéssemos uma lareira ardendo. E mais aqui dentro ainda, era como se fossemos crianças novamente.
Essa é a parte que eu gosto desta festa. É a parte que não acho triste. Lembrei de minha mãe com seu perfeccionismo, lembrei da espera pela abertura dos presentes. Agora as rédeas estavam comigo. Agora eu mesmo me proporcionava. Agora era ativo, não passivo.
E pra lá da meia noite, com as costas doendo, a música se esvai, e o último cigarro da noite é desfrutado junto à admiração pelo resultado do trabalho. Ficou lindo.
O Natal chegou à minha casa. Guirlanda na porta, apagar as luzes que agora são muitas, e dormir com um sorriso de amor e leveza nos lábios. Boa noite e Feliz Natal.
Por trás
Por trás da soberania, da cadeira de veludo que lhe protegia as costas, o que restou no fim? Será tarde demais para encarar a insegurança por trás da fortaleza? Encarar a tristeza e a decepção por trás do sorriso bege? O destino por trás do controle?
O corpo enfraqueceu e lhe sobra a alma. Alma vivida em quantidade, mas pueril em qualidade. O medo. Os questionamentos. A condição de lidar com o próprio travesseiro, no quarto frio e escuro que repele o sono, e procurar os erros embaraçados na rede da solidão.
Afinal, de que adiantou a postura fixa em altivez e inumanidade, se os ombros agora desejam cair e a vergonha os impede? De que serviram tantas provações se agora o público se foi e não pode mais aplaudir?
Mas os enganos continuam vivos. A mente ainda prega as mesmas peças a fim de aliviar o espírito despreparado. O mundo ainda está fechado pelos muros do castelo de areia. Provavelmente terminará assim sua jornada. Da mesma forma que a começou. Mantendo a burrice do não-sorriso e os equívocos dos valores inúteis. Pobre do que se fez rico mas manteve os olhos cerrados diante dos milagres da vida e das reais virtudes da alma. Pobre de quem tanto suou no palco e não tem quem o aplauda, nem si mesmo.
O corpo enfraqueceu e lhe sobra a alma. Alma vivida em quantidade, mas pueril em qualidade. O medo. Os questionamentos. A condição de lidar com o próprio travesseiro, no quarto frio e escuro que repele o sono, e procurar os erros embaraçados na rede da solidão.
Afinal, de que adiantou a postura fixa em altivez e inumanidade, se os ombros agora desejam cair e a vergonha os impede? De que serviram tantas provações se agora o público se foi e não pode mais aplaudir?
Mas os enganos continuam vivos. A mente ainda prega as mesmas peças a fim de aliviar o espírito despreparado. O mundo ainda está fechado pelos muros do castelo de areia. Provavelmente terminará assim sua jornada. Da mesma forma que a começou. Mantendo a burrice do não-sorriso e os equívocos dos valores inúteis. Pobre do que se fez rico mas manteve os olhos cerrados diante dos milagres da vida e das reais virtudes da alma. Pobre de quem tanto suou no palco e não tem quem o aplauda, nem si mesmo.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Joseph. Meu nome de golfinho é Joseph.
Queria estar escrevendo mais. Me culpo diariamente por isso. Mas ando muito ocupado ultimamente. Tenho sido golfinho em toda e qualquer hora vaga. Explico.
Descobri um jogo de Internet, desses boquetinhas, em que não se ganha ou se perde, em que se é um golfinho que nada pelos mares afora, salta, chega em Marte, faz acrobacias e coisas assim. Existe a opção “Nado Livre”, sem tempo para esgotar, e isso me pegou em cheio. Bateu direto no meu arquétipo “Fernão Capelo Gaivota”, sabe? Esse voar o mais alto possível, essa liberdade incondicional, esse não pensar em nada... Meu Deus, estou viciado nessa porcaria! Cérebro direito dominando o pedaço. E assim, emburrecido por ser golfinho, não leio, não escrevo, não penso, mas entendo melhor essa geração de gamers e internautas maníacos, em busca do princípio do prazer a todo momento.
E assim estou ultimamente, a quem se interessar em saber: dirigindo peça ali, cantando acolá, enlouquecendo por aqui, já pensando na retrospectiva 2008, já fazendo resoluções para 2009, planejando praia e sol, preparando festas e shows de final de ano, sonhando ouriços, querendo natalinizar minha casa, buscando espaço de trabalho, roteirinizando idéias, morrendo em Veneza, preenchendo formulários, me estruturando para “eu vou estar sendo doutorando”, guiando cheiro de novo, ligando pelo botão, amando, e sendo golfinho!
Pelo menos me sinto um ser humano mais simpático quando sou golfinho...
Descobri um jogo de Internet, desses boquetinhas, em que não se ganha ou se perde, em que se é um golfinho que nada pelos mares afora, salta, chega em Marte, faz acrobacias e coisas assim. Existe a opção “Nado Livre”, sem tempo para esgotar, e isso me pegou em cheio. Bateu direto no meu arquétipo “Fernão Capelo Gaivota”, sabe? Esse voar o mais alto possível, essa liberdade incondicional, esse não pensar em nada... Meu Deus, estou viciado nessa porcaria! Cérebro direito dominando o pedaço. E assim, emburrecido por ser golfinho, não leio, não escrevo, não penso, mas entendo melhor essa geração de gamers e internautas maníacos, em busca do princípio do prazer a todo momento.
E assim estou ultimamente, a quem se interessar em saber: dirigindo peça ali, cantando acolá, enlouquecendo por aqui, já pensando na retrospectiva 2008, já fazendo resoluções para 2009, planejando praia e sol, preparando festas e shows de final de ano, sonhando ouriços, querendo natalinizar minha casa, buscando espaço de trabalho, roteirinizando idéias, morrendo em Veneza, preenchendo formulários, me estruturando para “eu vou estar sendo doutorando”, guiando cheiro de novo, ligando pelo botão, amando, e sendo golfinho!
Pelo menos me sinto um ser humano mais simpático quando sou golfinho...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Martin Page, cadê você?
Estou pirando!
Não quero mais tantas possibilidades! Por que essa mania de querer transformar samba em tango, tango em salsa e salsa em samba? Por que não deixo como está? Samba é samba, cacete!
Não quero acabar sendo vendedor de idéias em doze sem juros! Quero executá-las, mas elas não me deixam em paz, essas mutantes vampiras que me enlouquecem e invadem meus sonhos.
Já pensei em um mural de projetos, de histórias que quero contar e de artes que quero criar. Mas só iria piorar. Minha casa não teria paredes suficientes. E esse blog que olha para minha cara amassada todas as manhãs e me cobra feito fiscal da receita. Tem dias que não sei o que escrever, porra! Tem dias que não consigo escolher!
“Ah, que pão você ficou com esse enxerto de pele de pinto no queixo peludo!”
Pronto, vou aliviando... Esses amigos tão inspirados só pioram esse estado criativo! Preciso de mais amigos cartesianos, de preferência burocratas de pele azul clara e óculos fundo-de-garrafa, e virgens!
Martin Page, onde está você quando eu preciso. Trolha incopetente!
Não quero mais tantas possibilidades! Por que essa mania de querer transformar samba em tango, tango em salsa e salsa em samba? Por que não deixo como está? Samba é samba, cacete!
Não quero acabar sendo vendedor de idéias em doze sem juros! Quero executá-las, mas elas não me deixam em paz, essas mutantes vampiras que me enlouquecem e invadem meus sonhos.
Já pensei em um mural de projetos, de histórias que quero contar e de artes que quero criar. Mas só iria piorar. Minha casa não teria paredes suficientes. E esse blog que olha para minha cara amassada todas as manhãs e me cobra feito fiscal da receita. Tem dias que não sei o que escrever, porra! Tem dias que não consigo escolher!
“Ah, que pão você ficou com esse enxerto de pele de pinto no queixo peludo!”
Pronto, vou aliviando... Esses amigos tão inspirados só pioram esse estado criativo! Preciso de mais amigos cartesianos, de preferência burocratas de pele azul clara e óculos fundo-de-garrafa, e virgens!
Martin Page, onde está você quando eu preciso. Trolha incopetente!
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Culpado
Qual é sua culpa?
Ver a criança enferma e ter doado seus genes?
Ver o dinheiro esquecido e transformar-se em dono?
Ver seu amado traído e beijar-lhe a face?
Usar as idéias alheias e sentir-se próprio?
Dormir aos olhos de um velho e não ceder-lhe o assento?
Ver um preto na rua e tremer de medo?
Atrasar a pressa do outro para sanar a sua?
Fingir ser alguém para uns e ninguém para outros?
Matar alguém da família por horas de sono?
Guardar o que pensa pra ti e falar pelos becos?
Roubar as vitórias alheias profanando seus feitos?
Acordar enganando sua mente e estragando ser corpo?
Amar desejando somente recompensas egóicas?
Omitir cortesias verbais em olhares insossos?
Sofrer em vão a preguiça de colocar em ação?
Olhar no espelho e não poder encarar seus olhos?
Culpar o destino pela culpa da culpa que sente?
Ver a criança enferma e ter doado seus genes?
Ver o dinheiro esquecido e transformar-se em dono?
Ver seu amado traído e beijar-lhe a face?
Usar as idéias alheias e sentir-se próprio?
Dormir aos olhos de um velho e não ceder-lhe o assento?
Ver um preto na rua e tremer de medo?
Atrasar a pressa do outro para sanar a sua?
Fingir ser alguém para uns e ninguém para outros?
Matar alguém da família por horas de sono?
Guardar o que pensa pra ti e falar pelos becos?
Roubar as vitórias alheias profanando seus feitos?
Acordar enganando sua mente e estragando ser corpo?
Amar desejando somente recompensas egóicas?
Omitir cortesias verbais em olhares insossos?
Sofrer em vão a preguiça de colocar em ação?
Olhar no espelho e não poder encarar seus olhos?
Culpar o destino pela culpa da culpa que sente?
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Calçadas e Descalças
Há sempre aquele dia em que vestimos a calça errada ao acordar, calça que pode ser maior ou menor do que nosso tamanho.
Quando menor, os movimentos são difíceis e apertados, rígidos e sofridos, espremidos e dolorosos. E passamos o dia meio castrados, meio grudados, meio que querendo se livrar do suor pegajoso que nos prega em nós mesmos.
Quando maior, os movimentos são desengonçados, as pernas se esparramam pelos sapatos, se arrastam pelo chão, se sujam de lodo e sentimos a insegurança da exposição pública das partes mais íntimas. E passamos o dia tentando nos colocar no lugar, meio que querendo nos prender a nós mesmos, meio afrouxados, disritmados e ridículos.
Nem tanto a terra, nem tanto o céu.
Quem dera pudéssemos voar à vontade todos os dias, sabendo que estamos bem presos em nossas raízes, e bem soltos em nossos sonhos.
Quando menor, os movimentos são difíceis e apertados, rígidos e sofridos, espremidos e dolorosos. E passamos o dia meio castrados, meio grudados, meio que querendo se livrar do suor pegajoso que nos prega em nós mesmos.
Quando maior, os movimentos são desengonçados, as pernas se esparramam pelos sapatos, se arrastam pelo chão, se sujam de lodo e sentimos a insegurança da exposição pública das partes mais íntimas. E passamos o dia tentando nos colocar no lugar, meio que querendo nos prender a nós mesmos, meio afrouxados, disritmados e ridículos.
Nem tanto a terra, nem tanto o céu.
Quem dera pudéssemos voar à vontade todos os dias, sabendo que estamos bem presos em nossas raízes, e bem soltos em nossos sonhos.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Avô, desse jeito... Jamais!
Dizem que o primeiro beijo a gente nunca esquece. Assim como a primeira transa, o primeiro sutien, etc.
Eu jamais me esquecerei do meu primeiro pudim!
Quem me conhece sabe que sou louco por elucubrações gastronômicas, adoro cozinhar e inventar odores e sabores. Mas meu primeiro pudim... Incrível! Um simples pudim, de leite condensado, sabe? Esses, que as avós fazem como ninguém. Pois é... O meu...
Acho que vale ser a primeira foto que eu posto, já que texto algum irá exprimir com exatidão esta proeza.
Eu jamais me esquecerei do meu primeiro pudim!
Quem me conhece sabe que sou louco por elucubrações gastronômicas, adoro cozinhar e inventar odores e sabores. Mas meu primeiro pudim... Incrível! Um simples pudim, de leite condensado, sabe? Esses, que as avós fazem como ninguém. Pois é... O meu...
Acho que vale ser a primeira foto que eu posto, já que texto algum irá exprimir com exatidão esta proeza.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Pra quê?
E a pergunta do dia é:
Pra quê uma dona de casa, casada e com filhos, continua querendo brincar de casinha de bonecas?
Pra quê uma dona de casa, casada e com filhos, continua querendo brincar de casinha de bonecas?
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Shhh...
Cuidado... Chegue de mansinho, percebendo se o que é para ser está sendo. Ou se o que está sendo transborda o que deveria ser.
São tão tênues nossos limites, quase invisíveis linhas, que constantemente rompemos as fronteiras e cruzamos para terras aonde não fomos convidados.Assim, que a amizade permaneça nos limites da amizade. Que o namoro permaneça nos limites do namoro. E assim vale para o sexo casual, para as relações familiares, para as parcerias profissionais, para as conversas diante do espelho e para qualquer tipologia de encontro possível entre dois ou mais seres.
São tão tênues nossos limites, quase invisíveis linhas, que constantemente rompemos as fronteiras e cruzamos para terras aonde não fomos convidados.Assim, que a amizade permaneça nos limites da amizade. Que o namoro permaneça nos limites do namoro. E assim vale para o sexo casual, para as relações familiares, para as parcerias profissionais, para as conversas diante do espelho e para qualquer tipologia de encontro possível entre dois ou mais seres.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
O que vai ser, senhor? Um coma induzido, por favor.
Tantas vezes me perco na minha própria ansiedade de comprometimento, me afogo nos meu próprios mergulhos, perco o sono com minha seriedade, que gostaria muito de conseguir ser mais relaxado, fazer as coisas por fazer, sem necessidade de ser bem sucedido. Fazer qualquer merda e achar que está bom! Isso é o mais importante: conseguir achar que a mediocridade está ótima!
Eu realmente me jogo em tudo o que faço, em cada idéia que tenho, e transformo incansavelmente todas elas até não agüentar mais essa busca pelo meu conceito de perfeição, que é só quando consigo abandonar. Me incomodo com o comodismo que não tenho em mim.
Dizem por aí que isso é bom. É bom? É bom pra quem vê de fora e aplaude. Vem cá pra dentro, vem. Às vezes tenho a impressão que meu fim será uma explosão. Vou explodir feito balão que não suporta mais o ar jogado pra dentro. E essa explosão poderá vir de diversas formas, a saber: um breve surto psicótico, um pequeno Alzheimer ou, quem sabe, um coma induzido.
Tá aí! Alguém poderia, por favor, me providenciar um coma induzido?
Eu realmente me jogo em tudo o que faço, em cada idéia que tenho, e transformo incansavelmente todas elas até não agüentar mais essa busca pelo meu conceito de perfeição, que é só quando consigo abandonar. Me incomodo com o comodismo que não tenho em mim.
Dizem por aí que isso é bom. É bom? É bom pra quem vê de fora e aplaude. Vem cá pra dentro, vem. Às vezes tenho a impressão que meu fim será uma explosão. Vou explodir feito balão que não suporta mais o ar jogado pra dentro. E essa explosão poderá vir de diversas formas, a saber: um breve surto psicótico, um pequeno Alzheimer ou, quem sabe, um coma induzido.
Tá aí! Alguém poderia, por favor, me providenciar um coma induzido?
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Solutio
Caia!
Me lave e me recrie!
Dissolva minhas certezas
Refresque minha mente
Batize as impurezas
Molhe!
Hipnotize meus ouvidos
Pingue novas melodias
Batuque com cuidado
Enxurre as agonias
Embale!
Faça lama a terra dura
Faça música os meus sonhos
Alie-se à preguiça
Seja lágrima dos tristonhos
Chove!
Quebre o corpo em calafrios
Ensope o mundo em caldo d´alma
Afogue o pó que o tempo junta
E devagar
Cesse sem trauma!
Me lave e me recrie!
Dissolva minhas certezas
Refresque minha mente
Batize as impurezas
Molhe!
Hipnotize meus ouvidos
Pingue novas melodias
Batuque com cuidado
Enxurre as agonias
Embale!
Faça lama a terra dura
Faça música os meus sonhos
Alie-se à preguiça
Seja lágrima dos tristonhos
Chove!
Quebre o corpo em calafrios
Ensope o mundo em caldo d´alma
Afogue o pó que o tempo junta
E devagar
Cesse sem trauma!
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Espelho, espelho meu!
As pessoas, atualmente, tentam escolher seus amores. Atenção: não escolher amar, mas escolher seus amores. E escolhem como quem procura a fruta perfeita numa quitanda, ou o doce mais apetitoso nas prateleiras dos supermercados. As pessoas estão tão habituadas a terem opções, a poderem comprar o que desejam e quando desejam, que trocam de caso como quem troca de roupa. E assim, aos poucos, têm cada vez menos chance de amar; de amar de verdade, não de achar que amam. Porque elas olham para si mais do que para o mundo. E nos parceiros que encontram, procuram por elas mesmas, e não a verdade do outro. E o mundo cada vez mais cheio, e as pessoas cada vez mais solitárias. Quanto maior a oferta, maior a exigência da perfeição. E a perfeição é, ora uma cópia daquele que narcisicamente busca a si mesmo, ora o ideal de si mesmo projetado naquele que é buscado.
E neste ritmo, as pessoas se isolam em si mesmas e nos seus “quase iguais”. O objetivo não é descobrir o novo mundo por trás de outra pessoa, mas sim moldar a outra pessoa ao que melhor se adequa a seus próprios mundos. Assim, podendo encontrar alguém quase pronto, melhor; dá menos trabalho. Eu mesmo pensava assim. Não só pensava, eu dizia; brincando, mas dizia: eu quero me namorar, quero achar alguém igual a mim. Brincava com o ideal dos leoninos, mas dizia. Que sorte! Que sorte não ter me encontrado desta forma.
E de pretensão em pretensão, de defesa em defesa, de boicote em boicote, as pessoas lá estão, se masturbando pensando em si mesmas, achando que o mundo é seu mundo, com medo do que desconhecem, julgando a torto e a direito, emburrecendo homeopaticamente, vazias, vazias, vazias, e procurando, procurando, procurando por elas mesmas, no lugar errado.
Olhando por este prisma, faz muito mais sentido a existência de tanta gente que gira seu mundo ao redor do ‘encontrar alguém‘, não faz?
E neste ritmo, as pessoas se isolam em si mesmas e nos seus “quase iguais”. O objetivo não é descobrir o novo mundo por trás de outra pessoa, mas sim moldar a outra pessoa ao que melhor se adequa a seus próprios mundos. Assim, podendo encontrar alguém quase pronto, melhor; dá menos trabalho. Eu mesmo pensava assim. Não só pensava, eu dizia; brincando, mas dizia: eu quero me namorar, quero achar alguém igual a mim. Brincava com o ideal dos leoninos, mas dizia. Que sorte! Que sorte não ter me encontrado desta forma.
E de pretensão em pretensão, de defesa em defesa, de boicote em boicote, as pessoas lá estão, se masturbando pensando em si mesmas, achando que o mundo é seu mundo, com medo do que desconhecem, julgando a torto e a direito, emburrecendo homeopaticamente, vazias, vazias, vazias, e procurando, procurando, procurando por elas mesmas, no lugar errado.
Olhando por este prisma, faz muito mais sentido a existência de tanta gente que gira seu mundo ao redor do ‘encontrar alguém‘, não faz?
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
De novo, Inverno
Depois de chuvas e verões diversos, elas finalmente se separam. Elas que se viam uma na outra. Elas que juntas se fizeram.
E seguem em lados paralelos, que se ziguezagueiam vez em quando. Elas que se amavam na outra. Elas que juntas se desfizeram.
E quando em seus quartos, agora separados, se maquiam e se vestem, tomam cuidado com a cor do batom, e escolhem o vestido pensando no tom. Porque a outra está lá fora, em algum lugar, e os gostos são os mesmos, e as roupas são as mesmas.
E quando em seus espelhos, agora separados, se penteiam e se mascaram, tomam cuidado com a forma dos cabelos, e são pensativas ao cobrir os olhos. Porque a outra lá fora pode não estar, e os gostos são outros, e as roupas são feias.
E seguem nas oitavas dos cantos, desafinando vez em quando. Elas que agora se arrependem, de não ter aproveitado a chance que tiveram, de reaprender anualmente a se habituar com o inverno.
E seguem em lados paralelos, que se ziguezagueiam vez em quando. Elas que se amavam na outra. Elas que juntas se desfizeram.
E quando em seus quartos, agora separados, se maquiam e se vestem, tomam cuidado com a cor do batom, e escolhem o vestido pensando no tom. Porque a outra está lá fora, em algum lugar, e os gostos são os mesmos, e as roupas são as mesmas.
E quando em seus espelhos, agora separados, se penteiam e se mascaram, tomam cuidado com a forma dos cabelos, e são pensativas ao cobrir os olhos. Porque a outra lá fora pode não estar, e os gostos são outros, e as roupas são feias.
E seguem nas oitavas dos cantos, desafinando vez em quando. Elas que agora se arrependem, de não ter aproveitado a chance que tiveram, de reaprender anualmente a se habituar com o inverno.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Constatações de um sábado à noite
O cheiro do mar, à noite, é doce.
As Tetas da Fafá de Belém são tão grandes, que funcionam como lupas: podemos ver as veias azuladas que drenam sua libido para as pregas vocais.
O trânsito de São Paulo é desesperador, mas tem saídas; o trânsito do Rio é desesperador quando não tem saídas.
Minha amiga Juliana Palermo canta Todo Sentimento do jeito que eu gosto; Cristovão Bastos toca Todo Sentimento do jeito que eu gosto - lógico, a música é dele.
O túnel de São Conrado só tem mesmo luz no fim do túnel.
Eu ando me emocionando só com a idéia de poder criar.
Sérgio Britto talvez seja eu amanhã, tamanha a identificação.
Fafá de Belém é bandida e solta na vida.
Chico Buarque de Holanda me faz chorar pelo encantamento do fazer, mais que pelo conteúdo; mas também pelo conteúdo, dependendo do conteúdo e do dia, obviamente.
Os cariocas são, no geral e infelizmente, muito mal-educados.
É interessante estar em silêncio e só, para ouvir o tilintar do gelo no copo, como um guizo de cabrito, enquanto andamos pela sala, descalços, bebendo água.
Nada como fazer cocô no aconchego do sentir-se em casa, e de portas abertas.
Jazz contemporâneo mal-feito é demasiado chato.
Definitivamente, preciso a aprender a usar o Nextel.
O Rio é tão bonito à noite, quanto o é de dia! De dia, brilha a praia, à noite. brilham os morros. E os olhos... Ah, os olhos brilham sempre!
As Tetas da Fafá de Belém são tão grandes, que funcionam como lupas: podemos ver as veias azuladas que drenam sua libido para as pregas vocais.
O trânsito de São Paulo é desesperador, mas tem saídas; o trânsito do Rio é desesperador quando não tem saídas.
Minha amiga Juliana Palermo canta Todo Sentimento do jeito que eu gosto; Cristovão Bastos toca Todo Sentimento do jeito que eu gosto - lógico, a música é dele.
O túnel de São Conrado só tem mesmo luz no fim do túnel.
Eu ando me emocionando só com a idéia de poder criar.
Sérgio Britto talvez seja eu amanhã, tamanha a identificação.
Fafá de Belém é bandida e solta na vida.
Chico Buarque de Holanda me faz chorar pelo encantamento do fazer, mais que pelo conteúdo; mas também pelo conteúdo, dependendo do conteúdo e do dia, obviamente.
Os cariocas são, no geral e infelizmente, muito mal-educados.
É interessante estar em silêncio e só, para ouvir o tilintar do gelo no copo, como um guizo de cabrito, enquanto andamos pela sala, descalços, bebendo água.
Nada como fazer cocô no aconchego do sentir-se em casa, e de portas abertas.
Jazz contemporâneo mal-feito é demasiado chato.
Definitivamente, preciso a aprender a usar o Nextel.
O Rio é tão bonito à noite, quanto o é de dia! De dia, brilha a praia, à noite. brilham os morros. E os olhos... Ah, os olhos brilham sempre!
Lapa Brasil
Nesta noite, que em breve irei finalizar em sono cansado, posso dizer que fui ao centro do Brasil. Sim, eu estou sóbrio, e posso dizer que fui ao centro do Brasil. E o centro do Brasil, para minha surpresa, está no Rio de Janeiro; mais especificamente, na Lapa Carioca.
Já estive na Lapa diversas vezes, sempre de forma nostálgica, em busca daquela tal malandragem de navalha que ouvimos nas canções e lemos nos livros e peças por aí. À última vez que estive no Rio, fui novamente à Lapa e notei um fervilhar mais envenenado. Mas estava com amigos, e não pude fazer o que fiz hoje, sozinho: explorar.
Explorei a Lapa de cabo a rabo, em meio a mendigos, playboys, putas, gays, patricinhas, malandros, lésbicas e sapatões, punks, emos, hippies, ladrões, ambulantes, gringos de todo o mundo, e cheguei à conclusão de que, se hoje o Brasil tem algum centro, este centro está lá, na Lapa Carioca.
Não só pela miscigenação racial, sexual e cultural, mas também, e principalmente, musical. Em meios a milhões de boates e bares, colados lado a lado, podemos ouvir, em vinte passos, uma variedade musical que engloba samba de raiz, samba de favela, samba de roda, roda de samba, cocada, frevo, axé, pagode, funk carioca, funk funk mesmo, jazz, soul, rock heavy, rock melado, todos os tipos de música eletrônica, samba-enredo, e assim vai... Só não aparece o tal sertanejo universitário, o que mostra que o centro do Brasil é, ao menos, um pouco centrado.
E o mais interessante é que não dá nem vontade de entrar nas baladas. A rua ferve e pulsa sozinha. E é lotada por uma fauna espetacular.
Depois de perambular muito, até os pés e as costas gritarem, me percebi um pouco perdido na minha nacionalidade. Sentia que estava no centro do país, mas não conseguia encontrar exatamente a brasilidade que estava procurando. Lógico que não. Que constatação imbecil. Eu estava no meio dela. A brasilidade era tudo aquilo. A mistura. O bololô. O mexidão. A gororoba brasileira que tanto amo! Mas – pensava eu – se eu fosse um gringo e quisesse me sentir no Brasil, do que precisaria? E, pensando assim, passei em frente ao Carioca da Gema, uma espécie de casa de gafieira, e pelos graves que o bumbo latia lá de dentro, cheguei à conclusão de que, em meio a toda a diversidade brasileira, a única que unia a tudo e a todos era o bom e velho samba de terreiro, a verdadeira origem de toda a mistureba desta terra.
E assim, depois de sambar sozinho até as quatro da manhã, finalizei a noite voltando pra casa em um táxi onde só tocava música do Senhor, enquanto comia um acarajé tão fresco que era digno de trabalho. Mais brasileiro que isso, só dançando rumba com maracas e camisa de babados, e tendo como capital do país, mí Buenos Aires querido.
Já estive na Lapa diversas vezes, sempre de forma nostálgica, em busca daquela tal malandragem de navalha que ouvimos nas canções e lemos nos livros e peças por aí. À última vez que estive no Rio, fui novamente à Lapa e notei um fervilhar mais envenenado. Mas estava com amigos, e não pude fazer o que fiz hoje, sozinho: explorar.
Explorei a Lapa de cabo a rabo, em meio a mendigos, playboys, putas, gays, patricinhas, malandros, lésbicas e sapatões, punks, emos, hippies, ladrões, ambulantes, gringos de todo o mundo, e cheguei à conclusão de que, se hoje o Brasil tem algum centro, este centro está lá, na Lapa Carioca.
Não só pela miscigenação racial, sexual e cultural, mas também, e principalmente, musical. Em meios a milhões de boates e bares, colados lado a lado, podemos ouvir, em vinte passos, uma variedade musical que engloba samba de raiz, samba de favela, samba de roda, roda de samba, cocada, frevo, axé, pagode, funk carioca, funk funk mesmo, jazz, soul, rock heavy, rock melado, todos os tipos de música eletrônica, samba-enredo, e assim vai... Só não aparece o tal sertanejo universitário, o que mostra que o centro do Brasil é, ao menos, um pouco centrado.
E o mais interessante é que não dá nem vontade de entrar nas baladas. A rua ferve e pulsa sozinha. E é lotada por uma fauna espetacular.
Depois de perambular muito, até os pés e as costas gritarem, me percebi um pouco perdido na minha nacionalidade. Sentia que estava no centro do país, mas não conseguia encontrar exatamente a brasilidade que estava procurando. Lógico que não. Que constatação imbecil. Eu estava no meio dela. A brasilidade era tudo aquilo. A mistura. O bololô. O mexidão. A gororoba brasileira que tanto amo! Mas – pensava eu – se eu fosse um gringo e quisesse me sentir no Brasil, do que precisaria? E, pensando assim, passei em frente ao Carioca da Gema, uma espécie de casa de gafieira, e pelos graves que o bumbo latia lá de dentro, cheguei à conclusão de que, em meio a toda a diversidade brasileira, a única que unia a tudo e a todos era o bom e velho samba de terreiro, a verdadeira origem de toda a mistureba desta terra.
E assim, depois de sambar sozinho até as quatro da manhã, finalizei a noite voltando pra casa em um táxi onde só tocava música do Senhor, enquanto comia um acarajé tão fresco que era digno de trabalho. Mais brasileiro que isso, só dançando rumba com maracas e camisa de babados, e tendo como capital do país, mí Buenos Aires querido.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Amor Amor
É linda a capacidade do amor de se habituar com os regozijos que ele mesmo gera.
Meu amor nunca foi tão puro, tão amor e tão amado. Aquele amor que é solto, que plaina.
Livre de querer ter o que simplesmente é e precisa ser para poder ser o que é.
Preso apenas no sentimento mais verdadeiro de querer tanto o bem da pessoa amada, que parte o pão sem sequer pensar na falta que a metade presenteada fará. Mas que também nunca deixa de comer, pois precisa viver para assim poder amar.
Aquele amor que ri o riso do outro.
Aquele amor que abraça sem força, sem garras, mas com todo o tônus que o aconchego da alma pede.
Aquele amor que toca e não arranha, e que quando arranha é porque toca.
Aquele amor que gera a saudade, vive a saudade e mata a saudade, dia-a-dia.
Aquele amor que quer amar assim para sempre, que ama com os olhos, não com a pele, que ama com os pulmões, não com o coração.
Ah, aquele amor... Esse amor... Que não é meu amor, por não ser meu, por ser somente amor amor.
Meu amor nunca foi tão puro, tão amor e tão amado. Aquele amor que é solto, que plaina.
Livre de querer ter o que simplesmente é e precisa ser para poder ser o que é.
Preso apenas no sentimento mais verdadeiro de querer tanto o bem da pessoa amada, que parte o pão sem sequer pensar na falta que a metade presenteada fará. Mas que também nunca deixa de comer, pois precisa viver para assim poder amar.
Aquele amor que ri o riso do outro.
Aquele amor que abraça sem força, sem garras, mas com todo o tônus que o aconchego da alma pede.
Aquele amor que toca e não arranha, e que quando arranha é porque toca.
Aquele amor que gera a saudade, vive a saudade e mata a saudade, dia-a-dia.
Aquele amor que quer amar assim para sempre, que ama com os olhos, não com a pele, que ama com os pulmões, não com o coração.
Ah, aquele amor... Esse amor... Que não é meu amor, por não ser meu, por ser somente amor amor.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Perda
A cada lágrima escorrida, uma dor lancinante no peito.
Terrível é sentir a própria voz fazendo a outra voz tremer.
Vontade de voar atrás das palavras ditas, de recolhê-las e engoli-las ao que é sombrio e não-dito.
Desejo de apagar e reformular os gestos. De borrar os olhos pra que não se expressem tanto.
Correr atrás do tempo.
Pegar os cacos com as mãos desnudas, para que o sangue possa jorrar e, quem sabe assim, colá-los na forma que outrora foram.
Medo de jamais conseguir reconstruir. Medo das cicatrizes que causei. Medo de ter esquecido, ou pior, perdido algum pedaço, algum retalho.
Medo do pedido de desculpas não ser suficiente. E não é, eu sei. Não é porque para mim mesmo não está sendo.
Vergonha do impensado. Vergonha do impulsivo. Vergonha da impertinência.
Que o perdão possa um dia levar consigo qualquer rastro, qualquer resto, qualquer fiapo ou excesso da dor que um dia causei.
E se esta dor insistir em doer, que doa em mim mil vezes mais do que em quem sempre amei.
Terrível é sentir a própria voz fazendo a outra voz tremer.
Vontade de voar atrás das palavras ditas, de recolhê-las e engoli-las ao que é sombrio e não-dito.
Desejo de apagar e reformular os gestos. De borrar os olhos pra que não se expressem tanto.
Correr atrás do tempo.
Pegar os cacos com as mãos desnudas, para que o sangue possa jorrar e, quem sabe assim, colá-los na forma que outrora foram.
Medo de jamais conseguir reconstruir. Medo das cicatrizes que causei. Medo de ter esquecido, ou pior, perdido algum pedaço, algum retalho.
Medo do pedido de desculpas não ser suficiente. E não é, eu sei. Não é porque para mim mesmo não está sendo.
Vergonha do impensado. Vergonha do impulsivo. Vergonha da impertinência.
Que o perdão possa um dia levar consigo qualquer rastro, qualquer resto, qualquer fiapo ou excesso da dor que um dia causei.
E se esta dor insistir em doer, que doa em mim mil vezes mais do que em quem sempre amei.
Cristais Eduardo - Agora, O Fato!
Parece que nem tudo está intacto. Parece que, ainda assim, continuam tentando. Parece que tudo o que é digno, hora ou outra se cerca do que parece ser, e hora ou outra acaba sendo, abusivo. C´est la vie.
Reportagem sobre a Cristais Eduardo (link abaixo), enviada para mim pelo repórter Edmundo Oliveira Leite Junior. Ao Edmundo, obrigado!
http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid241086,0.htm
Reportagem sobre a Cristais Eduardo (link abaixo), enviada para mim pelo repórter Edmundo Oliveira Leite Junior. Ao Edmundo, obrigado!
http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid241086,0.htm
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Aos Emos que Amo
Me preocupo com aqueles que eu amo.
A preocupação muitas vezes beira a prepotência de pensar saber o que é melhor ou pior para o próximo. Beira, e às vezes acaba caindo. E isso será sempre assim. De todo modo, a minha linha de vida acabou me levando a eternos e constantes treinamentos na sutil arte da observação do outro, para fins terapêuticos ou artísticos, tanto faz, uma vez que tenho como foco, sempre, o desejo de melhorias na vida do observado. Posso falhar, como posso acertar.
E isto é para dizer que vejo, ao meu redor, pessoas queridas se emaranhando em teias e tramas de sentimentos depressivos e depreciativos, pensamentos distorcidos por carências da alma, atitudes destrutivas e viciadas, e o que é pior, procurando, inconscientemente ou não, o convívio com pessoas que só catalisam e potencializam suas amarras.
O meu desespero e cansaço é perceber nestes que amo um movimento contrário ao que os faz crescer, uma vez que é este o principal objetivo da crise. A sensação que tenho é que estão mergulhando cada vez mais fundo e nem tentam nadar em busca de uma tomada de ar. Parece que se apóiam uns nos outros e procuram terceiros com quem possam, como os jovens emos neo-existencialistas, criar aos poucos uma sociedade da melancolia, dos infortúnios, uma sociedade da desilusão, permeada por laços de lágrimas e de abandonos.
Aos que eu amo, e por tudo que sinto, desejo que carreguem suas cruzes com mais classe. Que não deixem de sofrer, se o sofrimento é realmente necessário, pois isso pode empobrecer o espírito, mas que possam rir mais, não dos outros, mas de si próprios, e hoje, sabendo que amanhã é exatamente isso que farão. Desejo que percebam que aqueles que só os confortam no estado em que estão, causam somente o malefício da repetição do nada. Que notem que as mudanças devem ser dolorosas para serem realmente mudanças. Que saiam de suas zonas de conforto, que olhem para cima e sorriam, e dancem ao som do silêncio que os habitam, e que bebam suas próprias lágrimas, para que estas não sejam derramadas em vão.
Desejo que passem pelos estreitamentos dos renascimentos da vida com a mesma audácia com que vieram ao mundo, e que chorem como da primeira vez, pela dor do ar escancarando seus pulmões e os preenchendo com a beleza e alegria de estarem vivos.
A preocupação muitas vezes beira a prepotência de pensar saber o que é melhor ou pior para o próximo. Beira, e às vezes acaba caindo. E isso será sempre assim. De todo modo, a minha linha de vida acabou me levando a eternos e constantes treinamentos na sutil arte da observação do outro, para fins terapêuticos ou artísticos, tanto faz, uma vez que tenho como foco, sempre, o desejo de melhorias na vida do observado. Posso falhar, como posso acertar.
E isto é para dizer que vejo, ao meu redor, pessoas queridas se emaranhando em teias e tramas de sentimentos depressivos e depreciativos, pensamentos distorcidos por carências da alma, atitudes destrutivas e viciadas, e o que é pior, procurando, inconscientemente ou não, o convívio com pessoas que só catalisam e potencializam suas amarras.
O meu desespero e cansaço é perceber nestes que amo um movimento contrário ao que os faz crescer, uma vez que é este o principal objetivo da crise. A sensação que tenho é que estão mergulhando cada vez mais fundo e nem tentam nadar em busca de uma tomada de ar. Parece que se apóiam uns nos outros e procuram terceiros com quem possam, como os jovens emos neo-existencialistas, criar aos poucos uma sociedade da melancolia, dos infortúnios, uma sociedade da desilusão, permeada por laços de lágrimas e de abandonos.
Aos que eu amo, e por tudo que sinto, desejo que carreguem suas cruzes com mais classe. Que não deixem de sofrer, se o sofrimento é realmente necessário, pois isso pode empobrecer o espírito, mas que possam rir mais, não dos outros, mas de si próprios, e hoje, sabendo que amanhã é exatamente isso que farão. Desejo que percebam que aqueles que só os confortam no estado em que estão, causam somente o malefício da repetição do nada. Que notem que as mudanças devem ser dolorosas para serem realmente mudanças. Que saiam de suas zonas de conforto, que olhem para cima e sorriam, e dancem ao som do silêncio que os habitam, e que bebam suas próprias lágrimas, para que estas não sejam derramadas em vão.
Desejo que passem pelos estreitamentos dos renascimentos da vida com a mesma audácia com que vieram ao mundo, e que chorem como da primeira vez, pela dor do ar escancarando seus pulmões e os preenchendo com a beleza e alegria de estarem vivos.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Cristais Eduardo
Nos arredores de minha casa existem três grandes obras, de três altos prédio, imponentes, que em breve surgirão.
Acordo todos os dias com o bate-estacas gritando, fazendo tremer o chão onde piso.
Hoje, passando mais perto, enfrentando de frente os gigantes que estão por vir, percebi, na exata interseccção das três construções, um casa ainda menor que a minha. Não apenas uma casa, uma loja. Pensei como ela estaria sobrevivendo aos maiorais quando, olhando bem, vi que não era uma loja qualquer. Era uma loja de cristais finos. Finos, finos, bem finos. E intactos aos terremotos das máquinas que os cercam. Sem um trinco, uma lasca, uma rachadura sequer.
E, como o fato não poderia se tornar mais simbólico, notei o nome da loja: Cristais Eduardo.
C´est la vie!
Acordo todos os dias com o bate-estacas gritando, fazendo tremer o chão onde piso.
Hoje, passando mais perto, enfrentando de frente os gigantes que estão por vir, percebi, na exata interseccção das três construções, um casa ainda menor que a minha. Não apenas uma casa, uma loja. Pensei como ela estaria sobrevivendo aos maiorais quando, olhando bem, vi que não era uma loja qualquer. Era uma loja de cristais finos. Finos, finos, bem finos. E intactos aos terremotos das máquinas que os cercam. Sem um trinco, uma lasca, uma rachadura sequer.
E, como o fato não poderia se tornar mais simbólico, notei o nome da loja: Cristais Eduardo.
C´est la vie!
À Noite
A lua, ontem, era de fino traço. Era adornada por pequenos pontos.
O ar ventava, mas o vento estava parado.
Os passos, meus e de outros, ecoavam sobre viadutos.
Os gatos, pardos, cruzavam seus sentidos.
Assim são as noites banhadas pelo meu olhar.
São cenários varridos e brilhantes, de energia estática e expectante.
Minhas noites são meus palcos.
É à noite que renasço diariamente. É quando visto minha máscara preferida. É quando de elegância lavo meus trajes.
E escolho desfilar por onde passo, sobre pés ou rodas. E me incluo na vida pulsante. E enxergo melhor, porque a luz é melhor. E corro, e salto, e latejo.
É à noite que minha voz está afinada, que entôo meus pensamentos em cânticos. É quando sigo ereto e enxáguo, com meus hormônios, tudo que minha alma consegue ver.
É quando dou cria às sinapses, quando acasalo os insights, quando sorrio pelo peito para poder beijar com a boca.
À noite sou mais fálico, maníaco, mais bicho e mais humano. Sonho sem dormir. Viajo sem sair.
Que o sol brilhe sempre, para poder se pôr.
As noites serão, sempre, e já são, só minhas.
Pobres os santos, donos apenas dos dias.
O ar ventava, mas o vento estava parado.
Os passos, meus e de outros, ecoavam sobre viadutos.
Os gatos, pardos, cruzavam seus sentidos.
Assim são as noites banhadas pelo meu olhar.
São cenários varridos e brilhantes, de energia estática e expectante.
Minhas noites são meus palcos.
É à noite que renasço diariamente. É quando visto minha máscara preferida. É quando de elegância lavo meus trajes.
E escolho desfilar por onde passo, sobre pés ou rodas. E me incluo na vida pulsante. E enxergo melhor, porque a luz é melhor. E corro, e salto, e latejo.
É à noite que minha voz está afinada, que entôo meus pensamentos em cânticos. É quando sigo ereto e enxáguo, com meus hormônios, tudo que minha alma consegue ver.
É quando dou cria às sinapses, quando acasalo os insights, quando sorrio pelo peito para poder beijar com a boca.
À noite sou mais fálico, maníaco, mais bicho e mais humano. Sonho sem dormir. Viajo sem sair.
Que o sol brilhe sempre, para poder se pôr.
As noites serão, sempre, e já são, só minhas.
Pobres os santos, donos apenas dos dias.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Coração de Diamante
Eu não consegui! Não consegui me desapegar das cinzas. Não pude lançá-las ao vento, nem ao mar. Fui egoísta, materialista, possessivo. Preferi transformá-las em diamante. Bruto. Brutal. Rígido. Denso. Um coração de diamante, onde jaz quem eu tanto amei, quem eu ainda amo.
Ando com ele pendurado contra o peito, guardião das minhas dores e das batidas do meu pulso. Um amuleto ensimesmante e aprisionador de minha alma, da porção Eros do meu Ser.
Tornei-me zumbi e um renegado do amor. A morte de um, que acabou matando dois. Que triste esta condição a que me dispus. Mas não consigo tentar, tampouco tentar tentar.
Eu, preso no chão. Ela, presa no ar. Eu, amarrando-a em mim. Ela, pesando meu andar.
Ando com ele pendurado contra o peito, guardião das minhas dores e das batidas do meu pulso. Um amuleto ensimesmante e aprisionador de minha alma, da porção Eros do meu Ser.
Tornei-me zumbi e um renegado do amor. A morte de um, que acabou matando dois. Que triste esta condição a que me dispus. Mas não consigo tentar, tampouco tentar tentar.
Eu, preso no chão. Ela, presa no ar. Eu, amarrando-a em mim. Ela, pesando meu andar.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
P U T O
Uma pessoa passa a toda pelo sinal vermelho e acerta em cheio o meu carro. Uma pessoa estava com outra pessoa, e se machucaram. Estavam sem cinto de segurança. Meu carro, todos sabem, é levado para um cemitério de automóveis. Morte súbita!
Meu carro tem seguro. O da pessoa, não.
O pai da pessoa diz que a pessoa é meio abobalhada. Que não devia pegar carro. Se vivo hoje é por Deus, não por essa pessoa.
O pai da pessoa me liga dois dias depois e tenta me subornar para assumir a culpa.
A amiga do pai da pessoa me liga algumas horas depois, e tenta me subornar para assumir a culpa. “Nem que fosse o Papa”, são minhas palavras.
Quinze dias depois, hoje, me liga o suposto advogado da pessoa. A pessoa dizendo que estava amarelo. A pessoa dizendo que veio pela direita e tinha preferencial. A pessoa, que nem tentou frear e que é, segundo o próprio pai, meio abobalhada, é muito simples na hora de pedir, e muito esperta na hora de se virar.
Me deixa puto! A injustiça me deixa puto! Sei que isso não vai dar em nada. Sei que comigo vai ficar tudo bem. Mas o simples fato das tentativas de suborno e agora essa palhaçada de advogadinho de porta de cadeia querendo sair por cima, me deixam PUTO!!
Quantos prostitutos existem neste mundo.... Quanta sacanagem e falta de dignidade!
Meu carro tem seguro. O da pessoa, não.
O pai da pessoa diz que a pessoa é meio abobalhada. Que não devia pegar carro. Se vivo hoje é por Deus, não por essa pessoa.
O pai da pessoa me liga dois dias depois e tenta me subornar para assumir a culpa.
A amiga do pai da pessoa me liga algumas horas depois, e tenta me subornar para assumir a culpa. “Nem que fosse o Papa”, são minhas palavras.
Quinze dias depois, hoje, me liga o suposto advogado da pessoa. A pessoa dizendo que estava amarelo. A pessoa dizendo que veio pela direita e tinha preferencial. A pessoa, que nem tentou frear e que é, segundo o próprio pai, meio abobalhada, é muito simples na hora de pedir, e muito esperta na hora de se virar.
Me deixa puto! A injustiça me deixa puto! Sei que isso não vai dar em nada. Sei que comigo vai ficar tudo bem. Mas o simples fato das tentativas de suborno e agora essa palhaçada de advogadinho de porta de cadeia querendo sair por cima, me deixam PUTO!!
Quantos prostitutos existem neste mundo.... Quanta sacanagem e falta de dignidade!
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Procuração
Tem gente que senta e desfia a vida dos outros. Tem gente que veste.
Tem gente que senta e avalia a vida dos outros. Tem gente que voa.
Tem gente que senta e vaia a vida dos outros. Tem gente que grita.
Tem gente que senta e comenta a vida dos outros. Tem gente que vive.
Tem gente que nasceu pra sentar e olhar. Tem gente que nasceu para sonhar e andar. Olha pra cá, camarada! Pode falar, pode falar, pode babar pelo meu caminhar. Quando, qualquer dia, eu decidir voltar, saberei certamente onde te achar. Já você, camarada, se decidir me encontrar, não terá idéia de por onde começar.
Tem gente que senta e avalia a vida dos outros. Tem gente que voa.
Tem gente que senta e vaia a vida dos outros. Tem gente que grita.
Tem gente que senta e comenta a vida dos outros. Tem gente que vive.
Tem gente que nasceu pra sentar e olhar. Tem gente que nasceu para sonhar e andar. Olha pra cá, camarada! Pode falar, pode falar, pode babar pelo meu caminhar. Quando, qualquer dia, eu decidir voltar, saberei certamente onde te achar. Já você, camarada, se decidir me encontrar, não terá idéia de por onde começar.
Casa
Onde eu moro a voz de uma mulher abafa o som da construção;
onde eu moro, as flores da velha senhora crescem em cores surpreendentes;
onde eu moro, o sol bate de cima, de lado e de dentro;
onde eu moro, tem jogo de amarelinha desenhado no asfalto;
onde eu moro, tem espada de São Jorge desviando mal-olhado;
onde eu moro, o tempo passa diferente, deixando a gente ser mais a gente.
onde eu moro, as flores da velha senhora crescem em cores surpreendentes;
onde eu moro, o sol bate de cima, de lado e de dentro;
onde eu moro, tem jogo de amarelinha desenhado no asfalto;
onde eu moro, tem espada de São Jorge desviando mal-olhado;
onde eu moro, o tempo passa diferente, deixando a gente ser mais a gente.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Peter Pan
Fui atentado outro dia, não por um qualquer, mas por alguém que vale a pena escutar, sobre a chamada Síndrome do Peter Pan. Sabe, a criança adulta que se recusa a crescer? Pois é, atentaram-me a isso.
Será? Será mesmo?
Já tinha pensado nisso, muito mesmo, há um certo tempo, mas achei que já havia superado tal Síndrome. Acho ainda.
Sempre me identifiquei demais com a sintomatologia, com minha comunhão com filmes que tratavam do tema – quem nunca viu “Em Busca da Terra do Nunca”, que não perca.
Mas hoje minha visão é outra... Não acho que seja síndrome, no meu caso. Simplesmente por não ser "um conjunto de sinais e sintomas", no meu caso. No meu caso, chama-se personalidade.
Síndrome, acredito eu, tive enquanto era criança. Isso sim, não muito saudável. Porque quando criança, tive a Síndrome do Capitão Gancho. Eu era uma criança adulta, hiper-responsável, independente, que achava as outras crianças tolas e se interessava nos assuntos e problemáticas dos adultos. Gostoso, para mim, era ouvir e me meter nas conversas dos adultos. E quase não fazia nada de errado, e estudava muito, e era bom em tudo o que me propunha a fazer.
E hoje, depois de adulto, achei minha criança. Que continua a mesma criança adulta de antes, continua responsável, preocupada, mas que não perdeu o olhar de criança do mundo. Como vejo beleza e novidade por aí! Como tenho esperança! Como acredito na transformação! Como vivo em poesia e não em prosa!
Peter Pan... Peter Pan era meio bobão, que imitava galo e batia as asinhas por aí. Eu? Eu não! Eu não vôo, caminho. Não cacarejo, canto. Não sou fixo, cresço.
Agora, se a transgressão, a transcendência, a beleza, o sonho e a arte forem sintomas, aí sim, talvez eu seja mesmo um sindrômico! E se assim for... Por Deus! Amém!!
Será? Será mesmo?
Já tinha pensado nisso, muito mesmo, há um certo tempo, mas achei que já havia superado tal Síndrome. Acho ainda.
Sempre me identifiquei demais com a sintomatologia, com minha comunhão com filmes que tratavam do tema – quem nunca viu “Em Busca da Terra do Nunca”, que não perca.
Mas hoje minha visão é outra... Não acho que seja síndrome, no meu caso. Simplesmente por não ser "um conjunto de sinais e sintomas", no meu caso. No meu caso, chama-se personalidade.
Síndrome, acredito eu, tive enquanto era criança. Isso sim, não muito saudável. Porque quando criança, tive a Síndrome do Capitão Gancho. Eu era uma criança adulta, hiper-responsável, independente, que achava as outras crianças tolas e se interessava nos assuntos e problemáticas dos adultos. Gostoso, para mim, era ouvir e me meter nas conversas dos adultos. E quase não fazia nada de errado, e estudava muito, e era bom em tudo o que me propunha a fazer.
E hoje, depois de adulto, achei minha criança. Que continua a mesma criança adulta de antes, continua responsável, preocupada, mas que não perdeu o olhar de criança do mundo. Como vejo beleza e novidade por aí! Como tenho esperança! Como acredito na transformação! Como vivo em poesia e não em prosa!
Peter Pan... Peter Pan era meio bobão, que imitava galo e batia as asinhas por aí. Eu? Eu não! Eu não vôo, caminho. Não cacarejo, canto. Não sou fixo, cresço.
Agora, se a transgressão, a transcendência, a beleza, o sonho e a arte forem sintomas, aí sim, talvez eu seja mesmo um sindrômico! E se assim for... Por Deus! Amém!!
Cheiro de Dona Olímpia
A rua hoje estava cheirando à Dona Olímpia. Um cheiro doce, mas não enjoativo.
Dona Olímpia era uma professora de Ciências da minha época de colégio. E o perfume dela ficava mais intenso em dias como hoje, dias frios mas não tanto, chuvosos mas não tanto. Dias de preguiça, em que a estática do ar é estranha, em que as pessoas falam baixo e pensam devagar.
Em dias assim, o ônibus ia dormindo. Podíamos ouvir as respirações. As pessoas ficavam mais nas salas de aula durante o recreio, e poucas corriam.
As aulas de Dona Olímpia eram sempre as últimas. E o perfume dela, aquele perfume de aconchego, me acompanhava de volta para casa, se misturava um pouco com o gosto do Todinho que eu preferia guardar para depois em dias como esses; dias como hoje. Dias que passavam calmamente, sem euforia nem tristeza, nem pretos nem brancos, dias comuns e gostosos, em que não havia obrigações de sairmos de dentro de nós mesmos.
Gostava de dias assim; gostava de Dona Olímpia; gostava de chegar em casa com sono e cansado, e não pensar em nada, e não me preocupar com isso.
Hoje, a rua estava cheirando à Dona Olímpia. Hoje, o dia estava calmo. Hoje, eu me fui essencial.
Dona Olímpia era uma professora de Ciências da minha época de colégio. E o perfume dela ficava mais intenso em dias como hoje, dias frios mas não tanto, chuvosos mas não tanto. Dias de preguiça, em que a estática do ar é estranha, em que as pessoas falam baixo e pensam devagar.
Em dias assim, o ônibus ia dormindo. Podíamos ouvir as respirações. As pessoas ficavam mais nas salas de aula durante o recreio, e poucas corriam.
As aulas de Dona Olímpia eram sempre as últimas. E o perfume dela, aquele perfume de aconchego, me acompanhava de volta para casa, se misturava um pouco com o gosto do Todinho que eu preferia guardar para depois em dias como esses; dias como hoje. Dias que passavam calmamente, sem euforia nem tristeza, nem pretos nem brancos, dias comuns e gostosos, em que não havia obrigações de sairmos de dentro de nós mesmos.
Gostava de dias assim; gostava de Dona Olímpia; gostava de chegar em casa com sono e cansado, e não pensar em nada, e não me preocupar com isso.
Hoje, a rua estava cheirando à Dona Olímpia. Hoje, o dia estava calmo. Hoje, eu me fui essencial.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Cubalançando
Essa noite fui pra Cuba. E Cuba não ia lançar foguetes. Não fui ver Cuba lançar! Fui relaxar. Tomar sol e dançar salsa. E foi boooommm....
Outro dia estava refletindo na quantidade de coisas que nós perdemos da vida, vendo Cuba lançando. Tantas vezes que deixamos de prestar atenção em nós mesmos, nos nossos estados internos e nos outros estímulos naturais externos que temos à nossa disposição, só porque não podemos desviar o olhar dos lançamentos de Cuba. Como nossos instintos nos atrapalham e nos boicotam. Incômoda necessidade humana de se proliferar. E tudo isso porque já estamos bem evoluídos. Em épocas cavernosas, provavelmente iríamos à praia e nos lembraríamos apenas das bundas que vimos passando. Havia mar? Não sei. Morros? Não sei. Bundas? Opa, várias!
Freud já morreu há muito tempo, terráqueos! Não precisamos mais agradar ao cadáver. Temos pornografia de fácil acesso, sexo de fácil acesso, pela Internet, por telefone, 24 horas, boates que se tornaram verdadeiras saunas eróticas... Dá tempo de relaxar, vai. Dá tempo de vislumbrar algo mais elevado, vai. Dá tempo de ir à Cuba, desencanar dos foguetes e simplesmente gozar do ar respirado! E dançar, e dança e dançar sob o sol poente!
Outro dia estava refletindo na quantidade de coisas que nós perdemos da vida, vendo Cuba lançando. Tantas vezes que deixamos de prestar atenção em nós mesmos, nos nossos estados internos e nos outros estímulos naturais externos que temos à nossa disposição, só porque não podemos desviar o olhar dos lançamentos de Cuba. Como nossos instintos nos atrapalham e nos boicotam. Incômoda necessidade humana de se proliferar. E tudo isso porque já estamos bem evoluídos. Em épocas cavernosas, provavelmente iríamos à praia e nos lembraríamos apenas das bundas que vimos passando. Havia mar? Não sei. Morros? Não sei. Bundas? Opa, várias!
Freud já morreu há muito tempo, terráqueos! Não precisamos mais agradar ao cadáver. Temos pornografia de fácil acesso, sexo de fácil acesso, pela Internet, por telefone, 24 horas, boates que se tornaram verdadeiras saunas eróticas... Dá tempo de relaxar, vai. Dá tempo de vislumbrar algo mais elevado, vai. Dá tempo de ir à Cuba, desencanar dos foguetes e simplesmente gozar do ar respirado! E dançar, e dança e dançar sob o sol poente!
domingo, 10 de agosto de 2008
Savoir Vivre
Dizem que quando estamos para passar desta para outra, não sabemos se melhor ou pior, nossa vida passa como filme pela mente.
Eu sabia, então, que não seria desta vez. Nada passou pela minha mente, a não ser a imagem de uma pista de carrinhos de bate-bate de parque de diversão.
Paguei a língua; nem tudo é rotineiro no interior. Ver uma amiga cantando na praça, vazia, debaixo de chuva, com uma, somente uma pessoa inspirada dançando molhada, fingindo que estava se divertindo, e emendar o evento com uma colisão – em termos policiais – fenomenal, que acabaria em perda total do veículo – também em termos policiais - não é para qualquer noite de sábado.
Dar risada com amigos, cantando e dançando samba, numa noite gelada e chuvosa – digo, na mesma noite gelada e chuvosa – em frente a um carro – meu carro – travestido de lata de atum amassada, dobrada ao meio, enquanto a viatura policial e a equipe de resgate realizavam seus trabalhos, não é para qualquer noite de sábado.
Passar por um acidente deste naipe sem um arranhão sequer, para conseguir dançar e cantar samba em frente ao ocorrido, não é para qualquer noite de sábado.
Passear na delegacia e se entreter com cartazes de desaparecidos rabiscados de forma jocosa pelos próprios policiais, como este:
FULANO – DESAPARECIDO
(A foto do Fulano era especial: o Fulano estava vestido de caipira, com chapéu de palha junino e tudo.)
SOBRANCELHA CORTADA
Obs.: A última vez que foi visto estava na rodoviária, por volta das 21:00. Estava com uma guitarra, chapéu, calça rasgada e uma caixa de som preta.
... não é para qualquer noite de sábado.
Passar fome de madrugada e brincar de bandido no banco de trás da viatura não é para qualquer noite de sábado.
Sim, lição aprendida.
Não encha o tanque do carro antes de dar uma PT.
Não mande o carro para a oficina para ele ficar sem arranhões na lataria, antes de dar uma PT.
Tome muito cuidado antes de ir ver uma amiga cantar: você pode passar por um seqüestro relâmpago e roubo de veículo à mão armada, ou dar uma PT – sim, aconteceu comigo;sim, ambas as partes; sim era a mesma amiga; sim, era o mesmo carro.
Cuidado com esta minha amiga (ou com quem toca soul com ela).
Sim, lição mais que aprendida.
É importante ter “as mesmas pessoas” no interior.
É importante ter “as mesmas pessoas” em outros lugares.
É importante criar novos assuntos com “as mesmas pessoas” – mas não necessariamente de forma tão intensa como esta.
É importante esquecer a partitura, deixar de lado a leitura, viver a aventura e se jogar na viatura.
VENHA PARA CAMPINAS! ELA TE ESPERA DE RISOS ABERTOS!
Eu sabia, então, que não seria desta vez. Nada passou pela minha mente, a não ser a imagem de uma pista de carrinhos de bate-bate de parque de diversão.
Paguei a língua; nem tudo é rotineiro no interior. Ver uma amiga cantando na praça, vazia, debaixo de chuva, com uma, somente uma pessoa inspirada dançando molhada, fingindo que estava se divertindo, e emendar o evento com uma colisão – em termos policiais – fenomenal, que acabaria em perda total do veículo – também em termos policiais - não é para qualquer noite de sábado.
Dar risada com amigos, cantando e dançando samba, numa noite gelada e chuvosa – digo, na mesma noite gelada e chuvosa – em frente a um carro – meu carro – travestido de lata de atum amassada, dobrada ao meio, enquanto a viatura policial e a equipe de resgate realizavam seus trabalhos, não é para qualquer noite de sábado.
Passar por um acidente deste naipe sem um arranhão sequer, para conseguir dançar e cantar samba em frente ao ocorrido, não é para qualquer noite de sábado.
Passear na delegacia e se entreter com cartazes de desaparecidos rabiscados de forma jocosa pelos próprios policiais, como este:
FULANO – DESAPARECIDO
(A foto do Fulano era especial: o Fulano estava vestido de caipira, com chapéu de palha junino e tudo.)
SOBRANCELHA CORTADA
Obs.: A última vez que foi visto estava na rodoviária, por volta das 21:00. Estava com uma guitarra, chapéu, calça rasgada e uma caixa de som preta.
... não é para qualquer noite de sábado.
Passar fome de madrugada e brincar de bandido no banco de trás da viatura não é para qualquer noite de sábado.
Sim, lição aprendida.
Não encha o tanque do carro antes de dar uma PT.
Não mande o carro para a oficina para ele ficar sem arranhões na lataria, antes de dar uma PT.
Tome muito cuidado antes de ir ver uma amiga cantar: você pode passar por um seqüestro relâmpago e roubo de veículo à mão armada, ou dar uma PT – sim, aconteceu comigo;sim, ambas as partes; sim era a mesma amiga; sim, era o mesmo carro.
Cuidado com esta minha amiga (ou com quem toca soul com ela).
Sim, lição mais que aprendida.
É importante ter “as mesmas pessoas” no interior.
É importante ter “as mesmas pessoas” em outros lugares.
É importante criar novos assuntos com “as mesmas pessoas” – mas não necessariamente de forma tão intensa como esta.
É importante esquecer a partitura, deixar de lado a leitura, viver a aventura e se jogar na viatura.
VENHA PARA CAMPINAS! ELA TE ESPERA DE RISOS ABERTOS!
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Tempo
Peraí, peraí, calma!
Deixa primeiro eu me engolir, pra depois me tornar irresistível.
Me dá mais um tempinho.
Un ratito, tío, y nada más!
Deixa primeiro eu me engolir, pra depois me tornar irresistível.
Me dá mais um tempinho.
Un ratito, tío, y nada más!
Impaciência
U-hu! Que legal! Vai ter uma festa super supimpa! Vai ser lá, no mesmo lugar! Vão as mesmas pessoas! Serão as mesmas bebidas! Ah, e os mesmos assuntos! O-ba! Que tuuuudo de boooom! Cada um no seu cantinho, olhando o cantinho do outro. Hahahahahahahahahahahaha!!! Ai, que divertido! Eu não vejo a hora!! Nooossaaa, você não sabe! Na semana passada, aconteceu uma coisa muuuuito biruta! O Fulaninho ficou tão bêbado, que foi falar umas coisas pra Fulaninha, que deixou ele falando sozinho. Hahahahaahahahaha. Foi super divertido! E a Beltrana anda meio estranha... Meio sem dar risada. Que estranho gente triste. Mas a Ciclana tá emagrecendo, e a Outra Lá, só engorda. Tadinha. Ah, te contei que eu ia pular de pára-quedas? Mas eu não posso mais. Lembrei que vou fazer a unha no mesmo horário. Nossa, esse final de semana está lotado de eventos!! Olha, te espero lá na festa, hein!! Vai ser eletrizante!! Um Suuuuuper beijo! Te adoro!!
VENHA PARA CAMPINAS! ELA TE ESPERA DE BRAÇOS ABERTOS!
VENHA PARA CAMPINAS! ELA TE ESPERA DE BRAÇOS ABERTOS!
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Rouquidão
O que tusso eu nos meus dias de seca?
Sinto às vezes o buraco tão fundo, que a aflição erupta o nada. Nada sai. Nada vai. Nada vem.
A cabeça lacrimeja em divagações chulas e nulas.
O corpo reage com forte inércia, preguiça e fraqueza.
É uma gripe sem vírus, uma febre gelada.
Mas a tosse insiste em falar, e fala por mim e por ela. Mas não fala nada. Só tosse. Uma tosse que tosse a si própria. Seca. Incolor. Quase muda.
E tossindo, e tossindo, vago pelo labirinto que eu mesmo construí, querendo sair, mas sem procurar a saída. Querendo ganhar sem jogar. Esperando a parte que me cabe deste cosmifúndio.
E então, me pergunto sem querer responder sozinho. Me pergunto querendo ajuda, desta vez. Me pergunto sem Me perguntar: o que tusso eu nos meus dias de seca?
Sinto às vezes o buraco tão fundo, que a aflição erupta o nada. Nada sai. Nada vai. Nada vem.
A cabeça lacrimeja em divagações chulas e nulas.
O corpo reage com forte inércia, preguiça e fraqueza.
É uma gripe sem vírus, uma febre gelada.
Mas a tosse insiste em falar, e fala por mim e por ela. Mas não fala nada. Só tosse. Uma tosse que tosse a si própria. Seca. Incolor. Quase muda.
E tossindo, e tossindo, vago pelo labirinto que eu mesmo construí, querendo sair, mas sem procurar a saída. Querendo ganhar sem jogar. Esperando a parte que me cabe deste cosmifúndio.
E então, me pergunto sem querer responder sozinho. Me pergunto querendo ajuda, desta vez. Me pergunto sem Me perguntar: o que tusso eu nos meus dias de seca?
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Do Rio
É importante tirar os óculos pra perceber o real azul do mar. Tirar os sapatos pra sentir o real teor da areia. Livrar-se dos fones pra ouvir o ruído das ondas. Calar a música e cantar o canto dos ambulantes.
É importante despir a pele e se deixar queimar. Invejar os corpos e se deixar suar. Liberar a alma e desejar o toque.
É importante destravar a língua e arranhar o R. Relaxar a boca e chiar o S.
É importante aprender que, frente ao sol e ao samba, a importância que importamos, não importa nunca.
É importante apagar a Mooca, esquecer da Oca e se sentir carioca.
É importante despir a pele e se deixar queimar. Invejar os corpos e se deixar suar. Liberar a alma e desejar o toque.
É importante destravar a língua e arranhar o R. Relaxar a boca e chiar o S.
É importante aprender que, frente ao sol e ao samba, a importância que importamos, não importa nunca.
É importante apagar a Mooca, esquecer da Oca e se sentir carioca.
domingo, 3 de agosto de 2008
Pronta!
Pronto.
Estou pronta. Já posso usar a roupa que eu quero, e não preciso mais difamar o que no fundo eu gostaria de ser.
Pronta. Já me olho no espelho e me gosto.
Já me lambuzei de alma leve. Meu olhar é mais branco. Passei alvejante nos dentes e encerei minha pele.
Entreguei meus cabelos. Pode usar, sob minha cabeça quero chapéu furado e arejado.
Estou pronta. Estou ágil. Posso andar nua, ou quase.
Posso ser mais uma, se eu quiser. Não preciso ser mais a outra.
Olha pra mim, olha à vontade. Pode olhar que eu me mostro a você. Não temo nada.
Olha pra mim. Pode comparar à vontade. Sou mesmo parecida com tantas, sou mesmo melhor nisso e pior naquilo. De que importa. Sou eu mesma quando quero, sou as outras quando quero. Não me escondo mais na raridade ou na diferença. Olha, compara, escolhe e compra!
Visto camisola branca e curta, visto as pernas de fora, saio de madrugada, me deixo molhar pela garoa e me transmuto na translucidez.
Estou pronta. Estou lúcida, translúcida, transformada, transsex; transportada por mim mesma.
Estou pronta. Pega a chave, tranca a porta e me deixa pra fora. Estou pronta. Estou feliz.
Estou pronta. Já posso usar a roupa que eu quero, e não preciso mais difamar o que no fundo eu gostaria de ser.
Pronta. Já me olho no espelho e me gosto.
Já me lambuzei de alma leve. Meu olhar é mais branco. Passei alvejante nos dentes e encerei minha pele.
Entreguei meus cabelos. Pode usar, sob minha cabeça quero chapéu furado e arejado.
Estou pronta. Estou ágil. Posso andar nua, ou quase.
Posso ser mais uma, se eu quiser. Não preciso ser mais a outra.
Olha pra mim, olha à vontade. Pode olhar que eu me mostro a você. Não temo nada.
Olha pra mim. Pode comparar à vontade. Sou mesmo parecida com tantas, sou mesmo melhor nisso e pior naquilo. De que importa. Sou eu mesma quando quero, sou as outras quando quero. Não me escondo mais na raridade ou na diferença. Olha, compara, escolhe e compra!
Visto camisola branca e curta, visto as pernas de fora, saio de madrugada, me deixo molhar pela garoa e me transmuto na translucidez.
Estou pronta. Estou lúcida, translúcida, transformada, transsex; transportada por mim mesma.
Estou pronta. Pega a chave, tranca a porta e me deixa pra fora. Estou pronta. Estou feliz.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Compre Bem
A: Seu troco, senhor.
S: Obrigado.
A: Próximo, por favor. Nota fiscal paulista? Cartão fidelidade?
S: Ah, desculpe - olhando a nota, depois de já ter aberto uma das latinhas de Skol que acabara de guardar na sacola plástica - o que é isso aqui?
A: É sua salsicha, senhor.
S: Mas tá errado - um gole de cerveja - lá dizia que custava 2,50. Aqui tá marcando 4,25.
A: Não, senhor - analisando a salsicha - o valor é esse mesmo.
S: Não, está errado. Lá dizia 2,50 - mais um golinho da cerveja geladinha.
A: Só um minuto.
Ele sai de trás do balcão. A fila atrás de mim cresce. O moço da salsicha continua sereno, bebendo sua cervejinha.
A: Senhor, é isso mesmo. O senhor leu errado. 2,50 é a Salsicha Compre Bem. O senhor pegou a Sadia, que é 4,25.
S: Mas lá estava marcando 2,50.
A: Sim, estava marcando 2,50 e escrito "Salsicha Compre Bem". A Sadia é outro valor.
S: Então não vou levar. Vou devolver - e outro gole sereno.
A: Só um momento. Oh, Luis, cancela aqui pra mim.
Vem o Luis.
Luis: O que foi.
A: Este senhor pegou a salsicha errada. Ele achou que custasse 2,50.
S: Mas custa 2,50.
A: Não, senhor. Esta aqui não custa 2,50. Esta é a Sadia, custa 4,25. A de 2,50 é a Compre Bem.
Luis: Não dá pra cancelar. Já fechou a nota. Oh, Gislene, vem aqui um pouco.
Vem a Gislene. Eu na fila. Ah, este era o caixa 10 volumes.
Gislene: O que foi?
S: Lá estava escrito 2,50 e na nota saiu 4,25.
A (já bem alterado): 2,50 é a Compre Bem. 4,25 é a Sadia. Ele pegou a Sadia, achando que era 2,50.
S: Eu não vou levar - a latinha de cerveja já quase acabando.
Gislene: Não dá pra cancelar o item. Precisa cancelar a compra toda e devolver 4,25 pra ele. Depois precisa passar a compra de novo, sem a salsicha. O senhor não vai querer a salsicha, né?
S: É 4,25 ou 2,50?
Gislene: Depende da salsicha, moço. A Compre Bem é 2,50. O senhor vai querer a Salsicha Compre Bem?
S: Não, eu queria essa daqui. Tava escrito 2,50, mas aqui saiu 4,25, então não vou querer. Vou devolver.
Gislene: Tudo bem. Cancela a compra dele, devolve 4,25 e depois passa tudo de novo, sem a salsicha. O senhor não quer mesmo a Compre Bem?
S: É 2,50 ou 4,25?
Gislene: É 2,50.
S: Então porque saiu aqui 4,25?
A: Porque essa não é a Compre Bem! A Compre Bem é 2,50. Essa é a Sadia. O senhor quer que a gente pegue a Compre Bem?
S: Não é essa aqui?
Gislene: Não, essa é 4,25. A Compre Bem é a outra.
S: Quanto é a outra?
A: 2,50.
S: Não, não vou querer não. Vou devolver.
A: Tudo bem, Gislene. Obrigado.
Era uma segunda-feira. Fim do dia. As filas ao lado estavam enormes, enormes. Eu tinha menos de 10 volumes. Eu não merecia passar pela saga da salsicha. Até uma velhinha japonesa, com um chapéu de palha pendurado no pescoço se irritou e saiu da fila. Havia um silêncio constrangedor, um absurdamento latente, mas ninguém falava nada. Ou esperava, ou desistia, e ele bebia cerveja, como se aquilo fosse uma conversa de boteco. Eu estava com um sentimento estranho: um mix de raiva, indignação e alegria. Aquilo foi estranhamente engraçado.
Um fato importante. Não aconteceu no Rio de Janeiro. Aconteceu em São Paulo mesmo.
S: Obrigado.
A: Próximo, por favor. Nota fiscal paulista? Cartão fidelidade?
S: Ah, desculpe - olhando a nota, depois de já ter aberto uma das latinhas de Skol que acabara de guardar na sacola plástica - o que é isso aqui?
A: É sua salsicha, senhor.
S: Mas tá errado - um gole de cerveja - lá dizia que custava 2,50. Aqui tá marcando 4,25.
A: Não, senhor - analisando a salsicha - o valor é esse mesmo.
S: Não, está errado. Lá dizia 2,50 - mais um golinho da cerveja geladinha.
A: Só um minuto.
Ele sai de trás do balcão. A fila atrás de mim cresce. O moço da salsicha continua sereno, bebendo sua cervejinha.
A: Senhor, é isso mesmo. O senhor leu errado. 2,50 é a Salsicha Compre Bem. O senhor pegou a Sadia, que é 4,25.
S: Mas lá estava marcando 2,50.
A: Sim, estava marcando 2,50 e escrito "Salsicha Compre Bem". A Sadia é outro valor.
S: Então não vou levar. Vou devolver - e outro gole sereno.
A: Só um momento. Oh, Luis, cancela aqui pra mim.
Vem o Luis.
Luis: O que foi.
A: Este senhor pegou a salsicha errada. Ele achou que custasse 2,50.
S: Mas custa 2,50.
A: Não, senhor. Esta aqui não custa 2,50. Esta é a Sadia, custa 4,25. A de 2,50 é a Compre Bem.
Luis: Não dá pra cancelar. Já fechou a nota. Oh, Gislene, vem aqui um pouco.
Vem a Gislene. Eu na fila. Ah, este era o caixa 10 volumes.
Gislene: O que foi?
S: Lá estava escrito 2,50 e na nota saiu 4,25.
A (já bem alterado): 2,50 é a Compre Bem. 4,25 é a Sadia. Ele pegou a Sadia, achando que era 2,50.
S: Eu não vou levar - a latinha de cerveja já quase acabando.
Gislene: Não dá pra cancelar o item. Precisa cancelar a compra toda e devolver 4,25 pra ele. Depois precisa passar a compra de novo, sem a salsicha. O senhor não vai querer a salsicha, né?
S: É 4,25 ou 2,50?
Gislene: Depende da salsicha, moço. A Compre Bem é 2,50. O senhor vai querer a Salsicha Compre Bem?
S: Não, eu queria essa daqui. Tava escrito 2,50, mas aqui saiu 4,25, então não vou querer. Vou devolver.
Gislene: Tudo bem. Cancela a compra dele, devolve 4,25 e depois passa tudo de novo, sem a salsicha. O senhor não quer mesmo a Compre Bem?
S: É 2,50 ou 4,25?
Gislene: É 2,50.
S: Então porque saiu aqui 4,25?
A: Porque essa não é a Compre Bem! A Compre Bem é 2,50. Essa é a Sadia. O senhor quer que a gente pegue a Compre Bem?
S: Não é essa aqui?
Gislene: Não, essa é 4,25. A Compre Bem é a outra.
S: Quanto é a outra?
A: 2,50.
S: Não, não vou querer não. Vou devolver.
A: Tudo bem, Gislene. Obrigado.
Era uma segunda-feira. Fim do dia. As filas ao lado estavam enormes, enormes. Eu tinha menos de 10 volumes. Eu não merecia passar pela saga da salsicha. Até uma velhinha japonesa, com um chapéu de palha pendurado no pescoço se irritou e saiu da fila. Havia um silêncio constrangedor, um absurdamento latente, mas ninguém falava nada. Ou esperava, ou desistia, e ele bebia cerveja, como se aquilo fosse uma conversa de boteco. Eu estava com um sentimento estranho: um mix de raiva, indignação e alegria. Aquilo foi estranhamente engraçado.
Um fato importante. Não aconteceu no Rio de Janeiro. Aconteceu em São Paulo mesmo.
sábado, 26 de julho de 2008
Um brinde... Adeus!
Acho que o maior sinal de que estamos envelhecendo é a transformação de nossa relação com a morte. Não só com a nossa, mas com a dos outros.
Quando crianças, ouvimos falar de mortes, longes, distantes. A morte de pessoas que, quando nascemos, já estavam mais pra lá do que pra cá, ou se não, morte de pessoas que nós, por ainda sermos verdes, não tivemos a chance de conhecer a fundo, pessoas que não participaram de nossas vidas. E isso fica distante, como uma tela pendurada, da qual somos apenas observadores.
Sábado passado, morreu Dercy. E eu fiquei extremamente emocionado com sua ida. Chorei, fiz questão de propor brindes e brindes, e se tivesse peitos, eu os mostraria em sua homenagem. Se fosse dez anos atrás, seria mais um dado, mais uma notícia. Sábado passado, foi uma vivência.
Eu não a conhecia a fundo, e nem era um grande fã, apesar de tirar o chapéu pela sua trajetória e pelo seu papel na história dos palcos brasileiros, história da qual sou também personagem, ainda em começo de gênese, mas sou. Enfim, de qualquer forma, ela fez parte da minha existência. Fez parte do meu in e con scientes. Deu tempo.
E isso tende a se intensificar. Hoje, digo que não temo a morte. Não a minha. Mas que medo eu tenho de nunca mais poder abraçar os que eu amo.
Quando crianças, ouvimos falar de mortes, longes, distantes. A morte de pessoas que, quando nascemos, já estavam mais pra lá do que pra cá, ou se não, morte de pessoas que nós, por ainda sermos verdes, não tivemos a chance de conhecer a fundo, pessoas que não participaram de nossas vidas. E isso fica distante, como uma tela pendurada, da qual somos apenas observadores.
Sábado passado, morreu Dercy. E eu fiquei extremamente emocionado com sua ida. Chorei, fiz questão de propor brindes e brindes, e se tivesse peitos, eu os mostraria em sua homenagem. Se fosse dez anos atrás, seria mais um dado, mais uma notícia. Sábado passado, foi uma vivência.
Eu não a conhecia a fundo, e nem era um grande fã, apesar de tirar o chapéu pela sua trajetória e pelo seu papel na história dos palcos brasileiros, história da qual sou também personagem, ainda em começo de gênese, mas sou. Enfim, de qualquer forma, ela fez parte da minha existência. Fez parte do meu in e con scientes. Deu tempo.
E isso tende a se intensificar. Hoje, digo que não temo a morte. Não a minha. Mas que medo eu tenho de nunca mais poder abraçar os que eu amo.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Paulicices
Ele, um velho mendigo, com um dos olhos tapados por um pedaço de pano sujo, que um dia fora uma gravata de um executivo da Avenida Paulista.
Ele, um velho manco e bem vestido, com um sorriso estampado nos olhos, vindo de um lugar desconhecido, indo a um lugar desconhecido.
Ele, um velho negro com uma pequena folha verde nas mãos, caminhando na Rua Augusta, em meio a hypes, intelectuais, artistas, e prostitutas.
Ele, com um dos olhos tapados, vagando por lojas de decoração da Baixa Teodoro, não pôde enxergar direito, por estar com um dos olhos tapados, ou por estar exageradamente bêbado, e ao meio.
Ele, manco mas sorridente, enxerga exatamente três figuras entrando no elevador de onde ele saia, rumo ao desconhecido, e além das três figuras enxerga.
Ele, com os ouvidos absolutos cansados de buzinas e gritos, encontra conhecidos em uma mesa na calçada, e senta.
Ele, não enxergando direito, vê na fachada de uma das lojas, um ornamento dourado em contraste com a parede de granito preto, enorme e redondo, que para nada deve servir, mas que para ele é um cofre gigante que esconde tudo o que a ele falta.
Ele, enxergando além das três figuras, observa em especial o antebraço do entregar da padaria vizinha, que acabara de entregar uma média e um pão na chapa à secretária do escritório, e que agora entrava no elevador de onde ele saia, para voltar à padaria.
Ele, cansado das buzinas e gritos, e especialmente cansado do riso escandaloso da amiga do amigo que na mesa da calçada sentado estava e a quem ele se juntara, leva a pequena folha verde à boca.
Ele, decidido a abrir aquilo que para ele era um cofre, mas que sabemos nós que para nada servia, segura firmemente o ornamento dourado e em um impulso de toda a força que lhe resta, tenta primeiramente girar, na obviedade de ser um cofre, e não conseguindo nem um movimento do ornamento, puxa.
Ele, observando o antebraço do entregador, além de pele, ossos e nervos vê a fechadura que ele sempre buscara, a fim de encaixar a chave que com ele nascera, e que ele sempre carregara.
Ele, cansado de tanto silêncio barulhento e levando a pequena folha verde à boca, começa a emitir notas de um trompete, calando o riso escandaloso da amiga do amigo, e calando qualquer som despropositado daquela madrugada.
Ele, que mesmo puxando não consegue nada, junta os cacos de sua força embriagada, e apoiando os pés na parede de granito da fachada, e agora acompanhado de um grunhido como efeito sonoro, mais uma vez, puxa.
Ele, vendo a tão sonhada fechadura para sua chave no antebraço daquele entregador, ataca com a chave imaginária em punhos, e a enfia com finco na fechadura que só ele via, e que nós sabemos que não havia.
Ele, na proeza de produzir um bolero com a pequena folha que em seus lábios pendia, abrilhantava uma rua suja e continuava silenciando a gritaria.
Ele, com um dos olhos tapados e cansado de tanto tentar e nada conseguir da vida, esbraveja, xinga, se lembra por um milésimo de tempo do porquê que é mendigo, cambaleia e decide tentar seguir caminhando.
Ele, percebendo que sua fechadura não era nada além de um antebraço de uma figura desconhecida, por dentro rindo da cara de questão do espantado entregador, segue por fora só sorrindo, com o mesmo sorriso com o qual a pouco saíra do elevador, e rumo ao por nós desconhecido, continua mancando indo.
Ele, soprando na pequena folha verde o resto da última nota de sua melodia, recebe os aplausos que tanto merecia, sorri com orgulho, e se apresenta “O Folhinha”.
Ele, um velho manco e bem vestido, com um sorriso estampado nos olhos, vindo de um lugar desconhecido, indo a um lugar desconhecido.
Ele, um velho negro com uma pequena folha verde nas mãos, caminhando na Rua Augusta, em meio a hypes, intelectuais, artistas, e prostitutas.
Ele, com um dos olhos tapados, vagando por lojas de decoração da Baixa Teodoro, não pôde enxergar direito, por estar com um dos olhos tapados, ou por estar exageradamente bêbado, e ao meio.
Ele, manco mas sorridente, enxerga exatamente três figuras entrando no elevador de onde ele saia, rumo ao desconhecido, e além das três figuras enxerga.
Ele, com os ouvidos absolutos cansados de buzinas e gritos, encontra conhecidos em uma mesa na calçada, e senta.
Ele, não enxergando direito, vê na fachada de uma das lojas, um ornamento dourado em contraste com a parede de granito preto, enorme e redondo, que para nada deve servir, mas que para ele é um cofre gigante que esconde tudo o que a ele falta.
Ele, enxergando além das três figuras, observa em especial o antebraço do entregar da padaria vizinha, que acabara de entregar uma média e um pão na chapa à secretária do escritório, e que agora entrava no elevador de onde ele saia, para voltar à padaria.
Ele, cansado das buzinas e gritos, e especialmente cansado do riso escandaloso da amiga do amigo que na mesa da calçada sentado estava e a quem ele se juntara, leva a pequena folha verde à boca.
Ele, decidido a abrir aquilo que para ele era um cofre, mas que sabemos nós que para nada servia, segura firmemente o ornamento dourado e em um impulso de toda a força que lhe resta, tenta primeiramente girar, na obviedade de ser um cofre, e não conseguindo nem um movimento do ornamento, puxa.
Ele, observando o antebraço do entregador, além de pele, ossos e nervos vê a fechadura que ele sempre buscara, a fim de encaixar a chave que com ele nascera, e que ele sempre carregara.
Ele, cansado de tanto silêncio barulhento e levando a pequena folha verde à boca, começa a emitir notas de um trompete, calando o riso escandaloso da amiga do amigo, e calando qualquer som despropositado daquela madrugada.
Ele, que mesmo puxando não consegue nada, junta os cacos de sua força embriagada, e apoiando os pés na parede de granito da fachada, e agora acompanhado de um grunhido como efeito sonoro, mais uma vez, puxa.
Ele, vendo a tão sonhada fechadura para sua chave no antebraço daquele entregador, ataca com a chave imaginária em punhos, e a enfia com finco na fechadura que só ele via, e que nós sabemos que não havia.
Ele, na proeza de produzir um bolero com a pequena folha que em seus lábios pendia, abrilhantava uma rua suja e continuava silenciando a gritaria.
Ele, com um dos olhos tapados e cansado de tanto tentar e nada conseguir da vida, esbraveja, xinga, se lembra por um milésimo de tempo do porquê que é mendigo, cambaleia e decide tentar seguir caminhando.
Ele, percebendo que sua fechadura não era nada além de um antebraço de uma figura desconhecida, por dentro rindo da cara de questão do espantado entregador, segue por fora só sorrindo, com o mesmo sorriso com o qual a pouco saíra do elevador, e rumo ao por nós desconhecido, continua mancando indo.
Ele, soprando na pequena folha verde o resto da última nota de sua melodia, recebe os aplausos que tanto merecia, sorri com orgulho, e se apresenta “O Folhinha”.
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